Arte com direito e empresa têm a ver? Apenas tudo!

Janaina Chiaradia


In loco: transmitindo informações e compartilhando experiências

Nas entrelinhas do Direito, por André Cesar de Mello

 

Hoje não é sexta-feira, como de costume, da série “nas entrelinhas do Direito”, mas o tema escolhido, foi merecedor de um destaque, em plena terça-feira, afinal, precisamos refletir:

 

Arte com direito e empresa têm a ver? Apenas tudo!

O texto de hoje ficou por conta de Paula Yurie Abiko e André Cesar de Mello

 

Na coluna “Nas entrelinhas do Direito” estivemos sempre abordando assuntos envolvendo institutos novos do Direito e a aplicação disso no mundo empresarial. Hoje temos uma nova perspectiva: a utilização da arte no Direito e no mundo corporativo. Ou será que o Direito se utiliza da arte como meio para torná-lo ainda mais belo? Esse é um convite para quem é do Direito e para quem não é do Direito experimentar uma visão mais lúdica dos conflitos diários. Estão prontos? Vamos lá!

A literatura e as artes no geral (teatro, dança, música e pintura) possuem papel fundamental na formação dos indivíduos em sua totalidade, pois possibilitam uma análise mais acurada dos fatos cotidianos e demais vivências. O autor de uma peça ou livro, por exemplo, tenta expor, por meio de simples palavras, o sentimento, emoção e visão que está tendo em um determinado momento de sua vida. Essa tarefa não é nada fácil, uma vez que sentimentos jamais poderão ser perfeitamente explicados por meio de frases, pontos, vírgulas, adjetivos, substantivos, etc. Essa é a tarefa árdua do autor literário. Transmitir a riqueza subjetiva e sutil da vida em elementos concretos como palavras.

Nesse sentido, a arte na formação dos profissionais do Direito e do empresário se torna fundamental, pois possibilita o desenvolvimento de trabalhos de forma muito mais humana e cheia de empatia ao próximo, indubitavelmente importante em uma área que lida diariamente com os conflitos sociais. E aqui estamos falando para o atuante do Direito que está dentro de uma empresa assim como para aquele que está em seu gabinete, seu escritório, etc. Falamos isso também para o empresário que pratica a arte de crescer todos os dias em meio a diversas dificuldades. É só a arte que é capaz de humanizar e suavizar essa trajetória.

Podemos citar inúmeras obras de literatura que consideramos de suma importância para a formação dos profissionais do direito, como Crime e Castigo, Gente Pobre, Um Pequeno Herói, Memorias do Subsolo, todos do autor Russo Fiódor Dostoiésvki. Também citamos duas narrativas fantásticas: A Dócil e o Sonho de um Homem Ridículo, A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes são também obras que li e considero fundamentais do mesmo autor: Dostoiésvki.

Outro clássico da literatura que até a atualidade é estudado em grupos de pesquisa pela relevância de suas obras e abordagens é Shakespeare. No Brasil, há uma coletânea organizada com diversas obras do autor pela Professora da Universidade Federal do Paraná Liana Leão, que possui estudos pós-doutorais sobre o referido autor.

Sem dúvidas são peças fundamentais para entender os conflitos humanos e a perplexidade da vida em sociedade. Nessas peças estão presentes crimes, angústias, traições, conflitos políticos e sociais, como exemplo um caso de feminicídio na peça Otelo de Shakespeare. Será que a vida imita a arte ou a arte imita a vida? Segue um trecho:

 

Otelo
É a causa, sim, a causa, minh’alma,
Não a nomeio ante as castas estrelas:
É a causa; mas sangue não derramo,
Nem mancho sua pele, alve de neve
E lisa como a glória do alabastro;
Porém tem de morrer, senão trai outros.
Apago a luz, e, então, apago a luz:
Se a ti eu sufocar, oh flama ardente,
Posso de novo restaurar-te a luz, Se me arrependo; mas, se a você apago,
Molde sagaz na natureza excelsa,
Desconheço calor de Prometeu
Que a reascendesse: já colhida,
Não posso dar à rosa viva;
Tem de secar; vou cheirá-la no galho.

(Beija-a).

Hálito quente assim quase convence
A justiça a trair-se uma vez mais:
Se ficar assim morta, vou mata-la,
E amá-la depois: mais uma, a última,
E o doce mais fatal: agora choro,
Mas é pranto cruel, dor celestial
Que golpeia o que ama: ela desperta.

Desdêmona
Quem está ai, Otelo?

Otelo
Sim, Desdêmona.

Desdêmona
E vem deitar-se, meu senhor?

Otelo
Fez suas orações?

Desdemôna
Fiz, meu Senhor.

Otelo
Mas, se puder lembra-se de algum crime
Ainda sem perdão do céu e a graça,
Implore-o logo[1].

 

Conforme se observa no texto, as peças de Shakespeare possuem uma perpetuação na história, tendo em vista que em pleno século XXI, muitos anos após a escrita de suas peças, os temas tratados são demasiado atuais, como a violência de gênero e o feminicídio. Ainda, no tocante a conflitos políticos e sociais, segue um breve trecho da clássica peça Júlio César, no qual o personagem Brutus é protagonista de uma das maiores traições da história por interesses pessoais[2]. Vamos a ela?

 

BRUTUS:


Ouvi com paciência até o fim. Romanos, compatriotas e amigos! Ouvi-me por minha causa, e ficai em silêncio para poder ouvir. Acreditai-me por minha honra, e respeitai minha honra por poder acreditar. Censurai-me em vossa sabedoria e despertai vossos sentidos para julgar melhor. Se houver alguém nesta assembleia, algum querido amigo de César, a ele eu direi que o amor de Brutus por César não foi menor do que o seu. Se então ele perguntar por que Brutus levantou-se contra César, está é a minha resposta: não foi porque amei menos a César, mas porque amei mais a Roma. Preferiríeis vós que César estivesse vivo, para que morrêsseis todos escravos, a que César estivesse morto, para viverdes livres? Porque César me amava, choro por ele; porque foi feliz, regozijo-me; porque foi bravo, honro-o; mas porque era ambicioso, matei-o. Há lágrimas por seu amor, regozijo por sua felicidade, honra por sua bravura e morte por sua ambição. Quem há aqui tão baixo que quisesse ser escravo? Se há alguém, que fale; pois a ele eu ofendi. Quem há aqui tão rude que não quisera ser romano? Se tão vil que não ame o seu país? Se há alguém, que fale; pois a ele eu ofendi. Espero uma resposta[3].

Sem dúvidas um autor da literatura é fundamental para entender melhor os conflitos inerentes à vida humana. Agora indicaremos outro autor da literatura que considero muito importante para entender o autoritarismo no sistema penal, área que Paula Abiko estuda, trabalha e pesquisa atualmente.

Kafka escreveu clássicos da literatura como O processo, A metamorfose, Carta ao Pai e Na Colônia Penal. É, portanto, um autor muito importante para refletirmos sobre as mazelas e consequências de um processo autoritário. Na obra A colônia penal, o autor cria um cenário no qual, em um local distante, são praticadas as formas mais cruéis de torturas contra os indivíduos, conforme se observa na seguinte passagem:

 

– Ele conhece a sentença?

– Não, disse o oficial, e logo quis continuar com as suas explicações.

Mas o explorador interrompeu:

– Ele não conhece a própria sentença?

– Não, repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta; depois disse:

– Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne[3].

 

As obras indicadas são apenas alguns clássicos da literatura e são importantes para entender melhor a sociedade e conflitos humanos em sua totalidade. Para os profissionais do direito que atuam diariamente com as dores e angústias humanas, é fundamental reconhecer a importância da literatura e da arte na construção dos indivíduos para que a atuação desses profissionais possa ser cada vez mais efetiva, praticada com empatia e respeito ao próximo. Para os empresários, não é necessário sequer abordar que isso gera uma empatia muito maior para com o seu cliente e/ou colaborador, por exemplo, tornando o ambiente muito propício ao crescimento e à criatividade. Afinal de contas, o empresário quer ou não quer que as pessoas ao seu redor o auxiliem com boas ideias para seu negócio? Claro que quer!

Para os empresários, ávidos leitores desta coluna, esses textos têm real importância para compreender as agruras do mundo e entender a vida na perspectiva da arte. Todo empresário deve ter uma visão de 360º de seu negócio e do mundo, sob pena de limitar-se e perder oportunidades de crescimento. A arte, por meio dos textos e peças indicadas acima, dará visão ampla dos conflitos e dificuldades diárias pelas quais passará, fomentando a criatividade que hoje em dia é um ativo valiosíssimo..

Os leitores vão perguntar: Ok, André e Paula, entendi tudo isso. Mas qual a aplicação prática disso? E se eu, empresário, advogado, etc., quiser aplicar a arte no meu ambiente profissional, como farei? Muito bem, a arte estimula a criatividade e isso, no ambiente corporativo, tem enorme valor agregado. Certo? Algumas empresas (inclusive que participaram de estudos acadêmicos[4]) têm feito rodas de conversa semanais sobre literatura, buscando interpretar as vivências dos personagens e utilizando esses ensinamentos no ambiente corporativo. Esse é um meio de aplicar esse conhecimento no seu dia a dia.

Permitam-me dizer que, num mundo extremamente instrumentalizado (ou seja, busca-se ser, fazer e ter para chegar a algum lugar que geralmente é a riqueza) e distorcido (em relação a valores básicos como a ética), a arte surge como um bom instrumento de compreensão da vida e do outro ao seu lado; de seus anseios e limitações; de seus condicionamentos; de suas virtudes e desvirtudes. A arte serve como um óculos dado a um míope para ver o mundo e a vida sob outra ótica e com mais clareza. Usemos mais a arte em nossas vidas; usemos mais a arte em nossos negócios. A arte ensina todos os dias. A arte atinge muito mais do que nossa mente: atinge nossas profundezas mais sutis de nossos corações e emoções, dando-nos outra visão de mundo. Bom isso, não é?

Um abraço fraterno a todos os nossos leitores.

Sensacional o texto de hoje, como de costume… fica a dica, deixa a arte entrar na rotina de trabalho, deixa a mente fluir, e incentive o crescimento cultural de nossa sociedade…

Afinal:

 

 

[1] HELIODORA, Barbara; Organização LEÃO, Liana de Camargo. Grandes obras de Shakespeare. Peças histórica, inglesas e romanas. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2017, p. 477 e 478.

[2] HELIODORA, Barbara; Organização LEÃO, Liana de Camargo. Grandes obras de Shakespeare. Peças histórica, inglesas e romanas. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2017, p. 368.

[3] KAFKA, Franz. O veredicto/ Na colônia penal. Tradução: Modesto Carone. São Paulo, Companhia das letras, 2019, p. 36.

[4] Baptistella, Nanci Elisa. Arte nas empresas: pesquisa exploratória da utilização da arte como meio de comunicação com os funcionários nas empresas. 2011. 98 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011. Disponível em: < https://tede2.pucsp.br/handle/handle/4284>.

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.