Uma TV

Renato Follador


Época de Natal, há duas décadas, uma professora encomendou uma redação em que seus alunos dissessem o que gostariam que Deus fizesse por eles.

Já em casa, corrigindo as redações, deparou-se com uma que a deixou muito emocionada.

O marido, ao vê-la assim perguntou: o que aconteceu? Ela respondeu: leia, passando a folha de papel. É a redação de um aluno.
O marido pegou a folha e começou a ler.

“Senhor, esta noite peço-te algo muito especial: transforma-me numa televisão.

Quero viver como a televisão da minha casa vive. Ocupar o espaço dela, um lugar especial para eu reunir a família em volta.

Ser escutado sem interrupções ou perguntas, ser levado a sério quando falar. Ser o centro das atenções.

Ter a companhia do meu pai quando ele chega à casa, mesmo que esteja cansado.

Que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ignorar.

E ainda, que os meus irmãos “briguem” para poderem me ver.

Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo.

Por fim, que eu possa divertir a todos.

Senhor, não te peço muito, só ser uma TV.”

Quando terminou a leitura, o marido virou-se para a mulher e disse: meu Deus, coitado desse menino. Que pais ele tem!

A professora olhou nos olhos do marido dizendo num sussurro: essa redação é do nosso filho!

Olha, não mudou muito. A televisão de ontem é o smartphone de hoje.

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