Moro não acredita na hipótese de acordão do STF em relação a Lula

Pedro Ribeiro


 

 

A princípio, a contragosto, o juiz federal, Sergio Moro, cumpriu  uma promessa e esteve frente a frente,  com um seleto grupo de jornalistas no programa de entrevista Roda Viva, da TV Cultura, levado ao ar na noite deste segunda-feira.  Não se intimidou diante das celebridades  e respondeu a todas as perguntas, com um pequeno desiquilíbrio quando foi questionado sobre o polêmico auxílio moradia – R$ 4,300 – do qual é b3eneficiário e foi um defensor, não pela categoria, mas pessoal, por entender que os salários dos magistrados estão sem reajustes e defasados há mais de três anos, como justificou.

Durante pouco mais de 90 minutos, o juiz foi firme e mostrou conhecimento do processo que combate a corrupção sistêmica no Brasil que já consumiu R$ 6 bilhões dos cofres públicos só em propina na Petrobrás. Moro acredita que o Supremo Tribunal Federal (STF) dará uma resposta positiva – no caso a detenção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – no julgamento, dia quatro de abril, do Habeas Corpus pedido pela defesa. Não quis adiantar se lula terá uma cela especial e lembrou que não será ele quem decretará a prisão, mas a turma da quarta região do STF. “Eu apenas cumprirei determinações”, disse.

Moro disse que não acredita que poderá haver um acordão no Supremo Tribunal Federal para relaxar a prisão de Lula e afirmou que confia na qualidade e competência dos ministros. Voltou a criticar o foro privilegiado que dá abrigo a corruptos famosos, principalmente políticos e observou que é preciso rever esta questão. “Não digo que o foro precisa acabar, mas deverá ser restrito a poucas autoridades, ou seja, à Presidência da República, Congresso Nacional e ministros do Supremo Tribunal Federal”.

O juiz federal observou que a Lava Jato não é um produto dele, mas de um conjunto envolvendo Ministério Público, Polícia Federal e Justiça Federal e que, sozinhos, sem o apoio da sociedade, será difícil chegar a um estágio de desejo da população. A Lava Jato não será engessada, caso o STF julgue e aprove o pedido de Habeas Corpus do ex-presidente Lula, pois servirá para se buscar brechas na reforma constitucional e corrigir os erros. E voltou a afirmar que, como juiz, não pode acreditar na hipótese de um acordão no STF, porque abrirá precedente para traficantes, pedófilos, doleiros e outros setores que, com a corrupção, destroem a economia e coloca em risco a democracia no país.

114 execuções penais

Moro sustentou que não se arrepende de nenhuma de suas decisões em relação à condenações e explicou que, hoje, já existem 114 execuções de penas e condenações em segunda instância e que a grande maioria não se refere à Operação Lava Jato, mas a crimes de desvio de dinheiro na área da saúde, educação e outras da administração pública. Nestas condenações estão pedófilos, traficantes e doleiros que, de uma forma ou de outra, lesaram os cofres públicos.

Para o juiz federal, seu desejo é o da construção de um país mais justo e de meios produtivos para conter a corrupção sistêmica. Segundo disse, o brasileiro não é nem mais ou nem menos corrupto que outros cidadãos do mundo. A corrupção existe em todos os lugares do mundo e que vê no cidadão brasileiro, aquele que foi às ruas em 2015 e 2016, um desejo muito grande de contribuir para que o corrupto seja punido. Os brasileiros querem um país mais íntegro, disse.

Qualidade e esperança

Moro também falou sobre o processo eleitoral deste ano, onde espera que a população saiba escolher seus representantes no Palácio do Planalto, nos governos estaduais e nos legislativos estadual e federal. Para ele, o poder público precisa contar com pessoas mais qualificadas e competentes para a administração pois, caso contrário, a corrupção terá continuidade. “Os fatos graves de corrupção alertou a população e levou muita gente às ruas para protestar e, ainda que tenhamos um revés, progredimos muito na construção de uma democracia com mais qualidade e esperança”.  “O legado da Lava Jato é uma lição de continuidade”, completou.

O programa Roda Viva teve a participação dos jornalistas Augusto Nunes, Fernando Mitre, Ricardo Setti, Sergio Davila, João Caminoto, Daniela Pinheiro e do cartunista Paulo Caruso.

 

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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