Linguagem violenta, vidas violentas

Janaina Chiaradia


In loco: transmitindo informações e compartilhando experiências

Nova série: as palavras e as coisas, por Everton Gonçalves

Hoje iniciamos mais uma série do In Loco, com o amigo, professor de português e literatura, revisor de textos e escritor de ensaios e poemas, Everton Gonçalves.

Estamos muito felizes com mais essa parceria, e preparados para as reflexões com as quais, iremos nos deparar nas escritas que ora se apresentam, então, vamos aos ensinamentos:

Linguagem violenta, vidas violentas

A linguagem influencia, decide e aponta caminhos. Através da linguagem o homem conseguiu se diferenciar dos demais animais. No livro 1984, do autor George Orwell, é apresentado a “novilingua” e o poder da linguagem. A novilingua é uma linguagem criada pelo partido totalitário para vigiar e controlar os cidadãos – principalmente membros do partido.

O objetivo da novilingua era fomentar uma linguagem própria, a linguagem do partido totalitário, mas além disso, ela tinha a intenção de inviabilizar outras formas de pensamento. A ideia era manipular a sociedade através de uma linguagem nova – uma semântica e um léxico diferente.

Em 1984, percebemos que o totalitarismo, o estado que quer reprimir todo pensamento diferente, pode se manifestar através da comunicação. A linguagem pode ser utilizada para manipular e oprimir os outros. George Orwell com toda a sua genialidade, conseguiu mostrar através da literatura o que era e é muito real: a linguagem pode ser um instrumento de violência.

Quando a linguagem se torna meio de violência é porque os seus falantes têm um ethos (costumes sociais, modo de viver) violento. Isso nos mostra que a linguagem não é neutra, ela é carregada de sentidos e intenções.

Quando alguém expressa em uma rede social: “seu lixo”, revela que essa pessoa utiliza de metáforas para ofender outros, ela utiliza de uma linguagem carregada de violência para oprimir outros. Através da linguagem o ser humano pode construir ou destruir pessoas e estados.

O discurso de ódio se prolifera a cada dia, a polarização política aflora uma linguagem afiada com maldade. Se comunicar nunca foi um problema para a humanidade, a criatividade em criar novos meios de comunicação sempre foi presente na sociedade. Mas além da criatividade, muitos carregam uma dose de violência linguística em seus textos.

Todo texto pode revelar intenções. Não porque as consoantes e vogais podem matar alguém, mas porque os usuários da língua utilizam o seu discurso para promover o caos. Nossa linguagem pode manifestar situações, sentimentos, poesias, vida e morte. Assim como em um discurso é revelado tensões sociais, é possível criar um discurso que gere leveza e beleza.

Talvez o que falte é uma desintoxicação linguística. Um vocabulário novo, mas não um alfabeto novo, um combinado de palavras sem agressividade e sem clichês sociais. Talvez o que falte é uma certa dose de poesia, coerência e virtudes que vão além do léxico e da gramática.

 

 

 

 

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.