Entre a dignidade da pessoa humana, uma sociedade livre, justa e solidaria, e o dever de recomeçar…

Janaina Chiaradia

Tanto se tem falado a respeito da dignidade da pessoa humana… dignidade essa que pode ser confrontada de pessoa para pessoa, conforme a realidade de cada uma, conforme os valores que cada qual adota, e os princípios que norteiam cada ambiente frequentado.

Uma pessoa que é muito amada por seus familiares, certamente, pensará diferente daquele que sofre maus tratos dentro de seu lar, quando o assunto a respeito da dignidade envolver afeto, compreensão e incentivo…

Um cidadão que possui um currículo escolar contendo estudo de pós-doutorado em instituição reconhecida internacionalmente, entende melhor os impactos das decisões de outros países no cotidiano brasileiro, se comparado com aquele que não teve acesso aos primeiros anos dos bancos escolares…

Alguém que se encontra inserido nos padrões considerados “adequados” para o contexto da sociedade, não consegue dimensionar a dor dos que sofrem com discriminação decorrente de sua formação ideológica, crença, cor ou sexo…

Um profissional bem sucedido, com estabilidade financeira, não compreende as aflições dos que nem com alimento em casa podem contribuir…

Esses são apenas alguns exemplos de situações enfrentadas frequentemente por muitos brasileiros, que apesar do direito consagrado na Constituição Federal de 1988, da “dignidade da pessoa humana”, em seu art. 1º, III, ainda não conseguem entender no que consiste… no que pode influenciar seu dia-a-dia.

O art. 3º, também da Constituição Federal de 1988, elenca como sendo um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, a construção de uma sociedade livre, justa e solidaria.

Então muitos ainda se questionam, e me questionam: o que está acontecendo? O que posso fazer? No que posso me socorrer?

Onde estão os direitos humanos quando uma criança é violentada? Quando a moralidade de uma pessoa é ofendida? Quando as pessoas se recusam em cumprir com seu dever legal? Quando alguém é vítima da maldade alheia? Quando um animal é abandonado? Quando um idoso é jogado em um canto qualquer da sociedade? Quando alguém é descartado como se fosse um objeto sem valor?

Realmente, tenho me deparado com muitas questões, que somente no aspecto do mundo jurídico, certamente, não haveria como se findar uma solução.

Temos uma lei maior bem elaborada, normas para boa parte das situações problemáticas da sociedade, órgão representativos, tanto do poder legislativo, como do executivo, e ainda, do judiciário.

Portanto, não nos falta fundamento, mas sim, sentimento… não nos faltam palavras para defesas, mas sim, atitudes plausíveis… não nos faltam direitos, mas sim, responsabilidades… não por questão de hierarquias, mas sim, de respeito.

Lutar por seus próprios interesses, é justo, desde que, não venha a ferir direitos alheios…

Atitudes erradas podem modificar ações futuras, desde que, visualizadas como aprendizagem e não sejam contaminadas pelo ardor da vingança.

Enfim… é dever não só do Estado, buscar e, colaborar para a justiça, liberdade e solidariedade, tão almejada… mas sim, igualmente, de cada cidadão… cada qual, deve não apenas aguardar que o próximo, ou o distante, lhe respeite, mas que por si só o cenário seja modificado.

Que a cada decisão adotada, os preceitos constitucionalmente previstos, possam tomar forma e invadir os mais diversos âmbitos sociais.

Quando for preciso, devemos lutar por nossos direitos, contudo, antes, observar a forma como construímos nossa jornada.

São tantos os nossos direitos… podemos optar com quem convivemos, com quem nos relacionamos, o que lemos, vemos, comemos, onde trabalhamos, e se isso tudo não fosse suficiente, ainda podemos, recomeçar.

Recomeçar um novo trabalho, um novo amor, um novo projeto, um novo lar, um novo estudo, um novo olhar… e isso sim, é fazer uso do direito da dignidade da pessoa humana… isso sim, representa uma sociedade livre, justa e solidária… mas isso, só depende de nós… valorizando o que já conquistamos, e aprimorando, o que ainda está por vir.

Durante a correria da semana, encontrei com meu eterno professor e orientador, o desembargador, Pós-Doutor em Direito, Dr. Luiz Eduardo Gunther, que entre as inúmeras atividades que desenvolve em seu cotidiano, ainda encontra tempo para, através de seus versos, impactar a sociedade com suas poesias, e uma delas, compartilho com todos:

Reconstruir-se após a desgraça,

com a música, a dança,

recriando a vida que passa,

que se procura e não se alcança.

Recolher, com firmeza,

a casa perdida, em pedaços,

pela força da correnteza,

reconstruindo novos pedaços.

Montar, fio a fio, o tecido,

da vida, que recomeça,

recriando, lentamente, o sentido

do que é preciso, peça a peça.

Quando as noites ruins (vilãs!),

alteradas pelo sol e pela esperança,

transformarem-se em manhãs,

volta a ser, de novo, criança”.

(Reconstruir-se (ser criança!)

Hoje, durante uma atividade e outra, uma música também contribuiu para a escrita:

Tenham todos um ótimo fim de semana,

Deus abençoe,

Abraços,

Janaina Chiaradia

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.