A pós-verdade e os seus tentáculos

Janaina Chiaradia


In loco: transmitindo informações e compartilhando experiências

Nova série: as palavras e as coisas, por Everton Gonçalves

Em mais um texto da sua série, dentro do In Loco, o amigo, professor de português e literatura, revisor de textos e escritor de ensaios e poemas, Everton Gonçalves, nos apresenta suas reflexões e ensinamentos… então vamos lá!

A pós-verdade e os seus tentáculos

Na peça Henrique V (ato V, cena 2) de Shakespeare, está escrito em francês: O bon Dieu! Les langues des hommes sont pleines de tromperies [Meu Deus! As línguas dos homens são repletas de enganações]. Shakespeare com toda sua genialidade conseguiu traduzir como as mentiras fazem parte da vida do homem. O linguista alemão Harold Wenrinch afirma: “A mentira está no mundo. Ela está em nós e ao nosso redor”.

A sociedade pós-moderna, constituída de toda sua fluidez e rapidez nas informações, conseguiu ultrapassar os limites da mentira. Hoje em dia fala-se em pós-verdade. Em 2016, o conceito de pós-verdade alcançou o seu máximo potencial, muitas pessoas começaram a questionar o que seria esse fenômeno social – e podemos dizer que seria um fenômeno linguístico também. Já que a mentira passa pelas palavras e as palavras formam o imaginário coletivo e individual.

Pós-verdade é aquilo que percebemos ganhar força nos últimos anos: as pessoas acreditam mais nas crenças pessoais e teorias particulares a fatos verdadeiros e objetivos. Se antes poderíamos dizer: “penso, logo existo”, na era da pós-verdade afirma-se: “acredito, logo estou certo”. As opiniões individuais tornaram-se a régua para medir propostas sociais e políticas.

Teorias da conspiração e fake news são filhos da pós-verdade. A família da pós-verdade é rebelde, descontrolada e violenta. Quando as fake news são propagadas nas redes sociais, significa que os seus autores já beberam da pós-verdade faz tempo. Essas aberrações discursivas fomentam a era de desinformação, promovendo ideias erradas e fortalecendo redes de mentiras – mentiras que são tão bem articuladas que se infiltram em famílias e estados.

Quem utiliza a pós-verdade como instrumento de desinformação, geralmente consegue ter uma capacidade retórica grande. Aristóteles já afirmava sobre os conceitos de ethos, pathos e logos. O Ethos é a percepção que o público tem sobre o orador. O ethos (ética) do orador da pós-verdade geralmente é um ethos de “salvador”, alguém que descobriu o cálice sagrado da informação verdadeira. Ele possui um discurso de quem descobriu ou conheceu o que ninguém antes tinha conhecido.

Hoje, fala-se que algumas histórias do passado são lendas urbanas, mas na ocasião daquele discurso, para aquele povo, não era lenda urbana. Ele tomava aquilo como verdade absoluta. A famosa orientação popular: “se beber leite com manga você morre”, foi por muito tempo uma verdade – mas era apenas uma pós-verdade. Uma mentira que foi contada por muito tempo e que foi tomada por verdade. As expressões podem ter mudado no decorrer do tempo, mas o mecanismo da pós-verdade continua o mesmo: mentiras elaboradas em forma de retórica verdadeira.

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.