Previdência e a conta que você vai pagar

Pedro Ribeiro


Imagine que você trabalhe um dia inteiro e um conhecido seu faça seu turno de trabalho em pouco mais ou pouco menos que meio expediente. Com a recompensa pelo esforço de seu trabalho, você vai ao comércio do bairro para comprar mantimentos e passar seu final de semana sossegado com a família. Chegando lá, você constata que a recompensa de seu trabalho só pode comprar volume limitado de mercadorias, enquanto seu conhecido tem direito a levar 10 vezes mais produtos, apesar de ter trabalhado apenas meio período.

Tudo isso porque seu conhecido trabalhou em meio expediente fazendo tarefas e favores ao dono da venda. Então, absurdamente você precisa voltar ao trabalho por mais alguns dias para poder ter direito a fazer novas compras, e também garantir ao seu conhecido que ele permaneça ocioso, adquirindo a mesma quantidade de mercadorias de sempre.

Você pode sapatear, protestar, achar injusto, como de fato é. Mas não tem saída, no final você é quem vai acabar pagando a conta. A sua e a dele, parece não há outra alternativa se você quiser que a pequena venda de seu bairro continue funcionando e oferecendo as mercadorias para seus próximos finais de semana ou quando for a vez de seus filhos fazerem o
mesmo.

É mais ou menos isso, com evidente exagero caricatural da metáfora empregada, de que se trata essa questão confusa e de complexo entendimento que é a Reforma da Previdência, necessária para que o Pais – ou à venda – não entre em colapso e vá a falência. Como aconteceu com a Grécia, por exemplo.

Não haverá outra saída para a solução do déficit previdenciário sem que se aumente os anos de contribuição do trabalhador, isso já parece favas contadas. O que é injusto, e aí é que está o nó da questão, é que os trabalhadores brasileiros tenham que se dedicar a mais alguns anos de trabalho antes da merecida aposentadoria, sem que se resolva antes essa escandalosa e criminosa distorção que existe com os conhecidos donos da venda, que são a casta de funcionários públicos.

Eles sim se aposentam com menos tempo de trabalho e com polpudas aposentadorias.

São eles hoje que batem bumbos e protestam por se sentirem ameaçados em seu privilégios bancados pela imensa maioria da população e que estão levando a Previdência para o colapso, com rombo de 268 bilhões de reais somente no ano passado, um déficit que só atende a aumentar.

Enquanto um trabalhador só consegue se aposentar aos 65 anos, no caso dos homens, e que agora se pensa em elevar essa idade, esses privilegiados do funcionalismo penduram as chuteiras na faixa dos seus 50 anos, dependendo do setor em que trabalham. E vão continuar ganhando aposentadorias- ou pensões no caso das famílias em eventual óbito – com sagrado depósitos em conta debochadamente acima dos mortais brasileiros.

Para se ter uma ideia dessa distorção escabrosa e criminosa que hoje existe e que é a principal responsável pelo estrondoso déficit no Sistema Previdenciário do País, é só prestar atenção em apenas um único dado oficial.

O que a Previdência Social do país gasta hoje para pagar aposentadorias e pensões para um universo de apenas 1 ( um ) milhão de servidores públicos do quadro de inativos, que é ainda maior, equivale ao mesmo volume de recursos que se gasta para bancar as aposentadorias e pensões de um universo de 30 milhões que se aposentam pela iniciativa privada recebendo seus minguados proventos.

Esse simples dado, expõe de maneira clara e incontestável a política de privilégios de uma casta social que parece pairar acima de todos os demais brasileiros que, ao que tudo indica, vão acabar se aposentando quando estiverem perto da morte.

Quando Otto Von Bismark Schonnhausen, o Chanceler de Ferro da Alemanha, criou o primeiro sistema previdenciário de estado, no século XIX, logo após Primeira Revolução Industrial, o trabalhador se aposentava aos 40 anos, no limite da expectativa média de vida dos operários de seu país. Em pouco tempo, os trabalhadores faleciam porque não havia os avanços da medicina como se tem hoje, de tal modo que o sistema previdenciário alemão se tornou superavitário, deu lucro, ao contrário do que acontece no Brasil.

A reforma da previdência, como se pensou antes, com elevação da idade para 70 anos, no caso dos homens, seria apenas uma repetição do que o chanceler Bismarck matreiramente fez na Alemanha. E, sinceramente, não deixa de haver uma forte suspeição sobre a estatística do IBGE que coloca a expectativa do brasileiro hoje em 75,8 anos, sendo que o próprio orgão anunciou há poucos dias que o País tem mais de 50 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza.

O sistema Previdenciário brasileiro pode sim funcionar sem déficit, desde que acabe de vez com as mordomias e os privilégios, sem fazer com que, servidores públicos, sejam a faixa de alguns poucos brasileiros mais brasileiros que outros. É preciso dar limites a essa estrutura de servidores vorazes e patrimonialistas das riquezas e do estado Brasileiro.

Se não for assim, tudo o que se fizer será apenas engodo, crônica perversa de um criminoso descaso.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal