João de Deus incorpora Rosseau e Darwin

Pedro Ribeiro


 

Essa profusão congestionada de emoções, instintos, desejos e prazeres que se misturam com a loucura e a racionalidade e que se manifestam no comportamento humano de cada um, é ainda um território obscuro e indecifrável dentro do Homem. Há todo um universo de regras, padrões e convenções estabelecidos que tenta- nos aprimorar com o passar dos anos, justamente na tentativa de moldar o Homem dentro do senso comum de civilidade e das civilizações.

Isso não é nenhuma novidade desde que o Homem saiu das cavernas e os primeiros neurônios começaram a se manifestar, permitindo que ele passasse a agir com mais racionalidade que instinto, ainda assim sem vencer as angústias da  natureza humana  e da sua existência. E essas angústias às vezes mudam apenas em pequenas variações, mas continuam nos dias de hoje, são as mesmas que nos atormentam a milhares de anos, sobrepondo-se muitas vezes a uma racionalidade cada vez mais desejada e cobiçada.

O filósofo francês Jean Jaques Rosseau, no seculo XVIII defendia a tese que o Homem, em seu estado primitivo e  natural é bom, sem maldade ou instinto de violência e que foi com o passar do tempo e no convívio com outros que ele conspurcou sua alma e sua natureza. Foi no convívio social que o Homem aprendeu a montar aos poucos seu estoque de maldades e que, por isso, se tornou necessário que  o convívio em agrupamentos se desse através do estabelecimento de certas normas e regras, surgindo dessa interpretação a elaboração do Contrato Social, uma das suas principais obras e que marcou sua biografia.

Tempos mais tarde, no século seguinte, Charles Robert Darwin, com sua teoria da Evolução das Espécies, estabeleceu o marco de contraponto à tese de Rousseau, desenvolvendo raciocínio completamente inverso. Grosso modo  se assemelharia nos tempos atuais à divisão que se estabelece entre direita e esquerda, originada da disputa entre jacobinos e girondinos na  Revolução Francesa. Naturalmente que esta comparação é exagerada e fora de propósito, aqui exposta apenas para ressaltar as diferenças de pensamentos dos dois.

Para Darwin, por instinto de sobrevivência, o Homem em seu estado natural é mau, violento, e por isso mesmo com tendência a se utilizar de todas as maldades possíveis para alcançar seus intentos e seus objetivos primários e de necessidades. Ele só difere dos demais animais por ser racional, apenas.  E  somente o convívio em agrupamento, em sociedade, permitiria que ele refreasse seus impulsos e se submetesse a normas e regras tornando-se um Homem bom e capaz de discernir o bem do mal.

Mas, por que essa conversa agora e em tese fora de propósito,  descolada da realidade dos dias de hoje??

É apenas para demonstrar como a natureza humana se manifesta diante do episódio que envolve o espírita João de Deus com as denúncias escabrosas que estão sendo feitas  por um grupo de mulheres que se dizem  violentadas sexualmente por ele. Não se faz aqui juízo de valor sobre a conduta do mestre espírita, se ele tem efetivamente culpas, como os indícios todos aparentam demonstrar, ou se há de fato uma insuspeita orquestração para atingir sua honra.

Mesmo nada sendo provado até o momento, havendo apenas  as denúncias, o caso divide a opinião pública. Alguns consideram  inconcebíveis as acusações e a condenação antecipada de João de Deus, para estes, um  Homem cheio de bondade, que nasceu para fazer o bem.

De outro lado, os que  já o consideram charlatão e psicopata que durante décadas se escondeu sob pretenso manto do bem, mas que na verdade é um Homem que carrega o mal dentro de si.

É aqui que nos encontramos com Rosseau e Darwin.

Quem dos dois tinha razão?

E a sua opinião, qual  é ??

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal