Redução de municípios, a pedra no sapato dos candidatos a deputados

Pedro Ribeiro


 

Tão logo o governo federal lançou a pegadinha – para ver se colava – que previa a redução e ou incorporação do número de municípios no país, hoje com perto de 5.600, para diminuir os gastos públicos, a maioria dos deputados estaduais saíram se acotovelando nos corredores das assembleias estaduais em busca de subsídios para pressionar o governo e derrubar a iniciativa. Não apenas porque esta redução ou incorporação diminuiria as despesas da União, mas afetaria, em muito, as bases dos parlamentares que teriam que disputar literalmente a tapa os votos de eleitores vizinhos, ou do concorrente. A coisa está em banho-maria.

No Paraná, o deputado Luiz Cláudio Romanelli (PSB), não se acomodou e acaba de ter aprovado pelos seus parceiros na casa, requerimento para realizar, no dia 4 de fevereiro de 2020, uma audiência para debater a PEC do Pacto Federativo que prevê a incorporação à municípios vizinhos de cidades com até 5 mil habitantes.

O deputado paranaense faz questão de afirmar que não é contra a proposta – de extinção dos municípios – e divulgou um estudo da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) que aponta a perda de R$ 682 milhões em recursos ao Paraná e que 100 cidades estão ameaçadas caso a PEC seja aprovada no Congresso Nacional conforme proposta pelo governo federal.

INDÚSTRIA DE MUNICÍPIOS

Romanelli deve ter estudado, também, o relatório apresentado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ao presidente Jair Bolsonaro que defendeu essa redução por entender que existem cidades que não tem dinheiro próprio suficiente nem para pagar o salário do prefeito. “Lá atrás teve uma indústria de criação de municípios”, fulminou Bolsonaro.

Sobre o argumento de que extinção ou anexação de 22% dos municípios brasileiros poderia trazer diminuição dos gastos da máquina pública, os dados mostram que a economia estimada com despesa administrativa e legislativa é de cerca de R$ 4 bilhões ao ano. “Definitivamente, a extinção de Municípios não é a melhor solução, pois trará enormes problemas para a população e para os gestores. Essa economia não justifica os impactos que a medida trará aos cidadãos dessas localidades”, afirma Glademir Aroldi, presidente da Confederação Nacional dos Municípios.

Para Romanelli, um dos mais interessados na questão, “o pacto federativo tem que prever a descentralização dos recursos concentrados na União e que devem atender, com maior eficiência, as cidades brasileiras”. Com esta resposta ao Governo Federal, o parlamentar paranaense observa que “prefeitos das pequenas cidades estão muito preocupados com essa PEC. Qualidade de vida não se mede pelo número de moradores e muito menos com a capacidade de arrecadação própria de cada município”, destaca Romanelli.

PERDA DE ARRECADAÇÕES

O deputado foi fundo em suas buscas. Segundo ele, estudo da Confederação Nacional dos Municíupios (CNM) que mostra a perda de arrecadação dos 1.820 municípios (tanto os que podem ser extintos quanto os que vão agregá-los) afetados pela PEC do Pacto Federativo pode chegar a R$ 7 bilhões. No Paraná, esse montante chega a R$ 682 milhões e é a quarta maior perda de arrecadação, através apenas de Minas Gerais (R$ 1,4 bilhão), Rio Grande do Sul (R$ 1 bilhão) e São Paulo (R$ 963,3 milhões).

Observa ainda o parlamentar que pelo estudo da CNM, não só os 1.217 municípios que serão extintos perderão receita como também as 702 cidades que os incorporarão. Pela proposta, serão extintos os municípios com menos de 5 mil habitantes e arrecadação própria menor de 10% da sua receita total. No Paraná, 25% dos municípios deixaram de existir e o impacto vai atingir 350.072 moradores das cidades.

Hoje, a arrecadação do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) dos municípios afetados é de R$ 25,1 bilhões, valor que pode cair para R$ 18,05 bilhões depois da fusão. “A PEC desconsidera que a dependência dos governos locais, em relação às transferências da União e dos Estados, é resultado do modelo constitucional de repartição de competências, em que o município tributa apenas imóveis urbanos e serviços”, diz Romanelli ainda sobre o estudo.

“O novo pacto federativo tem que transferir competências e recursos aos estados e municípios. A essência é descentralização gerencial-administrativa do Estado. Temos que rediscutir a distribuição dos recursos arrecadados pelos impostos e contribuições. Nossa estrutura federativa transfere a maioria de suas receitas fiscais para a União, um erro que não deve ter continuidade”, defende Romanelli.  

MUNICÍPIOS RURAIS

Os dados do estudo, adianta Romanelli, elucidam que a maioria dos municípios pequenos é rural e/ou dependente do agronegócio e possui baixa capacidade de arrecadar impostos, independentemente do nível de eficiência dos gestores. Contudo, a Confederação questiona o fato de a proposta não simular os efeitos que a extinção dessas cidades produzirá sobre a repartição de receitas, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), e nem verificar a viabilidade prática.

Perderão receita de FPM, não somente os 1.217 Municípios a serem extintos, mas também as 702 cidades que os incorporarão”, mostra o estudo. Além disso, a emenda prevê que todas as cidades com menos de cinco mil habitantes e menos de 10% de sua receita proveniente de arrecadação própria sejam incorporados ao seu vizinho de maior índice de sustentabilidade fiscal. Ao mesmo tempo, nenhuma dessas cidades-mãe poderá incorporar mais de três municípios. “Tais condições não podem ser obedecidas, simultaneamente, por cerca de 20% dos casos de fusões”, aponta.

A CNM acredita que o fundamental é regular as relações entre as três esferas do governo, ou seja, definir competências de cada Ente e os recursos destinados a atendê-las. Na contramão, a proposta promove perda de até 50% na arrecadação dos municípios fundidos, considerando o que cada um recebe de FPM, separadamente. Algumas localidades terão também algum tipo de subfinanciamento dos serviços, uma vez que as cidades que irão incorporar as novas receberão aumento de receita, via FPM, proporcionalmente menor do que o aumento da sua população.

O estudo apresenta diversos exemplos do impacto da proposta, e mostra a enorme mudança que pode ocorrer no interior do país, se a PEC for aprovada sem ajustes do texto. Além de perdas financeiras, a CNM aponta também prejuízos sociais e culturais às localidades afetadas pela proposição. A partir de quatro indicadores – finanças públicas, educação, saúde e socioeconômico –, o mapeamento analisa o padrão e a qualidade de vida dessas cidades.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal