Cenários sombrios para o Brasil e o mundo com Covid-19

Pedro Ribeiro

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Estudo do Grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College de Londres e publicado na edição deste sábado do jornal Estadão mostra que uma estratégia de isolamento apenas de pessoas acima de 60 anos, como sugere o presidente Jair Bolsonaro, poderia levar à morte perto de 530 mil pessoas no Brasil.

A pesquisa do Imperial College vem sendo feita em tempo real com projeções matemáticas do crescimento da pandemia e avaliações das ações em andamento. Foi um trabalho dessa equipe que levou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, a recuar sobre a ideia de adotar um isolamento vertical.

Segundo o Estadão, o trabalho mais recente do Imperial College, divulgado nessa quinta-feira, 26, expandiu a modelagem para 202 países. Os cientistas, liderados por Neil Ferguson, comparam os possíveis impactos sobre a mortalidade em vários cenários: ausência de intervenções, com distanciamento social mais brando, que eles chamam de mitigação, ou mais restrito, que é a chamada supressão.

CENÁRIOS DO ESTUDO

Ação zero: No cenário em que nenhuma providência é tomada para frear o avanço do novo coronavírus, os pesquisadores preveem cerca de 1,15 milhão de mortes no Brasil.

Mitigação com distanciamento social leve: No cenário com regras menos rígidas de isolamento, a previsão é de cerca de 627 mil óbitos.

Mitigação com foco no distanciamento de idosos: Nesse cenário, o modelo dos cientistas prevê que cidadãos com mais de 70 anos vão reduzir seus contatos sociais em 60%. Nessa perspectiva, são projetadas 529 mil mortes. O presidente Bolsonaro defende isolamento só de alguns grupos, como dos mais velhos e de risco, para prejudicar menos a economia.

Supressão: Esse é o cenário de distanciamento social intensivo em larga escala, com redução de 75% nas taxas de contato interpessoal, para suprimir rapidamente a transmissão e minimizar casos e mortes a curto prazo. Seu objetivo também é evitar que os pacientes mais graves cheguem ao mesmo tempo nos hospitais. Com a adoção dessa medida, o total de mortes previstas varia de 44 mil para 206 mil, a depender da data em que a estratégia é iniciada.

As estimativas foram feitas com base nos dados da China e de países de alta renda, o que pode significar que para as nações de baixa renda a realidade possa ser ainda mais grave que a apontada no trabalho. Os pesquisadores consideram que se houvesse no Brasil uma restrição mais ampla de isolamento, e feita de modo rápido, os resultados seriam bem menos dramáticos. Mas ainda haveria cerca de 44 mil mortes.

A eficácia do isolamento mais amplo se aplicaria em todo o mundo, de acordo com os pesquisadores. Eles estimam que na ausência de intervenções, a covid-19 resultaria em 7 bilhões de infecções e 40 milhões de mortes em todo o mundo este ano – 1,15 milhão é o estimado para o Brasil se nada fosse feito.

“Estratégias de mitigação focadas na blindagem de idosos (redução de 60% nos contatos sociais) e desaceleração, mas não interrupção da transmissão (redução de 40% nos contatos sociais para uma população mais ampla) poderia reduzir esse ônus pela metade, salvando 20 milhões de vidas, mas prevemos que, mesmo nesse cenário, os sistemas de saúde em todos os países será rapidamente sobrecarregado”, escrevem os cientistas.

“É provável que esse efeito seja mais grave em contextos de baixa renda onde a capacidade é mais baixa. Como resultado, prevemos que o verdadeiro ônus em ambientes de baixa renda que buscam estratégias de mitigação podem ser substancialmente mais altos do que refletido nessas estimativas”, continuam os pesquisadores.

Os pesquisadores apontam ainda que a demanda por assistência médica só ficará em níveis manejáveis com uma rápida adoção de medidas de saúde pública para suprimir a transmissão, semelhantes às adotadas, por exemplo, na China e na Coreia do Sul. Eles listam os testes em massa, o isolamento de casos e medidas mais amplas de distanciamento social.

“Se uma estratégia de supressão for implementada precocemente (com 0,2 mortes por 100 mil habitantes por semana) e sustentada, então 38,7 milhões de vidas podem ser salvas. Se for iniciada quando o número de óbitos for maior (1,6 óbitos por 100 mil habitantes por semana), então só 30,7 milhões de vidas poderiam ser salvas”, escrevem. “Atrasos na implementação de estratégias para suprimir a transmissão levará a piores resultados e menos vidas salvas.”

Eles ponderam que não consideraram nos cálculos os impactos sociais e econômicos mais amplos da supressão e reconhecem que eles serão altos e podem ser desproporcionais em ambientes de baixa renda. Reforçam também, como já tinham dito nos estudos anteriores, que as estratégias de supressão teriam de ser mantidas, com breves interrupções, até que vacinas ou tratamentos eficazes se tornem disponíveis.

“Nossa análise destaca as decisões desafiadoras enfrentadas por todos os governos nas próximas semanas e meses, mas demonstra como uma ação rápida, decisiva e coletiva agora poderia salvar milhões de vidas”, resumem. (Estadão).

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.