O cordeiro do sacrifício

Pedro Ribeiro


 

O caso das transações financeiras ilícitas do chefe de gabinete aparentemente envolvendo  nomes da família Bolsonaro, ainda que esteja na sombra apenas da suspeita do Coaf, mas com severos indícios efetivos de práticas fraudulenta, embora nada esteja provado até o momento, revela apenas o afrouxamento ético e moral de que sempre se suspeitou em relação ao poder Legislativo.

Justamente um poder, no escopo montesquiano, que teria a função  de fiscalizar o Executivo, e de criar leis em benefício da população, na missão da guarda severa e dos cuidados com o patrimônio público, em ultima análise os próprios recursos do Tesouro originados dos impostos que todos pagamos.

Mas não se iludam.

O que aparentemente emerge como uma exceção de comportamento ético e moral, além de criminoso, pode estar incorporado como regra dentro do jeitinho brasileiro de driblar a lei. Quem nunca ouviu falar de parlamentares que se apropriam de parte dos salários de seus funcionários?

Em Curitiba, um vereador, foi condenado e preso, por abusar da prática. O caso Gafanhotos, dos funcionários fantasmas da Assembleia Legislativa do Paraná,  é ainda mais escandaloso, e a maioria dos envolvidos permanece impune, alguns com renovação de mandato parlamentar.

Seria interessante se o Coaf ou o Ministério Público colocassem lupa para acompanhar outros gabinetes parlamentares, do Congresso às demais casas ditas de lei neste País afora.

Mas não é este o propósito ou objetivo dessa análise. Ela serve apenas como preâmbulo para demonstrar o descontrole absoluto e a impunidade que permitiu a propagação de uma corrupção sistêmica espelhada em um modelo de gestão  federativa que acontece ao longo de décadas. Um modelo que no âmbito federalem que as esferas de poder, se transformaram em capitanias hereditárias, alternadas em rodízios, na partilha da prática do toma-lá-dá cá. E se espraiou para as outras esferas institucionais, do legislativo ao Judiciário.

Chegamos ao ponto que cada um desses poderes se governam e criam um Estado para si, sem que haja uma fiscalização ou um poder que possa dar  freio a essa volúpia e a essa sensação patrimonialista de apropriação do bem público. Ainda recentemente o próprio presidente do da Suprema Corte do País, Dias Toffoli, do STF, barganhou escandaloso reajuste de 16 por cento no reajuste dos salários dos magistrados com o Senado. E o rubor da vergonha já nem mais se manifesta.

E é o País que paga a conta, com os impostos e taxas recolhidos dos brasileiros, com uma das cargas tributárias maiores do mundo.

Segundo dados do Ministério do Planejamento, cada servidor do Judiciário custa, em média, 123 mil reais por ano, enquanto os gastos com funcionário do poder legislativo é em média de 153 mil reais anuais. Isso sem contar as prebendas, as gratificações e a miríade de outras rubricas que o sentimento corporativo e patrimonialista vai agregando sempre para engordar os vencimentos de quem participa do sistema.

O chefe de gabinete é apenas o cordeiro no ritual do sacrifício.

É preciso alimentar o discurso moralista.

É preciso que haja um certo decoro, mesmo dentro da esbórnia!

Depois, tudo volta ao normal, como d’antes.

Previous ArticleNext Article
Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal