O que passa na cabeça de um policial nas ruas ou em casa

Pedro Ribeiro


 

Sabemos que um policial, seja ele militar ou civil, sai de casa pela manhã e não sabe se retorna com vida. Não tenho policial na família, mas acredito que as famílias desses servidores que estão integralmente à disposição da sociedade devem ter uma preocupação bem maior do que a dos cidadãos que trabalham em outras atividades que não precisam, por exemplo, andar com uma arma na cintura.

O risco não está apenas nas ruas, mas, também, dentro de casa. Em 2018, Foram 104 suicídios no país, o equivalente a dois policiais mortos a cada semana. O número saltou 42,5% em comparação a 2017, ano que registrou 73 casos. No último ano, 87 policiais foram vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) — em geral, durante confrontos com bandidos. Esta estressante atividade que tem preocupado as autoridades do setor acaba de ser tema de discussão na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná

Na audiência pública “Saúde Mental dos Servidores da Segurança Pública”, convocada pelo deputado Goura (PDT), em parceria com o deputado Delegado Recalcatti (PSD) e o deputado Soldado Fruet (PROS), os parlamentares também manifestaram preocupação com o alto índice de suicídios entre os policiais.

ANSIEDADE E DEPRESSÃO

Goura apontou que vem recebendo relatos sobre crescimento nos índices de ansiedade, depressão, drogadição e suicídio nas forças e segurança. Em 2018, morreram mais policiais civis e militares por suicídio do que em confrontos. No Paraná, 11 policiais tiraram suas vidas”. Os números estão no 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Problemas psicológicos e psiquiátricos são responsáveis por 23% dos afastamentos de policiais praças da Policia Militar, disse o deputado ao destacar a defasagem entre o aumento do efetivo da corporação e a estagnação das contratações de profissionais da psicologia. “Há apenas dez psicólogos para atender quase 23 mil policiais na ativa e 20 mil na reserva”, relatou.

Goura critica a ausência de um quadro de estruturação de um quadro de psicólogos especialistas no serviço militar, além de não constarem no quadro da corporação terapeutas ocupacionais e psiquiatras. “Cortes de direitos trabalhistas, falta de reajuste salarial, efetivo nas ruas e adequação da carga horária de trabalho”, também foram listados como agravantes entre os militares.

De acordo com o propositor da audiência pública, é preciso estabelecer 40 horas semanais para a jornada dos militares. “Bombeiros, que fazem parte do quadro, estão atuando até mais de 50 horas por semana, atendendo em pronto-socorro e no SIATE. É importante que seja regulamentado e avance na Assembleia. É um trabalho estressante e nós temos que ter esta sensibilidade”, falou.

Presente no encontro, o deputado Delegado Recalcatti, que atuou por 40 anos na Polícia Civil, disse que a carga emocional envolvida nas ações é muito forte. “Eu sei o que um policial enfrenta em seu dia a dia no trabalho e o que ele leva disso para sua casa. Tínhamos no Paraná uma lei que tratava da saúde mental dos policiais, mas a Procuradoria Geral do Estado entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra ela e hoje não temos mais nada que proteja estes profissionais”, explicou.

“O policial lida com a morte, o roubo, o tráfico e por vezes tem seus familiares assassinados e isso afeta profundamente seu emocional”, observou Recalcatti.

Para o Soldado Fruet, os policiais militares trabalham em estado de alerta constante, com medo de morrer em confronto, em matar ou prender inocentes. “O medo de errar é o que o soldado leva para a rua”, explicou. A falta de motivação também foi relatada pelo parlamentar, que atuou na ROCAN na região de Foz do Iguaçu. “Muitos entram no alcoolismo e outros tiram as próprias vidas. Muitos se separaram de suas famílias por um conjunto de situações que forçam estas separações. Muitos não conseguem assimilar”, afirmou.

SOBRECARGA DA CATEGORIA

Orlando Zaccone, delegado da Policia Civil do Rio de Janeiro, falou dos servidores da segurança no estado fluminense. Para ele, é preciso enfrentar a questão de forma reativa, com hospitais próprios e mais servidores para a área de saúde especifica. “As políticas de segurança não são definidas pelos policiais, são impostas e colocam os profissionais nesta grave situação”, apontou. Zaccone citou o Anuário de Segurança Pública: “Em 2018 foram 343 policiais civis e miliares assassinados fora de serviço. Mas o policial nunca está fora do serviço, ele tem o dever de agir, mesmo de folga”, explicou, cobrando atenção à sobrecarga da categoria.

A Major Cristina Muzeka, ex-diretora de Saúde e chefe do Centro Terapêutico da Polícia Militar do Paraná, disse que o stress na corporação é alto. “Este tema traz mal estar e espanto porque a doença mental é considerada perigosa e estas pessoas são tratadas de forma cruel. A saúde mental é multifatorial, assim como o tratamento deve ser, com psicoterapia, psiquiatria, medicina clinica, terapia ocupacional e espiritualidade, porque é o tratamento do ser humano”, afirmou.

Petruska Sviercoski, diretora jurídica do Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sidarspen), falou do problema na categoria. “Temos cerca de 50% dos agentes tomando remédios de uso continuo e 80% destes usam por doenças de origem psicossocial. Eles convivem diariamente em um ambiente hostil, violento, sob ameaças, com falta de estrutura e poucos servidores, com desgaste físico e mental da tensão do trabalho. Grande parte não procura ajuda, chegam ao suicídio por não ter amparo, principalmente do Estado, que não tem políticas para reduzir os danos do trabalho no cárcere”, frisou. (Fonte: agência de notícias da Alep)

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal