O debate trapaceiro que fez o Brasil de refém

Pedro Ribeiro


 

O debate trapaceiro que fez o Brasil de refém

A eleição grotescamente circense ocorrida para a escolha do presidente do Senado, nos leva a uma reflexão que traz à tona deprimente constatação. Esses pouco mais de 30 anos de democracia plena vividos pelo Brasil serviu para desmascarar e desmistificar uma grande balela que era dada como verdade absoluta por historiadores, sociólogos e intelectuais de toda a espécie. A de que o regime militar, findo em 84 com a eleição de Tancredo Neves para presidente no Colégio Eleitoral, foi o grande fator de impedimento ao surgimento de novas lideranças políticas, devido ausência de debates e restrições das liberdades que havia. Apenas uma das grandes bobagens, dessas que esse pessoal continua a dizer sobre outra época, circunstâncias e cenários, o que só demonstra que também na esfera intelectual e na Academia, se produz muita besteira.

Foi justamente durante os anos do regime militar que se produziu a classe política que ainda hoje domina a cena nacional, alguns deles já estavam em atividade como parlamentar, outros envolvidos no movimento estudantil assim chamado na época. Outros já falecidos, que transitaram pelos governos militares e depois se fortaleceram e se estabeleceram definitivamente no quotidiano político do País, gente de certa expressão e respeito, como Ulysses Guimarães para ficar apenas com o nome dele, em referência aos demais do mesmo quilate.

Para desmentir essa máxima de que a falta de novas lideranças era culpa do regime militar, vejamos quem hoje está ainda no comando da cena brasileira, senão pessoalmente, através de seus filhos, netos ou aparentados, todos de uma casta que só nos envergonha. Jader Barbalho, no Pará, senador e o filho governador, Renan Calheiros, oriundo da militância no PCdoB do movimento estudantil, Fernando Collor de Mello, José Serra ex-presidente da UNE e uma profusão de outras expressões e gente  do baixo clero que habitaram e habitam as duas câmaras de parlamento do Brasil.

E o que a democracia nos possibilitou com o exercício pleno de liberdades e de debates?

Gente como José Dirceu, Lindemberg Faria, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Braga, Beto Richa, Eunício de Oliveira, Tarso Genro, Marconi Perilo, Aecio Neves, Sergio Cabral, Anthony Garotinho, Gleisi Hoffmann, Benedita da Silva, Erundina da Silva e toda uma caterva do mais raso extrato político que se possa imaginar, alguns escondidos sob o manto de um colorido ideológico, outros nem esse disfarce usaram para assaltar os cofres de seus estados, como aconteceu agora recente no Paraná, com o filho de um homem respeitável como o falecido José Richa. Todos esses probos cidadãos que estão aí, surgiram dos anos de militância do período militar, seja em partidos ou movimentos estudantis, e o País vive essa teatro tragicômico que é vida política nacional. O pior de tudo é que eles tem  capacidade de contaminação dos novos políticos que surgem.

Não se está aqui fazendo defesa de restrições de liberdades, de fechamento de instituições, do estabelecimento de governos autoritários e de força, como equivocada e tragicamente podem pretender alguns. Muito menos defender a tortura e a violação execrável de direitos humanos, ou de todos os crimes, mortes e sequestros cometidos durante o regime militar. O que se faz é uma constatação apenas, pura e cruel, de que se atribui exclusivamente ao regime militar a péssima e lastimável qualidade de nosso políticos, pela dificuldade que havia de surgimento de novas lideranças, devido a falta de debates democráticos e abertos.

Houve de fato restrições à liberdade de expressão e de reunião durante o regime, mas foi a qualidade dos debates que aconteciam, ainda que em reuniões reservadas e clandestinas, que se produziu esse universo execrável de rufiões da política. Foi a qualidade do debate, marcadamente com viés de substituição das restrições de um regime militar, pelas restrições de liberdades de um regime de esquerda, socialista,  à pretexto de um mundo livre e igualitário. Como se todos os governos ideológicos não desembocasse em totalitarismos, como a História tem ensinado, com Venezuela em exemplo mais recente.

O pior é que dessa meio surgiu muitos pulhas e fístulas do mundo político que depois se locupletaram à mão grande no arrombamento de tesouros nacionais, e que ainda se reproduz, principalmente no seio estudantil, atrelado a esse viés caricato e ultrapassado de esquerda. Vivem em plena liberdade de manifestações, para quem sabe um dia se tornarem os rufiões do futuro e o Brasil, dessa maneira, continuar vivendo seu moto-continuo de farsa e de trapaça, em nome de um projeto de nação que jamais existirá.

 

 

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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