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Filho do presidente vive uma novela de horror sem fim

O assunto deve ser tratado com muito tato e cautela. Mas o filho do presidente e senador eleito, Flávio Bolsonaro, a cad..

Pedro Ribeiro - 25 de janeiro de 2019, 10:01

Foto Wilson Dias/Agência Brasil
Foto Wilson Dias/Agência Brasil

O assunto deve ser tratado com muito tato e cautela. Mas o filho do presidente e senador eleito, Flávio Bolsonaro, a cada dia que passa, parece estar sendo tragado e enredado em uma teia de horrores de uma novela cujo desfecho ainda está longe de acontecer. Não são apenas mais as denúncias de depósitos suspeitos de ilicitudes em sua conta bancária. A teia de relacionamento que teceu com integrantes de milícias do Rio de Janeiro, com quem conviveu durante os anos em que foi parlamentar estadual fluminense, deixa a terrível sensação de um enredo inacabado.

Não seria fantasioso nem absurdo supor que os serviços de inteligência do governo já tenham a percepção diferente do que toma conta até o momento os noticiários e por isso mesmo o presidente Jair Bolsonaro esteja agora sendo aconselhado, principalmente pelo círculo militar do governo, a afastar o caso das portas do Palácio do Planalto. E vir à público, com sentimento de aflição e dor de um pai, dizer que o filho deve pagar pelos erros cometidos se eles forem comprovados. Vacina-se para que o caso de Flávio Bolsonaro não contamine o governo neste início de mandato em que prepara pacote de medidas a serem submetidas ao Congresso Nacional no retorno dos trabalhos no próximo mês.

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Assombra a proximidade do filho com integrantes de milícias que agem em diferentes regiões da capital fluminense, a ponto de o senador agora eleito ter nomeado a mãe e filha do líder de uma dessas organizações que se encontra foragido e procurado e pela Justiça, como funcionárias de seu gabinete na Assembleia Legislativa. O mais grave e explosivo nessa estória que aos poucos se revela, é a suspeição de que o mesmo líder miliciano esteja envolvido diretamente na morte da vereadora Mariele Franco, do Psol, assassinada covardemente há nove meses junto com seu motorista.

Não são poucas as fotos que circulam nas redes sociais mostrando o então deputado estadual ao lado de dois outros líderes de milícias cariocas que agora se encontram presos, acusados de serem também os chefes de grilagens em regiões do Rio de Janeiro. Fotos em que também aparece Jair Bolsonaro com o filho e os dois líderes milicianos presos, provavelmente em alguma confraternização organizada pelo filho, sem que o presidente se desse conta do constrangimento que também passaria a ser exposto.

Há tempos as milícias cariocas que se formaram no rastro da delinquência e do crime organizado que tomou conta e se alastrou pelo Rio de Janeiro, deixou de ser ao que ela se propunha no seu início, ainda assim à revelia da lei. As primeiras facções dessas milícias surgiram em áreas dominadas pelo tráfico no Rio de Janeiro para dar proteção a comerciantes e moradores, com a cobrança de taxas, uma vez que o falido e dilapidado Estado do Rio de Janeiro, pela inépcia e roubalheira de seus governantes, não conseguia fazer.

Aos poucos, elas foram se tornando gangues de criminosos, em sua maioria formadas por ex-policiais militares que, em vez de proteger as populações reféns do tráfico, passaram a comandar o lucrativo comércio de drogas. Expulsaram antigos traficantes de suas áreas, assumiram seus postos, ou fizeram acordo para protege-los mediante pagamento de propinas.

Assumiram o comércio de serviços das populações com a instalação e venda de produtos com extensões clandestinas de telefonia, de sinal de internet, de venda de gás, entre vários outros. As populações que habitam essas favelas cariocas vivem hoje numa espécie de condomínio de criminosos aos quais pagam taxas para viver e sobreviver. Um verdadeiro cenário de horrores, um mundo paralelo ao poder do Estado, com os quais o então ex-deputado, investido na função de integrante e representante dele ignorou e com o qual conviveu estes anos todos.

No mundo do crime há forte código de conduta que se cumpre e cujos deslizes se paga com a própria vida. As milícias se tornaram máfias caboclas com a ginga da malandragem carioca. Mas chega-se ao momento em que a malandragem se atrapalha mesmo no mundo do crime. Podem não abrir o bico, não assinarem suas sentenças de morte. Mas, cedo ou tarde, a casa cai.

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