É preciso seriedade do governo federal para evitar o caminho da morte

Pedro Ribeiro

Presidente da Alep com médico representando hospitais

“O governo federal foi omisso, conivente e partícipe da situação de calamidade que vivemos hoje.” Esta frase, do ex-presidente do Banco Central, economista Persio Arida, mostra a preocupação dos economistas e empresários que lançaram manifesto pedindo seriedade no tratamento da pandemia do coronavirus.

O fracasso anunciado seria resultado da “postura negacionista e da falta de seriedade com que o governo federal tem enfrentado o problema”, há exatamente um ano. “É uma mistura de ideologia, com não entendimento e despreparo”, diz Arida. Na carta, o economistas cobram medidas urgentes do governo federal.

“A sociedade tem um nervo exposto que combina a aceleração rápida da pandemia e a inoperância do governo federal com o fato de que todas as medidas de baixo custo que poderiam ter sido tomadas ou não foram ou mereceram agressão e escárnio”, diz Cláudio Frischtak, da consultoria Inter.B. “Existe um sentimento de cansaço da sociedade, de que é insustentável ir pelo caminho da morte.”

Segundo os especialistas, uma de suas principais preocupações foi fazer um texto objetivo, baseado em fatos, ao mesmo tempo em que fosse contundente. “Desenho de política pública tem de ser baseado em evidência”, diz Frischtak. Também há ali uma mensagem recorrente: as medidas mais eficientes, baratas e positivas, como vacinas, máscaras, afastamento social e coordenação nacional, deixaram de ser tomadas, em troca de gastos de bilhões de reais para tentar consertar o estrago.

“Por que o governo não se organizou para comprar vacinas como fizeram outros países, entre eles Chile? Questiona  Arida. “Porque não entendeu do que se tratava, porque foi ideológico, negacionista.”

Em algumas projeções de mercado, o número de mortos no País poderia chegar a 0,5% de sua população, com a destruição de riquezas – e de vidas – sem precedente. Independentemente do número final, os economistas são unânimes em afirmar que o Brasil sairá da pandemia mais pobre, mais desigual e mais injusto.

FASE EXPLOSIVA DA PANDEMIA

Enquanto o presidente cultua a morte, hospitais entram em colapso e enterros congestionam cemitérios .“Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica”, afirmam os signatários da carta. “Não há mais tempo para perder em debates estéreis e informações falsas.”

É preciso “colocar mais foco nas vacinas” e pensar mais no coletivo que no individual, com distanciamento social e uso de máscaras, disse o presidente da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, numa entrevista à GloboNews na sexta-feira à noite.

A importância da vacinação e dos cuidados com a saúde, diante do agravamento da pandemia e da lotação de hospitais, foi tratada como evidente por executivos de vários setores, enquanto o presidente Jair Bolsonaro insistia em combater as ações preventivas de governadores e prefeitos, como se fossem violações do direito de ir e vir ou, ainda, imposições típicas de estado de sítio. São confusões evidentes e perigosas, assim como a insistência na oposição entre saúde e economia.

Quatro providências básicas são destacadas: apressar a vacinação, incentivar o uso de máscaras, implementar medidas de distanciamento social e criar mecanismo de coordenação nacional do combate à pandemia. Cada uma dessas medidas pode envolver detalhes mais ou menos complexos, mas todas são indispensáveis, e a hipótese de um lockdown coordenado nacionalmente

APELO AO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

No Paraná, o presidente da Assembleia Legislativa, Ademar Traiano recebeu a visita de representantes de hospitais do Paraná que também lhe entregaram um documento manifestando preocupação com a pandemia.

“Os hospitais signatários não estão conseguindo mais absorver pacientes pela demanda de leitos, em especial, aqueles com indicação de UTI”.

O alerta dramático faz parte de uma carta aberta assinada pelos diretores técnicos de 28 maiores hospitais de Curitiba entregue hoje ao deputado Ademar Traiano, presidente da Assembleia, pelo doutor Luiz Sallim Emed, diretor Técnico do Hospital Nossa Senhora das Graças. A iniciativa é uma espécie de grito de alerta para a gravidade da situação do setor de saúde e uma tentativa de mobilizar a adesão da população e autoridades a adotar as medidas preventivas. A correspondência também será entregue ao secretário estadual de Saúde, Beto Preto, ao governador Carlos Massa Ratinho Junior e aos prefeitos da Região Metropolitana.

Sallim Emed enfatizou que o documento representa a posição de  8 a 10 mil médicos do corpo clínico desses 28 hospitais e seu alerta sobre a gravidade da situação vivida no Paraná, deve ser levado muito à sério pela população e pelas autoridades.

Traiano respondeu que a Assembleia, “como sempre fez ao longo dessa crise – que agora está em seu pior momento – continuará pronta a dar sua contribuição para ajudar a conter a pandemia, além de viabilizar todas as ações do governo no combate a doença”.

NO LIMITE DA CAPACIDADE HOSPITALAR

Alertam que a capacidade hospitalar está comprometida e que ninguém deve subestimar a gravidade da crise: “Para atender a crescente demanda, leitos foram ampliados nos hospitais públicos e privados de Curitiba e Região Metropolitana, e todos estão já ocupados inclusive estamos com pacientes críticos em unidades de emergência aguardando vagas nas Unidades de Terapia Intensivas.

Neste momento, estamos extremamente limitados para novas ampliações, ou por falta de infraestrutura (espaço físico, equipamentos) ou ausência de equipes para operacionalizar outros espaços. Nossas equipes têm atuado de forma dedicada e competente para manter o atendimento aos que necessitam, mas a sobrecarga de trabalho e a duração desta pandemia tem abatido a energia de todos, no entanto, continuamos atuando por responsabilidade profissional, solidariedade e heroísmo”.

“Os diretores Técnicos dos hospitais, cientes da sua responsabilidade de garantir a segurança da assistência e zelar pela boa pratica médica de suas equipes vem a público demonstrar a sua preocupação quanto ao esgotamento absoluto dos recursos para manter o atendimento dentro dos padrões exigidos, mesmo em nossa cidade que tem um sistema de saúde muito bem organizado e reconhecido nacionalmente”.

“Estamos passando pelo momento mais crítico da Pandemia desde o seu início, enquanto aguardamos maior número de vacinas, entendemos que foi indispensável determinar o lockdown, atitude mais dura e impopular, no entanto, acertada para interromper o avanço descontrolado do contágio do Covid-19 e evitar o colapso do sistema de saúde da capital”, diz o documento.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal