Governo diz que indústria cresceu e Fiep mostra o contrário

Pedro Ribeiro

Crescimento da economia previsão 2021

Se já é difícil interpretar e entender certas decisões do Supremo Tribunal Federal, algumas medidas tomadas pelo governo federal em conjunto com Congresso Nacional como o “orçamento secreto”, e aqui no Paraná, o novo modelo de pedágio e a eficiência na travessia do ferry-boat, imaginem o quebra-cabeça econômico, onde o governo estadual diz que a produção industrial cresceu e a Fiep mostra o contrário.

Segundo a Agência Estadual de Notícias (AEN) do Governo do Estado, em nota distribuída à imprensa “a produção industrial do Paraná foi a terceira que mais cresceu no País em 2021, com avanço de 13,3% entre janeiro e setembro, na comparação com os primeiros nove meses do ano passado”. Esta informação é do Governo do Estado.

Em contrapartida, a Federação das Indústrias do Estado (Fiep) sustenta, com base nos indicadores divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que na variação mensal o resultado da produção industrial paranaense em setembro foi de queda de 0,4%, mesmo valor do indicador nacional.

Para tentar entender essa discordância de percentuais para mais e para menos, recorremos a competência e sapiência de economistas que lidam com esse tema no dia a dia. Pois, afinal, a produção industrial aumentou ou desacelerou.

A Fiep explica que no Brasil, em 2021, houve sete meses de queda e apenas dois meses de alta na produção industrial. No Paraná, houve cinco meses de queda e quatro meses de alta. Diante disso, observamos que houve fragilidade ao longo do ano na produção industrial paranaense.

O Governo do Estado, no entanto, aproveita pesquisa do IBGE que faz comparações de 15 locais (regiões/estados) analisados para informar que apenas dez aumentaram a produção industrial no acumulado do ano, sendo que a indústria nacional avançou 7,5% no período. O Paraná ficou atrás apenas de Santa Catarina (18,1%) e de Minas Gerais (14,2%).

Já no acumulado de 12 meses, os dois estados do Sul foram destaque, com Santa Catarina na liderança com o aumento de 16,4%. O comparativo mostra a força da retomada frente ao impacto dos meses mais problemáticos da pandemia no setor. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (10).

FRAGILIDADE NA PRODUÇÃO INDUSTRIAL PARANAENSE

A avaliação mês a mês tem oscilado este ano no Paraná, mas com uma performance de mais quedas do que altas”, avalia o economista da Federação das Indústrias do Paraná, Evânio Felippe. “Do início ano até agora são cinco resultados de redução contra quatro de resultados positivos. O que sinaliza uma certa fragilidade na produção industrial no estado”, pondera. Mesmo assim, o Paraná está em melhor situação do que o Brasil. O país acumula sete meses de retração contra apenas dois de crescimento.

Na comparação com setembro de 2020, a indústria paranaense teve leve elevação de 0,9%, enquanto no acumulado do ano o resultado é melhor, 13,3% de crescimento. “Importante lembrar que a partir de setembro do ano passado, o setor iniciou uma trajetória de recuperação robusta, após o baque inicial da pandemia. Na avaliação com o mesmo mês do ano anterior é possível comparar os resultados estatísticos mais reais do que vinha acontecendo nos meses anteriores, quando as bases comparativas ainda eram muito baixas”, sinaliza. “Agora é possível perceber que percentuais que vinham bem mais elevados tiveram redução no ritmo de crescimento”, acrescenta o economista.

Thiago Quadros, também economista da Federação, lembra que em setembro de 2020 também foi o fim da primeira onda da Covid 19 no Brasil, quando diversas medidas restritivas foram flexibilizadas. “Isso também explica uma base de comparação maior agora. Com a retomada das atividades, o desempenho de alguns segmentos melhorou. Vale destacar que nesta fase a indústria já havia sido considerada essencial e, portanto, não sofreu interrupções como o setor de serviços e comércio, que foram mais prejudicados”, lembra.

Das 13 atividades analisadas pelo IBGE no Paraná, sete tiveram ficaram abaixo do esperado em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Móveis (-20,6%), borracha e material plástico (-8,8%), alimentos (-6,8%), bebidas (-5,2%) e máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-4,6%). Por outro lado, mostraram recuperação máquinas e equipamentos (35,9%), produtos de metal (11,7%), químicos (7,1%), minerais não-metálicos (6,6%) e madeira (4,2%). Setor automotivo, o segundo mais relevante do estado, ficou estável. “Se o setor alimentício e automotivo, que têm um peso grande na composição da atividade industrial do Paraná, tivessem performances melhores, o resultado geral seria bem melhor”, complementa Quadros.

PERFORMANCE DA PRODUÇÃO INDUSTRIAL NO ANO

De janeiro a setembro, a alta de 13,3% tem sido mantida pela recuperação do segmento de máquinas e equipamentos (73%), automotivo (44,3%), madeira (33,8%), fabricação de produtos de metal (30%) e minerais não-metálicos (20%). “Porém vale destacar que a base de comparação com o mesmo intervalo de 2020 era muito baixa porque foram setores fortemente afetados pela crise sanitária no ano passado”, reforça Evânio Felippe. Das 13 atividades, a produção de alimentos (-6,3%) e de celulose e papel (-1,7%) encolheram.

Uma das explicações pode ser a alta taxa de desemprego no país e a queda na renda média do brasileiro, que afetam diretamente o poder de compra da população, gerando diminuição no consumo das famílias. O setor de carnes, por exemplo, que representa quase 10% do PIB industrial do Paraná, tem registrado retração por conta do aumento nos preços e dificuldades na exportação do produto. E isso impacta no desempenho da atividade como um todo no estado”, completa. A demanda interna insuficiente tem sido uma queixa frequente dos empresários na Sondagem Industrial Mensal avaliada pela Federação. “A indústria quer produzir, mas quando o consumo é insuficiente, influencia toda a atividade produtiva”, avalia Felippe.

Para Quadros, outro motivo é a situação atual no mercado de trabalho nacional. “As principais oportunidades têm sido no setor informal, que oferece salários menores do que os empregos com carteira assinada. Isso limita o nível de gastos da população e afeta a qualidade de vida e também a retomada do crescimento econômico”, conclui.

Além disso, o Paraná foi um dos poucos estados com avanço na atividade industrial especificamente em setembro de 2021, ante o mesmo mês do ano passado. O crescimento da indústria paranaense no período foi de 0,9%, superado apenas pelo Rio de Janeiro (5,3%), Minas Gerais (5%) e Santa Catarina (1,5%). Apenas os quatro

Também avançaram a fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (30%); produção de minerais não metálicos (20,1%); máquinas, aparelhos e materiais elétricos (12,6%); móveis (8,8%); bebidas (7,7%); produtos de borracha e de material não plástico (6,1%); outros produtos químicos (6%) e de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (0,6%).

Houve retrocesso na indústria de produtos alimentícios (-6,3) e de celulose, papel e produtos de papel (-1,7%).

COMPARAÇÃO MONETÁRIA

O economista e professor, José Pio Martins diz que “quando se fala em aumento da produção industrial é preciso ver se isso é apenas uma “comparação monetária” da produção de 2021 com 2020 (período de nove meses). Veja: a produção industrial não tem como ser somada em “termos quantitativos”, pois não dá para somar, caixa de chiclete mais litros de cerveja mais tonelada de óleo de soja mais produção de automóveis. Então, a comparação é sempre pela “expressão monetária” da produção industrial (que resulta de “quantidades x preços”). Ainda segundo Pio Martins, como os preços subiram por causa da inflação e porque parte do faturamento é da exportação (que foi aumentada em reais por causa do aumento do preço do dólar).

Parte da produção do Paraná resulta de fenômenos da natureza. Isto é, em ano de clima favorável, a produção do agronegócio aumenta (que tem grande parte das matérias-primas processada nas indústrias paranaenses).

Comparar 2020 com qualquer outro ano seguinte é comparar coisas desiguais. De março a dezembro/2020 a pandemia explodiu, não havia vacina (nenhum brasileiro foi vacinado em 2020). Se 2020 deu uma recessão de 4,1% no PIB do país e 2021 deve haver crescimento de 4,8%, justamente o agronegócio industrial iria crescer. (que não parou na pandemia, pois a safra estava plantada, tinha que ser colhida e industrializada).

 

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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