No centro dos debates políticos às eleições, falta discutir o país, a fome, desemprego e gastos públicos

Pedro Ribeiro


 

Neste final de semana recebi, vias whats e e-mail, vários textos com pretensas avaliações sobre as eleições à Presidência da República em 2022. Alguns coerentes, outros visivelmente corporativos ou engajados e a maioria, vamos dizer, “fora da casinha”. Não se pode, no entanto, ignorar nenhum deles, pois todos convergem para essa que deverá ser uma das eleições mais difíceis do país.

Um fala que Luiz Inácio Lula da Silva vem com tudo e pode vencer no primeiro turno, outro que se der segundo turno entre Lula e Bolsonaro, o atual presidente pode vencer e outros tentam avaliar a terceira via mas sem consistência. Lula continua falando em ajuda aos pobres, Bolsonaro, besteiras e Moro insistindo no combate à corrupção.

Estes “cientistas políticos” de fim de semana só falam com base em pesquisas que leram aqui e ali. Jamais analisam a situação do país como os 20 milhões de brasileiros passando fome, os 14 milhões de brasileiros desempregados.

Entre os textos que recebi, um chamou a atenção: “não voto mais, pois tudo caminha para a mesmice, como Congresso Nacional reelegendo os mesmos e sem uma análise criteriosa do que o Brasil e os brasileiros realmente precisam”.

Mas foi nas entrelinhas do editorial deste fim de semana do jornal o Estadão que encontrei algo que realmente interessa para o debate público e não para analistas políticos de redes sociais que falam o que querem e acham que estão certos e que ainda tem leitores.

A pré-candidata do MDB. Senadora Simone Tebet, disse que o foco de sua plataforma eleitoral será a fome, mazela social que voltou a assombrar milhões de famílias. “No Brasil, hoje, 5 milhões de crianças vão dormir com fome. No Brasil, hoje, nós temos mais de 20 milhões de brasileiros que ficam dia sim, dia não, sem se alimentar. Esse Brasil é o Brasil que exige coragem, que exige altruísmo, que exige um esforço de todos nós”, afirmou Tebet, no dia 8 passado. “Nada é mais prioritário do que isso”, acrescentou. Em um pronunciamento de 23 minutos, ela mencionou a fome quatro vezes. A título de comparação, Sergio Moro, do Podemos, falou por quase 50 minutos no evento de sua pré-candidatura e citou a palavra duas vezes.

A senadora, segundo analisou o Estadão, com base em pesquisas, pois os eleitores parecem concordar com ela. Levantamento da Genial/Quaest mostra que 41% dos entrevistados consideram a economia o principal problema a ser enfrentado pelo País, especialmente o desemprego. Saúde e pandemia foram apontadas por 19%. Questões sociais foram lembradas por 14% e, dentre elas, as menções à fome subiram de 4% em julho para 11% em dezembro.

Uma outra pesquisa, a da CNT também revela este horroroso lado social em que vive o país: 71.1% dos entrevistados disseram que o principal problema do país é a saúde, enquanto 66.1% afirmaram ser a educação e 45% a economia.

Voltando ao editorial, o desafio do próximo presidente passa por enfrentar questões estruturais, como rever o engessamento do gasto público. Artigo de Raul Velloso publicado no dia 9 passado no Estadão mostra que a fatia da folha de pagamento – servidores, aposentados e benefícios sociais – no Orçamento aumentou de 39% para 75,6%, tomando espaço de outras despesas e de investimentos. Se não tiver coragem de promover mudanças profundas no modo como se lida com o dinheiro do contribuinte, estabelecendo as verdadeiras prioridades, a sociedade brasileira perpetuará o abismo entre uma elite de privilegiados com acesso garantido aos recursos do Estado e uma massa de desvalidos que não sabem se vão comer amanhã.

É essencial que os postulantes ao maior cargo político do País sejam cobrados a apresentar programas de governo condizentes com a urgência social e econômica. Como bem disse a senadora Simone Tebet, o Brasil não pode mais estar à mercê de aventureiros. O preço da irresponsabilidade tem sido alto demais.

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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