A vacina dos magistrados e seus familiares e o tecido fino da sociedade

Pedro Ribeiro

tcu, lava jato, stf, tribunal de contas da união, supremo tribunal federal, empreiteiras, andrade gutierrez, utc engenharia, queiroz galvão, artec

 

Dois dias após a figadal decisão unilateral do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que chocou a frágil população brasileira acometida por uma das doenças mais devastadoras dos últimos 100 anos, a covid-19, ao dar salvo conduto a Lula, condenado por roubo e formação de quadrilha, o mesmo judiciário, como patrimonialista e cartorial, esnoba diante de uma população fragilizada pela doença.

A Associação dos Juizes consegue autorização para importar vacinas contra a covid para atender, exclusivamente, suas excelências e seus familiares. Um escárnio, deboche até mesmo para a desacreditada figura do presidente Jair Bolsonaro que balança como biruta.

O senador Alvaro Dias (Podemos) reagiu com indignidade. “Estão na contramão da aspiração nacional. A população quer o fim dos privilégios das autoridades  e não a ampliação deles especialmente em tempo de calamidade pública.    Precedente condenável.   Que a medida se estenda então a todos os brasileiros”, disse.

“Um absurdo!, disse o também senador paranaense em discurso no Senado, Oriovisto Guimarães. “Estou estarrecido. Não posso entender como a Justiça Federal possa autorizar membros do judiciário a comprar vacinas para eles e suas famílias  e deixar a população nas mãos do Ministério da Saúde”.

Guimarães lembrou do romance de George Orwel “A Revolução dos Bichos”, onde se discutia que “todos são iguais perante a lei, embora uns sejam mais iguais”. O senador chegou a sugerir que todos que tenham dinheiro que então possam comprar a vacina. “Salve-se quem puder”, pontuou no final de seu pronunciamento no Senado.

Nossa sociedade, independente de classe social, cultura ou crença, está longe de seu um modelo justo e solidário, sustentado na democracia  e na justiça, dentro de um Estado Democrático de Direito.

O que podemos ver, observar e manifestar nosso descontentamento com a Justiça é que esta decisão foi mais um exemplo que o País está desgovernado,  desacreditado não apenas pela população diante da indignidade, a  incúria e o deboche.

Esse escárnio governamental que leva o País ao desespero e sem perspectivas diante da tragédia, faz com que  também juízes nem se importem mais em esconder pudores  sob as togas que usam,   partem para um salve -se quem puder,  o que  não deixa de ser vergonhoso e ignóbil,  quando deveriam estar na linha de frente  para pressionar e exigir de autoridades constituídas,   no caso o governo.

Este governo, sim, mesmo com um Ministério da Saúde destrambelhado, deveria  tomar urgentes providências para salvar o País da catástrofe sanitária em que o jogaram.

Ao contrário,  usam de prerrogativas com o juízes e percorrem escaninhos que conhecem,  interpretam como querem as leis, agora em benefício,  nesse país acostumado ao patrimonialismo de Estado, à cultura cartorial e de castas.

O que estes juizes demonstram com este ato  condenável é  apenas uma faceta desse.pais que se cada vez mais se despedaça, onde  oportunismos  morais e éticos  prosperam como nunca  visto, ainda que, no caso dos juízes,  não lhes falte o reconhecimento de razão que possam eventualmente possuir para a atitude que tomaram. Mas também não deixa de ser questionável.

Se essa decisão de juízes comprarem vacinas pela associação, sem doarem para o Plano Nacional de Imunizacão, até que as faixas prioritárias forem imunizados,  não for eventualmente barrada por uma decisão superior,  vai criar um precedente perigoso e sem mais nenhum controle, que já é pífio.

Muitas associações, sindicatos,  entidades de classe,  etc. vão se sentir no mesmo direito e o caos, que já é  grande,  vai definitivamente estar fora de controle. Mas, a julgar pela tentativa que o STF fez para ter vacinas com prioridade para seus funcionários,  como aconteceu semanas atrás e só frustrada pela reação da sociedade, parece que vai ser difícil derrubar. É  a esbórnia completa.

O advogado Luiz Carlos Rocha acha que a liminar da associação de juízes vai cair por tratar-se de um absurdo.

Previous ArticleNext Article
Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal