Renda variável: o temido mercado de ações?

Janaina Chiaradia



In loco: transmitindo informações e compartilhando experiências.

Da série “Pare, olhe, invista!”, dos escritores do instituto PMIF Hildebrando Matheus e André César…

Eis mais uma série que vem causando impacto na sociedade, oriunda da troca de conversas com o advogado André César e do profissional na área financeira, Hildebrando Matheus… cada qual na sua área de atuação e com seus estudos… auxiliando a sociedade na arte de saber investir.

Vamos a mais uma, da série:

Renda variável: o temido mercado de ações?

Já imaginou sendo sócio daquela empresa de alimentos que prepara seu iogurte favorito ou daquela marca de roupas que você adora ou ainda da empresa de tecnologia que você curte? Sim, você pode ser sócio dessas e outras gigantes do entretenimento, moda e de outros segmentos! Se antes já falamos sobre renda fixa, neste artigo vamos falar da modalidade de investimentos chamada renda variável. Estão prontos? Vamos lá!

Em tese podemos definir renda variável como tipo de investimento no qual a lucratividade não é contratada e depende de cotação nos mercados organizados. Quer dizer que a lucratividade pode variar a todo segundo em que o mercado está aberto para compras e vendas.

Segundo alguns historiadores, as bolsas de valores nasceram em Roma. Para outros, sua origem está na Grécia Antiga, onde comerciantes se reuniam nas maiores praças públicas para tratar de negócios. A primeira Bolsa com as características atuais, porém, surgiu na cidade belga de Bruges, na casa de um senhor chamado Van Der Burse. Em uma bolsa, são realizadas transações de compra e venda de ações/quotas em mercado livre e aberto, organizado e fiscalizado pelas próprias corretoras e autoridades monetárias, como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). No Brasil, a única Bolsa de Valores é a [B]³ e a sua sede fica em São Paulo/SP.

Você, leitor, deve estar se perguntando: Como posso me tornar sócio de uma empresa comprando uma ou mais de suas ações/quotas? Posso ir até a porta da Bolsa de Valores e falar que tenho dinheiro e quero investir? É importante saber que atualmente não se negociam mais ações de forma presencial, e sim por meio de um instrumento eletrônico de negociações. E, nesse meio eletrônico, somente as corretoras devidamente cadastradas e registradas podem atuar. Algo interessante de saber é que aquela cena que até um tempo atrás víamos nos jornais com gritaria e papéis sendo jogados para o alto nos pregões da bolsa já não existem mais. Agora é mais calmo e tranquilo, mas nem tanto…

Então, o primeiro passo antes de começar a investir em ações é abrir uma conta em uma corretora. No artigo que você pode conferir aqui no PMIF, chamado “O que preciso saber antes de começar a investir”, você encontra detalhes que devem ser analisados na hora de escolher uma corretora para seus investimentos.

A primeira coisa que se deve saber é que uma ação/quota é um pedacinho de uma empresa. Ao comprar uma ação/quota você se torna sócio de uma empresa. No site da [B]³ você encontra uma lista de empresas que possuem capital aberto. As ações possuem dois tipos de classificação:

  • Ordinárias (ON): concedem para aqueles que as possuem direito a voz e voto nas assembleias deliberativas da companhia;
  • Preferenciais (PN): oferecem como o nome diz preferência na distribuição de resultados (dividendos), fixo ou mínimo, prioridade no reembolso do capital, com prêmio ou sem ele. Quem detém ações preferenciais em geral não possuem direito a voto.

Parece complicado? Na verdade, não é! Os maiores motivos para comprar ações/quotas é que você pode vender por um preço maior do que adquiriu e também participar dos lucros das empresas que distribuem aos seus acionistas pelo menos 25% desse valor líquido. São os famosos dividendos. Interessante, não?

Um grande exemplo são as ações da Magazine Luiza que, desde que abriu capital na bolsa em 2011, teve uma valorização de mais de 1000% em suas ações. A empresa tem valor de mercado de R$36 bilhões. Quando começou na bolsa suas ações eram vendidas a R$16,00 e em abril de 2019 chegaram a valer R$191,26!

Alguns fatores devem ser considerados na hora de escolher qual empresa você deseja se tornar sócio. Lembre-se que sociedade envolve o fator primordial da transparência, certo? Você não gostaria de descobrir futuramente que seu sócio rouba dinheiro do caixa ou esconde informações privilegiadas na hora da tomada de decisão sobre o futuro da empresa. Escolha empresas que respeitem os acionistas. As empresas devem ser transparente ao dar informações aos maiores e menores acionistas, assim como devem ter um bom site com informações atualizadas. Dica: mande um e-mail para o setor de relacionamento com o investidor; se não obtiver resposta, significa que a empresa não respeita o investidor tanto como deve ser.

Escolha empresas que participem do Ibovespa e outros grandes índices negociados na bolsa. Esse tipo de perfil de empresa tende a ter muitos negócios e os preços de suas ações estão sempre mais próximos de valores justos. É bem verdade que, com essa conduta, a possibilidade de multiplicar seus rendimentos em 2x, 3x, 4x ou mais é difícil, pois os grandes índices, como o Ibovespa, são indicadores do desempenho médio das cotações dos ativos de maior negociabilidade e representatividade do mercado de ações brasileiro. Quer dizer: dentro deles já estão as grandes empresas. E há uma grande dificuldade das grandes empresas se multiplicarem em várias vezes. Do contrário, com pequenas empresas essa possibilidade aumenta muito, como ocorreu com o Magazine Luiza, por exemplo.

Diversifique seus investimentos em ações: É comum que alguns setores da economia estão sempre melhores que outros, mas nunca se sabe quando isso pode mudar quando se trata de fatores econômicos externo ou interno. Então, tente diversificar para que no caso de uma queda você não sofra com uma grande desvalorização. É a regra de nunca colocar todos os ovos em uma única cesta.

Procure empresas sólidas e que você admire!

Depois de escolher bem a empresa que deseja investir, você deve abrir a conta em uma corretora devidamente cadastrada na bolsa, transferir o dinheiro que deseja investir para a conta da corretora e acessar o homebroker. Oh, senhor, que termo é esse? Não se assuste! Homebroker é o sistema pela internet pelo qual o investidor tem acesso ao livro de oferta de ações, com o preço de compra e venda dos papéis. É como se seu corretor de ações (broker) estivesse na sua casa (home).

Como na vida a única certeza que temos é da morte e dos tributos (risos), nas negociações de ações também temos que recolher tributos da seguinte maneira: Enquanto o investidor não vende as ações, o IR não é devido. A alíquota do IR é de 15% sobre o lucro das operações. Em operações de compra e venda no mesmo dia, “day trade”, a alíquota sobe para 20%. Para negociações abaixo de R$20 mil por mês existe isenção tributária. Porém, caso a venda supere R$ 20 mil, o lucro deve ser calculado sobre o valor total. Existe também a compensação de perda no momento de gerar o valor de pagamento do tributo. Esteja sempre atento aos detalhes sobre o IR nas negociações acima de R$20 mil por mês. Na dúvida, sempre contate sua corretora.

Ao começar investir em ações esteja com seus objetivos definidos em sua mente. Pense no quanto gostaria de ganhar nesta modalidade de investimento e para quê. Não invista na bolsa o dinheiro do seu fundo de emergência. Desse modo você evita ter que vender suas ações quando estiverem na baixa. Quando receber os dividendos, reinvista o dinheiro comprando novas ações. Porém, você pode resgatar seus dividendos e vender as ações caso veja que seus objetivos já foram alcançados.

Sempre se mantenha informado sobre a empresa e o segmento em que ela esteja atuando para que possa tomar as melhores decisões no momento de comprar e vender. Lembre-se de diversificar sua carteira de investimentos, além de comprar e vender sempre lentamente suas ações. Com isso, seu risco despenca com essas medidas.

Caso você ainda sinta medo de investir na bolsa de valores, você pode procurar por simuladores gratuitos de investimentos em ações e saber como seria se tivesse investido aquele valor na vida real. Geralmente os simuladores oferecem um valor para a composição de sua carteira de ações com a oscilação real da bolsa. Quer dizer: é como se fosse de verdade. Utilizando esses simuladores você consegue afastar os medos do primeiro passo na bolsa de valores.

Saiba que a principal característica da bolsa de valores é a oscilação de preço. Mas, mesmo com essa volatilidade, ainda é considerado um excelente investimento com retorno acima do esperado para aplicação a longo prazo (mais de 10 anos). É um investimento que requer paciência. Caso aconteça uma queda brusca de ações em um determinado período, não se desespere e venda suas ações. Caso assim o faça, certamente perderá dinheiro. Se você perde o sono pensando em seus investimentos, algo está errado. Investir é uma forma de melhorar sua qualidade de vida. Caso alguma aplicação não esteja bem, pare tudo e comece do zero. O dinheiro não gosta de quem não tem tempo para ele, mas a vida também não gosta de quem só tem tempo para o dinheiro. Pense nisso!

O leitor poderia, novamente, perguntar: Ok. Entendi. Mas expliquem um pouco mais: que tipos de investimento eu posso fazer em renda variável? Sei que na renda fixa existem diversos tipos de investimentos, como LCI/LCA, CRI/CRA, dentre outros. E a renda variável? Pois bem, existem as ações/quotas, como já mencionado acima, mas existem também os COEs (Certificado de Operações Estruturadas).

O COE foi recentemente lançado e é o menos conhecido. Esse investimento é uma “gaveta”         dentro do qual são encontrados outros ativos/investimentos. Quer um exemplo? Um COE pode ser composto por uma parte de renda fixa pós-fixada (um percentual da Selic) e a outra parte por renda variável (ações na bolsa de valores). Sua rentabilidade vem do misto desses dois produtos! Por isso, o COE é um investimento híbrido (mistura de renda fixa com renda variável).

E também poderíamos ser questionados: e vocês não vão falar sobre fundos? A resposta é: acalmem-se, pequenos gafanhotos. Vamos falar sobre os fundos de investimento em um artigo próprio e específico. Precisamos explicar exatamente o que é um fundo. Por ora, fiquem com essas informações.

Em resumo, os benefícios da renda variável são: 1) Maior rentabilidade em relação aos títulos de renda fixa; 2) Participação nas empresas; 3) Possibilidade de variar os investimentos. Por outro lado, as desvantagens são: 1) Alta oscilação; 2) Taxas cobradas; 4) Exigência de conhecimento no que se está fazendo/comprando/vendendo; 4) O risco.

Para encerrar gostaria de compartilhar uma história para que possamos refletir em nossos investimentos:

Conta-se que numa vila do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota do povoado. Era um pobre coitado de pouca inteligência que vivia de pequenos biscastes e esmolas.

Diariamente aquelas pessoas chamavam o tolo ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas – uma grande de 400 réis e outra menor, de 2 mil réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de riso para todos.

Certo dia um dos membros do grupo o chamou e perguntou se ele ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos. “Eu sei”, respondeu. “Ela vale cinco vezes menos, mas no dia em que eu escolher a outra a brincadeira acabará e não vou mais ganhar minhas moedas.”

Dessa pequena narrativa podem-se tirar várias conclusões. Não há nada de errado em se passar por tolo se, na verdade, o que você está fazendo é inteligente. Às vezes é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar-se por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usá-la fazendo tolices. Temos que ter cuidado com nossos investimentos pois, caso você seja ganancioso, pode acabar perdendo sua fonte de renda. Mas talvez a conclusão mais interessante seja: Podemos estar bem mesmo quando os outros não tem uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas o que realmente somos.

Algumas pessoas gastam tudo que ganham na tentativa de serem respeitadas por colegas, vizinhos ou parentes. Querem status elevado com base naquilo que têm. Mesmo que consigam obter o respeito almejado, sabem ao menos em seu íntimo que o sentimento que despertam é falso. Afinal, o verdadeiro status advém do que somos, e não do que temos. Lembre-se: É melhor uma pequena cautela, do que um grande remorso.

Com esses ensinamentos, ponderações e reflexões, segue ainda a melodia do dia:

 

Abraços

Até amanhã,

Janaina Chiaradia

 

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Janaina Chiaradia
Jurista, Mestre em Direito, Professora, Palestrante e Escritora.