Quando a morte, embora lamentável, serve de um bom pretexto

Pedro Ribeiro


 

Escrúpulos? Ora, para que escrúpulos? Para que serve esse sentimento pequeno burguês diante de uma oportunidade única para potencializar um proselitismo político e ideológico e tentar cada vez mais transformar seu líder em vítima de um sistema judicial, um perseguido político hoje preso? O que importa se a oportunidade se apresenta na forma de um cadáver, ele é apenas mais um na estatística, melhor ainda pelo fato de ser irmão do grande guru, impedido de participar de seu sepultamento porque não o liberaram das celas para as pompas fúnebres? É preciso denunciar essa ato de desumanidade, a luta continua!

Essa orda não respeita os sentimentos que estejam fora de seus escopos, e  usam o cinicamente o cadáver de Vavá, o irmão do ex-presidente preso como pretexto para que sejam soados os bumbos. Condenam a primeira decisão da juíza, depois referendada pela 4² Vara da Justiça Federal que impediu Lula de ir ao enterro do irmão. Somente Dias Tófofli, o ministro do STF nomeado por Lula, o liberou, ainda assim com restrições e já tardiamente, frustrando em parte os planos de seus antigos companheiros.

Lula não é um preso comum. É um líder de massa, carismático, o maior da história brasileira, envolvido em uma gama que ainda não se conhece de todo em corrupção quando ocupou o mais alto cargo da República. Sua presença no velório ou sepultamento do irmão, ainda que isso pudesse ter acontecido com ressalvas e salvaguardas, poderia gerar onda de manifestação fora de controle e imprevisível.

Era esse o pano de fundo que escondiam enquanto falavam em ato de desumanidade. Era tudo o que eles queriam. Estaria sendo criado um clima de conflito com consequências imprevisíveis, jamais poderiam recolher Lula de volta a sua cela sem que houvesse confrontos com  as ordas de fanáticos. Lula já deu esta demonstração antes, quando se acoitou no sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em abril do ano passado, em ato de resistência à sua prisão. Por que motivos não agiriam dessa forma novamente? Com toda a imprensa nacional e internacional voltadas ao espetáculo que pretendiam armar.

A juiz que recusou a liberação de Lula para participar do enterro de Vavá, deve ser uma mulher bem informada e de leitura, provavelmente lhe tenha passado pela cabeça a fábula do sapo e do escorpião. Aquela em que o escorpião pede ajuda ao sapo para atravessar o rio de carona sobre suas costas, prometendo que não o mataria com seu ferrão. Quase estão chegando à outra margem do rio, o escorpião solta seu ferrão e o sapo já quase inconsciente com o veneno do escorpião, pergunta a ele porque motivo agiu daquela maneira.

– Porque esta é a minha natureza – responde singelamente o escorpião.

Precisa dizer mais!

 

 

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Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal
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