Esses moços, pobres moços!

Pedro Ribeiro


 

 

Uma das marcantes características do estereótipo e do comportamento do militante de esquerda, que se pensava sobrevivesse apenas na fase da adolescência universitária, quando os hormônios se congestionam, é a ruidosa pretensão de se considerarem os intérpretes do mundo, e da razão pura.

Deixe-se de lado aspectos colaterais da soberba e  da arrogância,  preste-se atenção apenas no que eles dizem e estaremos voltando no tempo de muitas gerações.

Nada mudou  quanto a isso.

Fervorosos devotos de cartilhas ideológicas mal interpretadas,, isso quando vencem a preguiça e se prestam à leitura, filtram para a formação de suas cultura individuais e do conhecimento apenas aquilo que esteja dentro de um arcabouço já pré-estabelecido, que se integre ao conjunto do que supõem que já sabem, mesmo confusos mas que lhes sirvam para  suposto fortalecimento de doutrinação.

Alguns poucos até que avançam na leitura de panfletos, a maioria, porém, reproduz discursos ouvidos em  catequeses, julgam-se então  preparados e partem com tudo em discussões de enfrentamento com a plebe alienada, retrógrada e reacionária, esse tipo de gente que não se enquadra e que teima olhar pela janela  um mundinho diferente.

Em um País que se despolitizou, encontram suas presas acuadas na vida mundana de uma classe média consumista e preocupada em futilidades e aí então sentem-se detentores do monopólio intelectual e visionários.

É um diálogo de surdos, sem interlocução, a conversa não acontece  com  troca de percepções e conhecimentos recíprocos, um exercício apenas de tentativa de convencimento com quem se fala, de um lado e de outro.

Ousar em conversas assim, com febres devotas de ambas as latitudes, mencionar reflexões e teses de gente que seja de imediato identificado como reacionário, é briga quase certa. A menos que o alienado interlocutor seja lutador de MMA. Revolucionário ou não.

Roberto Campos intelectual brasileiro, o ex-embaixador e ex-ministro de governo militar, polemista é uma espécie de monstro sagrado ao que a eles soa como o mais abjeto dos pecados: o tal do liberalismo. No caso de Campos, era reduzido em sua inteligência como sendo apenas um liberal, entreguista…, para ficar apenas por aqui com os adjetivos que ainda lhe fazem postumamente.

Mas ele era mais que isso! Era, além de tudo um frasista mordaz e  imperdoável quando se referia à esquerda e identificava o PT  ainda engatinhando em direção ao poder da República como a casa principal de abrigo das mais variadas tendências desse viés ideológico. E fustigava, com frases demolidoras, uma  delas profeticamente constituída em síntese marcante da personalidade petista.

 

— O PT é o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam.

 

Exageros provocativos.

 

Alguém poderia acrescentar que esses mesmos estudantes da época já poderiam ser considerados jovens envelhecidos, com síndrome de senilidade precoce, como também seriam os hoje dinossauros de cabelos brancos e de bengalas que continuam na mesma batida, os nossos eternos adolescentes tardios. A julgar pela arenga doutrinária que atravessa as décadas, não seria fora de propósito.

Mas, se você acha que são apenas os militantes de esquerda  logo identificados em seus estereótipos, mesmo  que não  demonstrem em camisetas o rosto de Guevara estampadas no peito – graças a Deus não usam boinas – e calças jeans encardidas e tênis sujos, é porque andou desatento no reconhecimento dos RGs da outra banda, dos mauricinhos, ou dos coxinhas, como queiram. Já meio que abandonaram o gel no cabelo, isso é certo, mas duvida-se que algum deles não circule por aí com o som de seu carro ressonando decibéis do indefectível estilo musical Sertanejo Universitário.

Igualmente cheios de razão e de soberba, acham que tudo se resolve na porrada, na força policial, porque, ainda que exceções se façam, são de fato pouco propensos ao diálogo, como os militantes da outra ponta.

Para ficar ainda com o polêmico frasista antes citado, reproduz-se aqui um de seus pensamentos quando se referiu certa ocasião à violência como sendo uma engenharia social marxista, mas que muito apropriadamente se aplica aos extremos da militância da direita: “ Querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos, depois em vítimas”.

 

– Ah, esses moços, pobres moços…-  ( Lupicínio Rodrigues)

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal