Frases de efeito com graves defeitos…

Janaina Chiaradia


In loco: transmitindo informações e compartilhando experiências

 Da série “A Bíblia e a Gestão de Pessoas”

 A série de hoje, do In Loco, vai nos proporcionar mais uma das lições do mestre, Paulo de Araújo, portanto, aprecie a lição e aprimore seus conhecimentos:

Frases de efeito com graves defeitos

Há determinados pensamentos formulados a partir de percepções equivocadas da realidade, cuja experiência pessoal, diante de uma situação pontual refletem algo particular, e que não deveriam ser propagadas como verdades absolutas aplicáveis a todos.

A transmissão cultural de algumas frases de efeito parece estar associada ao que a psicologia classifica como conceitos, comportamentos e crenças presentes no inconsciente coletivo.

Muita gente sabe aplicar aquele pensamento à situação correta, mas não sabe explicar por que faz isto e se está certo e faz sentido.

Gostaria de exercer uma reflexão crítica sobre algumas frases que classifico como frases de efeito com graves defeitos:

  • Se você quer que uma coisa seja bem-feita faça você mesmo. Esta é uma forma de pensar que reflete um comportamento centralizador. Há chefes, por exemplo, que não conseguem delegar tarefas e funções aos membros de seu grupo. Eles não confiam nas pessoas, simplesmente não acreditam que alguém possa fazer algo melhor do que eles. Esta forma de pensar pode refletir também uma atitude soberba, uma superestimação se próprio.
  • Pau que nasce torto morre torto. Esta frase é utilizada para afirmar que as pessoas não têm conserto, ou seja, não adianta insistir em querer mudá-las. Triste do indivíduo que acredita nisso; que incorpora em sua forma de pensar esta inverdade. É preciso acreditar no potencial humano. Se uma pessoa possui pontos limitantes importantes em seu comportamento, ela precisa acreditar que pode superar suas deficiências tornando-se melhor como pessoa e, a partir deste desenvolvimento pessoal, ampliar sua capacidade de realização.
  • Eu não levo desaforo para casa. Quem usa esta expressão como norma comportamental, pode estar demonstrando uma das maiores deficiências em termos de inteligência emocional: falta de auto controle. No livro de Provérbios, na Bíblia Sagrada, o escritor afirma que não responder ao insulto é uma atitude sábia. Esta forma de agir não indica passividade, mas sim a capacidade de auto controlar-se, mantendo-se em equilíbrio. A vergonha maior é de quem insulta, isto porque, quem faz isto está, na verdade, despejando seu lixo emocional sobre o outro. Não leve desaforo para casa, exerça o perdão e vá leve para casa.
  • Não vou fazer esta tarefa porque não sou pago para isso. Dr. Daniel Goleman, psicólogo, pesquisador e escritor do livro Inteligência Emocional, afirma em sua obra que 90% do sucesso de uma pessoa depende mais de aspectos associados à inteligência emocional do que ao quociente intelectual. Tendo em vista que há comprovação científica desta afirmativa, podemos afirmar que o indivíduo que acredita e se utiliza da frase supracitada, ainda não se desenvolveu emocionalmente. Sobretudo, quando analisamos o comportamento esperado pelas empresas em relação aos trabalhadores que almejam ascender profissionalmente. Há coisas que o dinheiro não paga, e entre elas está a possibilidade de aprendizado, e para que isto aconteça é necessário estar aberto a novas experiências, apto para enfrentar os processos de mudança, ser flexível e aceitar a realidade de que o crescimento, seja pessoal seja profissional, é um processo de construção.
  • Quem espera sempre alcança. Esta é uma perspectiva romântica com um quê filosófico. Quem acredita de forma absoluta numa afirmativa como esta, pode incorrer no erro grave de ser excessivamente otimista. O super otimista gosta de apostar que no final tudo dá certo, ou seja, não importa o meu empenho e esforço, já há um destino traçado para o meu êxito. Devemos aprender que há dois momentos distintos e igualmente impactantes em nosso destino: o momento de esperar acontecer e o momento de fazer acontecer. Para saber qual é qual e em que situação eu opto por um ou por outro, é necessário estar focado em meus objetivos e reconhecer que só posso colher o que tiver plantado.
  • Quem quiser que me aceite do jeito que eu sou. De fato, devemos ser tolerantes e compreensíveis com nosso semelhante. Não é de bom tom social querer que as pessoas sejam do jeito que queremos. Porém, também não é correto imaginarmos que tudo e todos devem adaptar-se a nós. Não somos o centro do universo existencial e os outros apenas satélites orbitando à nossa volta. É necessário refletirmos sobre nós mesmos, fazer uma autoanálise e identificarmos os pontos limitantes de nossa personalidade, principalmente aqueles que comprometem nossas relações interpessoais.
  • A voz do povo é a voz de Deus. De todas penso que esta seja a mais absurda. Não existe qualquer fundamento teológico que respalde esta crença. Os atos de Deus não são decididos por uma assembleia onde a maioria vence, isto porque, ainda que Ele seja um e único, reuni em si próprio todos os atributos incomensuráveis da divindade. A questão afeta a esta a forma de pensar gera uma falsa sensação de que é possível dizer a Deus o que fazer. Ao mesmo tempo em que se acredita no relativismo, acredita-se também no absolutismo – a ponto de imaginar que a voz de Deus será apenas o eco de indivíduos que se julgam mais sábios e poderosos do que o próprio criador e que para Ele não existe outra alternativa, apenas assentir à voz de suas criaturas.

Paulo Roberto de Araujo – especialista em gestão de pessoas. www.gentecompetente.com.br

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.