Lula, em companhia de seus fantasmas e de oportunistas sobreviventes

Pedro Ribeiro


 

O leitor deve ter notado que, ultimamente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há mais de um ano em Curitiba, está solitário. São poucas – ou quase nenhuma – as lideranças políticas que o visitam. Até mesmo sua fiel escudeira, Gleisi Hoffmann, não tem sido vista pelas bandas da Polícia Federal. Apenas seus advogados fazem plantão na região. Nem mesmo seu general de campo, João Pedro Stédile, líder do MST, tem dado as caras. O exército sumiu. Em entrevista, o líder do MST diz que a crise econômica desmobilizou a turma e quase não haverá mais invasões.

Nem tudo está perdido. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, disse em entrevista ao UOL que a corte vai resolver em outubro a situação do ex-presidente. Possivelmente Lula sairá da cadeia e passará a um regime semiaberto.

Mas ainda há muito ruído no ar. A deleção do empreiteiro Leo Pinheiro, da OAS, afirmando que Lula fez a empresa assumir obra deficitária na Bolívia e que teria feito repasses à campanha presidencial naquele país, foi uma pá de cal nas pretensões de Lula e de sua defesa em relação a seu futuro. A cada dia surge um fato novo (ou mesmo velho, com roupagem nova) que incrimina o ex-presidente.

Muito se tem falado de Lula nestas últimas três décadas. Desde sua travessia de Garanhuns, no sertão pernambucano, ao sindicato dos metalúrgicos de São Paulo e ao Palácio do Planalto. Interessante, no entanto, a análise feita pelo jornalista e escritor, Alceo Rizzi, que traça um perfil sobre a ideologia do cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. De líder das massas à prisão em Curitiba.

Esperteza

Lula nunca foi de esquerda. Foi apenas uma roupagem oportuna que lhe surgiu e que deu certo. E da qual não pode mais se desfazer, mesmo que isso tenha lhe passado pela cabeça um dia. É filho da esperteza. Descobriu desde a primeira experiência sindical nos anos 70 que era mais fácil e confortável sobreviver dessa maneira do que sendo operário de chão de fábrica, como torneiro mecânico.

Como líder sindical há quem lhe atribua caráter instável, encoberto pelo domínio do carisma e da linguagem emocional. Assentiu ser instrumento de intelectuais e militantes da esquerda para chegar onde chegou. Nunca governou de fato. Néscio, apenas usufruiu da perfumaria do poder enquanto outros conduziam o País como bem entendiam e ele verbalizava. Gente de atrasada faceta de esquerda, de inclinações totalitárias, estalinista, como Zé Dirceu, que governou de fato.

Chega agora em seu crepúsculo no estado de já não poder convencer grande parte da mesma esquerda que o instrumentalizou, exceção de fiéis e febris devotos sobre os quais ainda exerce certo domínio, seduzidos pela retórica sindical que ele aprendeu sozinho. Ou de militantes aproveitadores e hoje órfãos e deserdados.

Sem compromisso com a verdade, acredita nas mentiras que diz. Para alguns, símbolo do atraso e do retrocesso, construiu um país de domínios nocivamente corporativos que o tomaram de refém. Expressão de retrógrado populismo sindical, com mais danos que avanços e conquistas ao País e à própria ideologia a qual ele nunca sequer teve a mínima noção do que fosse. Agora vive seu outono perdido nas névoas da farsa que construiu, sem identificar as armadilhas que provocam seus delírios. Já não distingue entre o que é real e o universo cínico e fantasioso que fez para si mesmo. E pensar que a maior liderança de massa que o País á produziu em toda a sua História preferiu o ocaso, não conduzir para se deixar ser conduzido.

Vai consumir o resto dos dias acreditando na imagem que fez de si e naquilo que ele não foi. Não poderia ser diferente. Ainda que saia do cárcere, vai ser apenas uma sombra de si mesmo.

Com a companhia de seus fantasmas. E de oportunistas sobreviventes.

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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