Desemprego, desestímulo e um sofrido Dia do Trabalhador

Pedro Ribeiro

desemprego bate recorde

 

Mais de um milhão de brasileiros desistiram de procurar emprego nos últimos 12 meses. A jornalista Camilla Vera Mota, da BBC Brasil, vasculhou números e recheou de depoimentos sua reportagem que lembra o Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador. Entre as razões para o desestímulo na busca de emprego, apesar de estarem disponíveis para trabalhar, essas pessoas não entram no cálculo da taxa de desemprego. Para ser considerado desempregado, pelos parâmetros internacionais de estatística, é preciso estar ativamente buscando uma vaga.

Isso não significa necessariamente, contudo, que a situação financeira dos chamados desalentados seja mais confortável do que a dos que estão oficialmente desempregados, os 14,4 milhões contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com os dados divulgados na sexta (30/04), os desalentados somaram 5,9 milhões em fevereiro, recorde na série histórica da Pnad Contínua, que começa em 2012. O levantamento é feito em trimestres móveis – o dado de fevereiro, portanto, é uma média composta com dezembro e janeiro.

O desalento reduz a taxa de participação no mercado de trabalho, que é a relação entre a quantidade de pessoas que estão de fato empregadas ou à procura pelo total de pessoas em idade para trabalhar – uma boa medida para enxergar o chamado “desemprego oculto”.

Em fevereiro, a taxa de participação foi de 56,8%, 4,9 pontos percentuais a menos do que o registrado no mesmo período do ano passado, 61%.

Caso o percentual tivesse se mantido constante, conforme calcula o economista Alberto Ramos, Diretor de Pesquisa Econômica para a América Latina do Goldman Sachs, a taxa de desemprego teria atingido expressivos 21,2% em fevereiro.

Essa discrepância sinaliza que o desemprego tem um espaço mais restrito para melhora à medida que a economia tiver espaço para crescer.

Um sofrido dia do trabalhador

“Apenas uma guerra é permitida à espécie humana: a guerra contra a extinção” – Isaac Asimov

Luiz Cláudio Romanelli

Este 1º de Maio será de reflexão sobre o futuro do mercado de trabalho. A data que festeja e reconhece o valor do trabalhador ocorre em meio aos efeitos perversos da Covid-19, e suscita dúvidas sobre a capacidade e a velocidade com que o Brasil pode promover a criação de novas vagas de emprego. Há sim, um recrudescimento de conquistas históricas alcançadas com muita luta e suor.

O remédio para o emprego também é a vacina. Ela salva vidas, empresas e postos de trabalho. Infelizmente, o negacionismo e a incompetência nos conduziram a um quadro de extrema dificuldade. O cenário segue nebuloso, com milhões de pessoas ainda sem perspectivas de imunização, quem dirá de obter salário e renda.

Não são poucas as análises que demonstram que ainda vamos experimentar dias difíceis em relação à reabertura de vagas com carteira assinada. As projeções sobre o desemprego variam de 14,5% (FMI) a 17% (Santander) em 2021. Na mesma linha, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) projeta uma desocupação acima de 14%.

O IBGE calcula que 14,4 milhões de brasileiros ficaram sem emprego no trimestre encerrado em fevereiro de 2021. Houve estabilidade em relação ao período imediatamente anterior, mas sobre o mesmo trimestre do ano passado a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua revela o desaparecimento de 7,8 milhões de postos de trabalho.

Um alento vem do Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged). No conjunto do País, a amostra contabiliza evolução no emprego, com 660 mil postos abertos. No Paraná, quase 80 mil vagas foram criadas no primeiro trimestre. Mas a avaliação de economistas é que o índice nacional de desemprego fique na casa dos dois dígitos por muito tempo ainda.

Nos mesmos moldes de 2020, quando foram fechadas 7,3 milhões de vagas de emprego, o governo federal vai retomar o programa emergencial que permite acordos para redução de jornada e salário, ou ainda a suspensão dos contratos. É uma boa notícia, contudo é inegável que se trata de mais um paliativo para evitar a piora dos números no mercado de trabalho.

Com a medida, o País ganha um pequeno fôlego, mas seguirá na UTI, respirando por aparelhos, até que a vacina alcance a maior parte da população. Com alguma sorte, isso deve ocorrer no segundo semestre deste ano, mas os reflexos negativos só serão revertidos a partir de 2022. Até lá, muita gente viverá no desespero. Haverá mais empobrecimento.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela o impacto da crise provocada pela pandemia nos ganhos dos trabalhadores. O levantamento mostra que 41% manteve o rendimento. Na outra ponta, 32% afirmam que a renda caiu, enquanto 14% ficaram sem nenhuma fonte de ganho. A perda ocorre mais intensamente nas classes D e E — porções da população que crescem a olhos vistos.

É óbvio que a condução do enfrentamento da pandemia no País nos trouxe a este obscuro momento. Tivéssemos uma liderança nacional firme e séria, preocupada com a vida e focada na proteção da economia, poderíamos nutrir a esperança de reverter no curto prazo a calamidade que ronda o Brasil. Mas não há razões para acreditar nisso. Perdemos o bonde da imunização.

Lembro que neste sofrido 1º. de Maio comemoramos o 15º aniversário do Piso Regional do Paraná, que foi um dos primeiros estados a criar essa política pública. Uma luta que abraçamos lá em 2006 e que permitiu a mais de 1,5 milhão de trabalhadores ganhos de até 30% acima do salário mínimo nacional. Isso é distribuição de renda, inclusão social, cidadania. Quem dera pudéssemos estar comemorando avanços como este.

Luiz Claudio Romanelli, advogado e especialista em gestão ambiental, é deputado estadual e vice-presidente do PSB do Paraná

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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