Fome no Brasil atinge mais de 10 milhões de pessoas

Pedro Ribeiro


Mais de 10,3 milhões – pouco mais de 10% da população – de brasileiros não tem o que comer diariamente. Com estas informações, a Istoé Independente expõe, em editorial, a situação não apenas da fome, mas da vulnerabilidade de grande parte de cidadãos verde-amarelos,
Além da fome, a revista mostra, através de pesquisas, que a situação é ainda mais abrangente em 36,7% dos lares, que padecem de outra condição extrema: não possuem acesso regular à alimentação em quantidade e qualidade suficientes para se nutrirem.

Traduzindo para o economês: insegurança alimentar. A fome é escalonada em três níveis. Mera teoria. Fome sem recompensa de comida é tudo igual: é fome!

O estudo, divulgado na semana passada, é do IBGE e refere-se a 2017 e 2018 — apenas três anos, portanto, após o Brasil ter sido retirado pela ONU do “mapa da fome”, em 2014. Em 36 meses, a tal triste mapa os nossos tristes trópicos, assim definidos pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, retornaram com 14,1% a mais de miséria.

Norte e Nordeste são as regiões mais castigadas pela insegurança alimentar. Além do problema que atinge sobretudo crianças com menos de cinco anos de idade (6,5 milhões em todo País ) e as casas chefiadas por mulheres ou negros, veio a pandemia. E veio com ela mais desemprego. E, fatalmente, a disparada nos preços de comida básica.

“Quando meus filhos vão dormir com fome, dou carinho. E digo que, amanhã, Deus vai prover. Meu barraco tem dois cômodos para quatro pessoas. Meu marido está desempregado, minha mãe entrevada, cuido dela também. Quando consigo trabalho de doméstica, olho a comida boa na casa da patroa, mas não como não. A patroa é boa, oferece, mas fico com culpa de comer sabendo que meus filhos estão de barriga vazia. Passei fome quando era criança. Agora são meus filhos que
Segundo opinião da revista, o Brasil foi e segue sendo um alto ronco de estômago de esfomeados e um alto ronco do fazer a sesta de governantes. Presidentes se sucedem, cada um faz seu próprio plano englobando e rebatizando planos anteriores. Hoje há o auxílio emergencial que envolveu 67 milhões de beneficiários dos R$ 600. Tudo bem, para quem não tem um ovo, R$ 600 é tudo; R$ 300 é tudo; R$ 10 é tudo. Mas só isso resolve? Para o faminto, não.

Para o presidente Bolsonaro fazer a sua demagogia de pai dos pobres de plantão, em troca de votos, para ele a estratégia é boa. Fala o economista Marcelo Neri da FGV Social: “Os pobres foram ao inferno com o desemprego e chegaram ao céu com o auxílio emergencial. A redução do valor nas quatro últimas parcelas e o final do programa em dezembro tendem a agravar a crise. Se o IBGE fosse a campo em 2021, encontraria um cenário ainda pior em insegurança alimentar”. Fala Walter Belik, professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e especialista em Insegurança Alimentar: “É muito provável que esse quadro apresentado já tenha piorado e piore ainda mais, uma vez que os programas de combate à fome foram desmantelados”.

Que a coisa já piorou é um fato, até porque a taxa de desemprego passou de 13,2% na terceira semana de agosto para 14,3% na última semana do mês — são 12,9 milhões de brasileiros nessa situação. E, como não há nada que esteja tão ruim que não possa piorar, o preço da comida mais básica disparou, praticamente anulando o efeito do auxílio emergencial. Tomem-se os últimos doze meses. O arroz subiu 19,2%, o feijão preto 28,92%, o feijão carioca 12,12%, o óleo de soja 18,6%. E o sempre barato frango tornou-se nobre: foi majorado 7%. Há saída? Sim, se as elites deixarem de ser autofágicas e autopredatórias. Na análise de Belik, há quatro fatores para a superação da insegurança alimentar: disponibilidade de alimentos, acesso a eles, oferta constante e a qualidade do produto. E, acrescente-se, destravar a produção já, e criar empregos já.
“Estou há dois dias sem colocar uma comida dentro do corpo. Meu companheiro e meu filho estão desempregados e a panela vazia. Moço, não vou mostrar minha casa porque tenho vergonha. Ah, adotei um cachorro, o Scooby. Quando temos o que comer, ele come também”. Cleusa Alves
Uma das conclusões do levantamento do IBGE cruza diretamente a perversidade da cronicidade da fome com outras duas mazelas nacionais que parecem incuráveis. Uma é o preconceito contra os negros. Ele fica evidente na medida em que a pesquisa constata que lares por negros chefiados são mais privados de comida se comparados a casas onde o homem branco é o cabeça da família. Tanto é assim, que eles, os negros, chefiam 74% dos domicílios com insegurança alimentar. A outra mazela ocorre com os lares em que a maior parte da renda familiar, por mais ínfima que seja, vem do trabalho feminino. Ambas as questões têm origens tão históricas quanto a maior ou menor dificuldade de acesso à alimentação. Em uma república decretada como foi a nossa, na qual a maioria dos republicanos discursava contra o fim da escravatura porque era proprietária de grandes latifúndios, foi enorme a massa de negros que acabou sendo jogada nas cidades e abandonada a seu próprio destino, em um País onde o capitalismo ainda se mostrava incipiente. Sem trabalho, a miséria da tortura física da escravatura se torna a miséria igualmente física de não ter o que comer. Entre as duas, nenhuma é pior que a outra — tanto uma quanto outra são deploráveis. Em relação à mulher, foi ela sempre preterida dos centros de decisões, sempre recebeu remuneração inferior a dos homens brancos (mesmo exercendo idênticas funções que exigiam a isonomia), sempre teve pela frente obstáculos quase intransponíveis no campo do estudo, que, consequentemente, levaria a melhores salários. (Revista Istoé Independente)

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal