Os herdeiros trapaceiros do Brasil

Pedro Ribeiro


Como este ano foi uma espécie de prova de fogo para a discussão em busca de um novo Brasil, onde experimentamos um processo eleitoral conturbado, inclusive com tentativa de assassinato do então candidato à Presidência da República e presidente eleito, uma grande reviravolta no judiciário, com prisão de Lula e dezenas de empresários e políticos tendo que responder por atos ilícitos perante a lei, além das trapalhadas do Supremo Tribunal Federal,  tento colocar aqui um pouco da história política recente do nosso país para um breve exercício de cidadania e análise do que teremos no futuro.

 

Há exemplos na História recente brasileira, no trânsito do século passado com o atual, em que determinadas lideranças políticas se afastaram da vida pública ou por ela foram aposentadas, sem que perdessem a dignidade e a grandeza. Poderia se discordar da forma como interpretavam o exercício do poder, das visões que tinham sobre o Estado Brasileiro, das suas convicções ou posicionamentos ideológicos.

Faziam política por vocação e não por interesses pessoais, tinham todos convicção de utilidade para o País e eram reconhecidos por isso, pela noção de responsabilidade e respeito aos eleitores que neles confiavam e se sentiam representados.

São figuras com portes de estadistas que,aos poucos ,foram nos deixando pela inexorabilidade do ciclo da vida, ou por outros motivos, alguns trágicos, outros por desilusão, de doenças ou por outra razão qualquer. E na medida em que se consumaram, os anos e as décadas que se seguiram não se encarregaram de fazer a devida reposição que, paradoxalmente, se esperava para um País em pleno e amplo exercício da Democracia.

Uma época em que debates e discussões políticas eram aguardados. seriam aflorados e deles se esperava que gerasse lideranças novas, no mínimo do mesmo naipe.
Que desilusão!

Trampa que nos preparou o destino, com raríssimas exceções.

Antes tínhamos Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas, Franco Montoro, Pedro Simon, Paulo Brossard, Miguel Arraes, Marco Maciel, Waldir Pires e muitos outros. E no Congresso Nacional um naipe, ainda que pequeno, de excelências parlamentares que dava voz às duas Casas, fazia sentir o País pulsar na busca de novos caminhos.

No Paraná do século passado, figuras como Bento Munhoz da Rocha, Ney Aminthas de Barros Braga, Jaime Canet e até mesmo José Richa, cujo nome ficou imerecidamente nodoado pelos filhos, um deles governador, cuja honra se busca agora nas sombras e escaninhos de escabrosas denúncias de corrupção.

A democracia brasileira nos logrou a todos nos anos que se seguiram, e que nos alcançam hoje, uma plêiade de rufiões de norte a sul, políticos sem qualquer vestígio de estadistas, gente que apenas vê e viram o Estado como generoso ente patrimonialista. Percorreram e percorrem o caminho da política descompromissados com necessária honestidade de propósitos, a não ser atender a seus próprios interesses ou de grupos empresariais que lhes poderiam ou podem ser úteis, aparentados consanguíneos, distantes ou não.

No âmbito federal, talvez apenas Itamar Franco e, com sofismas sociológicos também FHC, pode- se atribuir a percepção da pertinência e responsabilidade do cargo, com maior probidade no primeiro caso, e mais narcisismo no segundo.

Mas, com defeitos inerentes à condição humana, serviram mais do que se serviram.

Quanto aos outros, a História fala por si, de Sarney a Collor (cassado), de Lula (preso) a Dilma ( cassada) até chegar a Michel Temer, que dispensa considerações maiores, talvez apenas com.o acréscimo de registro policial em sua futura biografia para compor a mesma lista. Aécio Neves nem conta; foi apenas mais um, quase esteve lá, mas faz parte do prontuário dos abates clandestinos, o dele próprio, da JBS.

Bolsonaro e apenas acidente neste percurso nesta saga mas só o tempo vai dizer qual seu verdadeiro seu lugar na História. E se conseguir manter ao menos o comando que o Exército lhe ensinou de capitão na hierarquia e por estar abençoadamente vivo, com poder para disciplinar e conter a tropa em sua familiar, cujos comportamentos dos filhos já se revela e inspira cuidados. Semelhante ao o destino reservou à terra dos pinheirais, cuja referência ética paterna a vida não poupou para orientar o rebento.

Talvez o Brasil esteja em um momento de renascimento, de deixar de olhar apenas para onde as luzes da ribalta estejam superficialmente acesas, tornando vistosas figuras que despontam por causa de um patrimônio eleitoral, e apenas e tão somente por isso. E talvez encontre nas coxias, longe de luzes, onde não se encontrem as grandes vitrines, e mesmo sem o carisma dos atores do passado, ainda sem a desenvoltura ou a capacidade de se fazerem perceber estadistas, os nomes que o País precisa para inaugurar uma nova era.

Uma era em que não seja preciso encantar multidões, se fazer querido ou com a capacidade de inflamar ânimos ou emoções, mas que o o governante tenha o essencial, tudo o que o país mais precisa : honestidade de propósitos, compromisso com a ética e a verdade e, que acima de tudo, ele tenha respeito pela cidadania e reconheça que o povo brasileiro já anda por demais sofrido e castigado pelo descaso e abandono.

Ser reconhecido e valorizado, isso é tudo que o brasileiro quer.
Sem que lhe surrupiem a autoestima e o suado dinheiro dos impostos que pagam.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal