A quem obedecer! Ministério da Saúde, OMS ou Bolsonaro?

Pedro Ribeiro

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Quando a nação brasileira, representada por perto de 215 milhões de pessoas, estava acreditando e confiando nas palavras e ações do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, avaliadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) chega, do nada, o estabanado presidente da República, Jair Bolsonaro, e derruba todas as peças do bem montado esquema de saúde para salvar vidas de brasileiros.

Recomenda que pessoas com menos de 60 anos de idade retornem ao trabalho e que crianças e jovens voltem às escolas. Justifica esta teoria sem qualquer base científica em seu ego de super homem, atleta de quartel: “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito acometido de uma gripezinha ou resfriadinho“.

Bolsonaro coloca um balde de água fria na assustada população, contradizendo em grande parte recomendações do Ministério da Saúde. Não se contentando com isso, agride a imprensa e governadores.

Como resposta, a população bate panelas mostrando seu desagrado com as ações de um presidente que nos parece desconexo dos fatos e como se a razão lhe pertencesse. Dono único da verdade.

Estranho que Bolsonaro  recebeu elogios quando abriu diálogo com os governadores mostrando mudança de postura sobre os efeitos da Covid-19, que já matou 46 pessoas no país. Seu pronunciamento, no entanto, foi um arrasa terra.

REAÇÕES NO CONGRESSO

No Congresso Nacional, a reação também foi imediata. O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre divulgou uma nota, afirmando que o pronunciamento do presidente foi “grave” e que o país precisa de uma “liderança séria”.

Para o presidente do Congresso Nacional, o momento não é de “ataque” à imprensa e aos gestores públicos. É preciso “união, serenidade e equilíbrio”.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, também criticou o pronunciamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, que pediu o fim do isolamento e pregou a volta à normalidade em razão do coronavírus. Maia afirmou, por meio das redes sociais, que a fala de Bolsonaro nesta terça-feira (24) foi equivocada ao atacar a imprensa, os governadores e os especialistas em saúde pública.

“Desde o início desta crise venho pedindo sensatez, equilíbrio e união”, afirmou o presidente da Câmara.

Maia pediu aos brasileiros que sigam as normas determinadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde em respeito aos idosos e a todos os que estão em grupo de risco. Ele ressaltou ainda que o Congresso Nacional vai votar medidas importantes para conter a pandemia e ajudar empresários e trabalhadores.

Para o senador paranaense, Alvaro Dias (Podemos), o pronunciamento de Bolsonaro foi  “a irresponsabilidade arrogante, a ignorância prepotente, a incoerência explícita. Uma trombada na perversa realidade que estamos vivendo. O desrespeito como postura na ofensa à quem sofre o drama da pandemia”.

Diante das declarações do presidente, das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Ministério da Saúde e das milhares de mortes que vem se espalhando pelo mundo, o que devemos fazer?

Carta dos Secretários Estaduais de Saúde do Brasil após pronunciamento do Presidente da República

Assistimos estarrecidos ao pronunciamento em cadeia nacional do Presidente da República, Jair Bolsonaro.

É preciso demonstrar ao Brasil as suas consequências e a necessidade de que a população perceba a gravidade do momento que estamos vivendo.

Temos, juntamente com o Ministério da Saúde, os municípios e a própria sociedade brasileira, empreendido uma intensa luta no enfrentamento da Covid-19.

Luta que envolve trabalho, sacrifício, solidariedade, empatia, compaixão com o sofrimento das pessoas e que depende de maneira imprescindível do alinhamento de entendimento e de ações, assim como da união de esforços e de uma direção única e firme.

Todas as decisões e recomendações do Conass e do Ministério da Saúde têm se baseado em evidências científicas, na realidade nacional e internacional e buscado inspiração nas melhores práticas e exemplos de condutas exitosas ao redor do mundo.

É este o esforço que temos empreendido em defesa de nossa pátria e de nossos irmãos e irmãs brasileiros. É dessa forma, desassombrada e corajosa, na direção correta que queremos seguir na missão de defender nossa gente.

Não temos qualquer intenção de politizar o problema. Temos construído, sem dificuldade, independente de colorações partidárias, políticas e ideológicas, consensos para o bem do Sistema Único de Saúde – o SUS e, sobretudo com a saúde do povo brasileiro. Este é nosso compromisso. É isso que norteia nossas ações e esforços.

Já temos dificuldades demais para enfrentar.

Não podemos permitir o dissenso e a dubiedade de condução do enfrentamento à Covid-19. Assim, é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República.

Ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que temos feito junto com o povo brasileiro, negando todas as recomendações tecnicamente embasadas e defendidas, inclusive, pelo seu Ministério da Saúde, deveríamos ver o Presidente da República liderando a luta, contribuindo para este esforço e conduzindo a nação para onde se espera de seu principal governante: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar.

Infelizmente o que vimos em seu pronunciamento foi uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira, as autoridades sanitárias de todo o país.

Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e técnicos.

Todo o apoio à atuação do Ministério da Saúde e sua equipe, que tem trabalhado técnica e cientificamente em todos os momentos. Com saúde não se pode brincar e nem fazer apostas, diante do risco que corremos. É preciso discernimento, coragem e determinação para liderar, unificar e auxiliar a nação a superar mais este desafio de Emergência em Saúde Pública.

Temos plena consciência de que o Brasil e o mundo irá enfrentar uma grave recessão econômica, aprofundamento das desigualdades sociais e empobrecimento.

A economia, com trabalho, disciplina, organização e espírito público, se recuperará. Seremos solidários e trabalharemos sem descanso para permitir uma rápida recuperação da nossa economia.

Mas é preciso que se entenda, vidas perdidas, não serão recuperadas jamais.

Que Deus abençoe cada um de nós que temos trabalhado intensivamente e dormido pouco.

Que Deus abençoe e proteja todos os brasileiros e brasileiras.

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.