Desembargador que mandou soltar Temer já foi investigado por estelionato

Pedro Ribeiro

 

Um cidadão comum, com algum problema com a justiça, por menor ou insignificante que seja, tem sua ficha marcada para sempre e jamais conseguirá algum benefício do Estado. Assim reza a lei e deve ser cumprida, até que o pobre coitado prove o contrário. Mas quando se trata de um figurão do judiciário, o trato é diferente, como no caso do desembargador federal Antonio Ivan Athié, do Tribunal Regional Federal da 2a Região (TRF-2), que mandou soltar o ex-presidente Michel Temer e seus comparsas.

Investigado por estelionato e formação de quadrilha, esse desembargador chegou a comprar propina com gorjeta. Foi ele quem livrou a ex-primeira dama e comparsa de Sergio Cabral, Adriana Ancelmo da cadeia.

Esse desembargador tem ficha suja e dentro da própria justiça. Ele ficou afastado do cargo durante sete anos, por ter sido alvo de uma ação do Superior Tribunal de Justiça sob a acusação de estelionato e formação de quadrilha, em 2004. Um inquérito contra ele, com as mesmas acusações, foi arquivado em 2008 pelo STJ a pedido do Ministério Público Federal. O órgão alegou não ter encontrado provas a respeito de Athié ter proferido sentenças em conluio com advogados. Ele retornou às atividades em 2011, após decisão do STJ. O habeas corpus encaminhado ao Supremo Tribunal Federal pela defesa de Athié foi acatado em 2013 para trancar a ação contra o desembargador, segundo levantamento feito pelo Estadão.


Os votos em colegiado de Athié também são polêmicos. A primeira turma do TRF-2 é responsável pelo julgamento da Operação Pripyat, desdobramento da Lava Jato no Rio responsável pelas investigações referentes à Eletronuclear. Athié era relator do processo contra o ex-presidente da companhia, Othon Luiz Pinheiro, e votou favoravelmente para revogar a prisão preventiva do empresário, determinada pelo juiz Marcelo Bretas.

Foi nesta sessão que o desembargador comparou propina a gorjeta: “Nós temos que começar a rever essas investigações. Agora, tudo é propina. Será que não é hora de admitirmos que parte desse dinheiro foi apenas uma gratificação, uma gorjeta? A palavra propina vem do espanhol. Significa gorjeta”, justificou.

Em dezembro de 2016, a ex-primeira dama do Rio de Janeiro, Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador Sérgio Cabral, ainda estava detida. Athié foi o único desembargador que defendeu prisão domiciliar para Adriana, sob a justificativa de que ela deveria cuidar dos filhos. Em março de 2017, Bretas concedeu prisão domiciliar à ex-primeira dama e em agosto do ano passado, ela foi liberada da prisão domiciliar também por Bretas.  (Estadão).

 

Post anteriorPróximo post
Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.