Decreto de Bolsonaro sobre posse de armas é polêmico e atinge em cheio a hipocrisia

Pedro Ribeiro


 

 

O decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro, permitindo posse de armas, por mais discutível, polêmico e contestável que seja, acaba na realidade com uma  grande hipocrisia que está escondida nessa discussão toda, inclusive entre aqueles que condenam a medida. Não se trata aqui de ser favorável, justificar ou não a decisão do presidente,  promessa cumprida da campanha eleitoral. Mas  se for feita uma pesquisa entre os brasileiros, a grande maioria já possui alguma arma guardada em casa. Principalmente na classe média e alta. Na base da pirâmide talvez o índice  seja menor, mas também existe.

Também é questionável o argumento de que agora, com a liberação da posse, haverá saltos nos índices de criminalidade no País, porque todo mundo poderá comprar até quatro armas. Este, em certos aspecto também se revela um argumento falacioso porque o marginal que está envolvido no mundo do crime pode comprar hoje uma arma em qualquer beco, ou mesmo adquiri-la legalmente ou por contrabando no Paraguai, onde atuam os traficantes que abastecem as quadrilhas organizadas.

Bandido que é bandido não vai deixar seus dados cadastrados nem suas digitais para comprar armas de pequenos calibres para cometer seus crimes,  isso é traque para eles. Hoje as quadrilhas organizadas que dominam o tráfico de drogas no País se utilizam de armas de guerra, submetralhadoras e metralhadoras de ultima geração e fuzis com os quais são capazes de derrubar helicópteros e até mesmo perfurar carros fortes blindados..

Pode até acontecer que a bandidagem do baixo clero do crime passe a ter agora ao seu alcance a possibilidade de melhor  acesso a uma arma com arrombamentos de residências, mas isso em tese já está ao alcance deles. Ladrões e marginais que  cometem crimes para alimentar seus vícios não procuram residências em populações de baixa renda para arrombamentos ou assaltos, sabem que dificilmente armas serão encontradas. Elas custam caro, não estão dentro da prioridade dessas famílias, apesar de existirem.

Ser interessante acompanhar daqui para frente os números estatísticos  que serão formados sobre a legalização de posse de armas. Poderemos comparar quantas delas tiveram suas posses legalizadas e quantas armas foram efetivamente adquiridas com o decreto do presidente. E constar então de que extratos sociais pertencem aquelas cujas posses estão sendo apenas legalizadas, ou seja, cujas posses já ocorrem.

Falar em armas sempre assusta diante da violência cada vez mais crescente e já não ocorrem apenas nos centros urbanos, também já  se expandiu para a zona rural. Evidentemente que a violência se combate com mais policiamento, menos impunidade e maior e melhor  presença do Estado na segurança pública. E que também houve exagero na liberação de compra e posse de até quatro armas. Não é isso que se discute aqui.

O se quer é que o assunto ao menos agora deixe de ser tratado com certa dose de cínica hipocrisia.

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.