Na ONU, Bolsonaro dirá ao mundo que alimenta o mundo

Pedro Ribeiro


Não se trata de uma prestação de contas ou justificativa, mas um recado ao mundo sobre o que o governo brasileiro vem fazendo em relação à pandemia e às queimadas na Amazônia e no Pantanal. Estes dois temas – devastação ambiental e condução no combate ao coronavirus – associados à perseguição política que afirma que vem sofrendo, deverão fazer parte do conteúdo do discurso que o presidente Jair Bolsonarp fará nesta terça-feira, na Assembleia Geral das Organização Mundial das Nações Unidas (ONU).

O discurso já foi gravado e Bolsonaro deverá ser menos agressivo dessa vez, não criticando, por exemplo, índios e posturas políticas internas relacionadas ao judiciário brasileiro.. Ele deverá focar sua fala na defesa de que o país não só teve um bom desempenho doméstico na crise sanitária como garantiu a segurança alimentar de um bilhão de pessoas ao redor do mundo graças ao agronegócio nacional.

Com mais de 4,5 milhões de infectados e 135 mil mortos por covid-19, o governo brasileiro adotou postura contrária a medidas de isolamento social e ao uso de máscara, recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e advogou por tratamentos à doença sem comprovação científica, como a hidroxicloroquina.

Mas a recente tendência de queda no número de novos contágios e mortes no país deve dar a Bolsonaro subsídios para argumentar que a situação do Brasil parece sob controle, avalia a BBC..

No discurso da ONU, Bolsonaro deverá afirmar que fez esforços para salvar vidas sem ignorar os custos sociais e econômico. No texto preparado para orientar o discurso de Bolsonaro, há uma sugestão de que o presidente brasileiro expresse suas condolências às famílias afetadas pela doença e agradeça esforços dos profissionais de saúde. Desde o início da pandemia, Bolsonaro fez raras menções às vítimas do coronavírus.

Bolsonaro também falar sobre o auxílio-emergencial de R$ 600 mensais recebido por mais de 60 milhões de brasileiros.

Segundo analistas, o presidente brasileiro deverá também defender sua atuação na pandemia e sugerir que as críticas a ela eram mera perseguição política.

Há uma semana, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Dinamarca, Noruega, Países Baixos e Bélgica assinaram uma carta aberta endereçada ao vice presidente Hamilton Mourão em que se dizem “profundamente preocupados” com o desmatamento da Amazônia que “tem crescido em níveis alarmantes”.

Quase 20% do Pantanal já foi destruído por incêndios. Já na Amazônia, as queimadas cresceram 12% esse ano. Mourão tem dito que o Brasil reconhece que há um problema, mas que não aceita interpretações “simplistas” do fato. Membros do alto escalão do Itamaraty que conversaram com a BBC News Brasil anteveem ao menos um momento de constrangimento brasileiro no evento.

Os diplomatas esperam ataques diretos ao país durante uma sessão da cúpula de líderes em biodiversidade. O chanceler Ernesto Araújo foi o escalado para rebater, em vídeo de 3 minutos, às possíveis críticas.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal