Ordem no galinheiro

Pedro Ribeiro


 

Um amigo, com raízes interioranas, assim como eu, me enviou este artigo, com cheiro e gosto de saborosa crônica, que não resisti e pedi autorização para publicar. Isto porque me remonta à infância em Alto Paraná e retrata  filme que já assisti por várias vezes.

 

Dizem que em galinheiro que tem galinha choca galo que manda no recinto se confunde e troca de fuso, por isso de vez em quanto canta de madrugada antes mesmo de raiar o dia. Toda vez que a galinha cacareja aninhando para chocar os ovos, galo que é bom sai de perto,  mas canta de vez em quando para lembrar que o galinheiro tem dono. Por isso às vezes destrambelha e canta no meio da madrugada.

Pode ser apenas lenda, crendice do folclore popular, mas tenho um amigo que veio do interior que jura ser a mais pura verdade, que isso acontece mesmo, só quem mora nos centros urbanos é que desconhece. A não ser em algumas casas em bairro afastadas das cidades, que tenham grandes quintas e o morador  que migrou cultive antigos hábitos e tenha seu galinheiro instalado aos fundos. Mas, precavido e escaldado, só cria galinhas poedeiras, chocadeiras só quando quer importunar algum vizinho.

O mais engraçado, relata este amigo, é quando amanhece o dia e as galinhas deixam do galinheiro e o galo abandonado  solitário num canto,, permanece imóvel e amuado. Ele sai sempre por último, cansado  com cara de sonâmbulo. Quando se atreve cantar para não perder a pose e a compostura, quem o ouve sente pena, literalmente, parece um sopro entrecortado. É puro vexame!

– Já não levanta nem a crista! – exagera este amigo em esforço onomatopeico de um canto aranhado, de taquara lascada, parece que está se engasgando.

Não sei porque motivo tento associar a esdrúxula e fantasiosa estória que desde o princípio ele me conta a um cenário da vida real, de momentos ou situações onde ela se encaixe, talvez seja hábito, vício de jornalista em querer encontrar nexo em tudo, coisa que não se desfaz depois de mais de 40 anos de profissão. Tento encaixar a estória como metáfora, de uma fase passada, de uma quadra pessoal, social, religiosa, exagero na busca e me dou por fim satisfeito.

Acho que a estória das penosas se enquadra bem no que aconteceu com o mundo político brasileiro no período uma década.

Alguém discorda?

Feliz Ano Novo a todos!

Com ordem no galinheiro!

 

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal