O Brasil precisa de corneteiros, como o da Batalha de Pirajá, para colocar ordem nas instituições

Pedro Ribeiro


Todos vocês devem lembrar, por terem estudado ou ouvirem falar, daquele episódio do corneteiro atrapalhado que em vez de soar toque de recolher em uma batalha que se dava por perdida, se confundiu, encheu os pulmões e tascou toque de avançar sobre as tropas inimigas. Aconteceu na Batalha de Pirajá, na Bahia, em 1822, quando os brasileiros agrupados no Exército Pacificador venceram as forças portuguesas da legião Constitucional, episódio que para muitos historiadores foi o marco efetivo e prático da Independência do Brasil, declarada oficialmente dois meses antes.
Em frase atribuída ao filósofo alemão, Karl Marx, diz-se que a História se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Por sorte ou por sopro divino, naquele dia da batalha do século XIX, o corneteiro Luis Lopes, provavelmente com as pernas em abalos sísmicos, contradisse o filósofo ao se confundir ao soar o toque “ cavalaria, avançar e degolar”, quando nem cavalaria havia, mas fez os portugueses recuarem em pânico.

Obviamente que se trata de exagero deste escriba transportar episódio dos compêndios brasileiros para o mundo contemporâneo, e mesmo carregar nas tintas e forçar a mão, ou plagiar o filósofo alemão dizendo que a História se repete como farsa. A única ilação que se poderia tirar do episódio histórico para os dias atuais, é que está faltando desses corneteiros hoje para que se evite um mal maior, como fez com êxito o confuso baiano.

É preciso fazer soar repetidamente as cornetas hoje para as instituições que governam o País, do Legislativo ao Judiciário, para que o Brasil que escapou da derrota contra os portugueses, não seja derrubado pela corrosão que se dá por dentro. E não se trata aqui de defender um estado forte, autoritário, com restrições de liberdades de raças, credos, de sexo ou do exercício da plena cidadania, que todos nós cultuamos e haveremos de preservar.

Trata-se de dar cabo aos abusos e ao pouco caso que aos poucos foi degradando as instituições que teriam obrigação moral, ética em defender e fazer justiça a um país como o Brasil, já por demais sofrido, dilapidado e expropriado pela sanha patrimonialista e de negociatas que ocorrem nos âmbitos dos poderes. Quando se julgava que as suspeições recaiam apenas sobre o Executivo, com extensão ao Legislativo, este sempre marcado por denúncias de corrupção, o Brasil se defronta agora com a decepção e o descrédito do que seria o seu último bastião de esperança, a alta magistratura.

Em nenhum outro país do mundo civilizado, democrático e de respeito á cidadania, excluindo ditaduras corrompidas que ainda perduram no planeja, há uma Suprema Corte de Justiça em que seus ministros estejam imunes a dar satisfação por atos que, no mínimo, se denotam como estranhos á conduta de seus cargos. Chegar ao mais alto cargo da Suprema Corte de Justiça do País, como lembrou recentemente o economista e ex-ministro Delfin Neto, não é para fazer embates de vaidades ou de pretensas erudições jurídicas, é ser alçado a um posto sagrado, supremo, a última instância na esperança de justiça de qualquer cidadão.

Nestes dias recentes, por exemplo, fomos brindados pela imprensa com revelações de que o ministro Gilmar Mendes, o menos insuspeito de todos dependendo do viés pelo qual se olhe, recebeu nada menos que 7 milhões de reais para o seu Instituto Brasiliense de Direito Público, o IDP. Em 2016, de acordo com a Revista Digital Crusoé, foram feitos 32 pagamentos a este instituto, todos de empresas e entidades interessadas em patrocinar os eventos do IDP. Alguns desses patrocinadores deram dinheiro sem que houvesse publicidade. Somente a Souza Cruz, a gigante do tacanho, ainda de acordo com a revista digital, depositou 2,4 milhões de reais, desde 2011. E informa muitas coisas mais…

Por tudo isso e por exemplos reiterados e incompreensíveis que vem sendo dados pelo STF, é preciso que ele encontre logo, dentro de seus domínios, um corneteiro que desta não aja como o baiano confuso, e faça soar o toque correto de recolher. Antes que os portugueses descubram quase dois séculos depois que foram enganados e encontrem brasileiros desiludidos, e possam fazer soar com apoio e facilidade o toque trocado da corneta do baiano.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal