Renan desiste mas o país não está livre da vergonha

Pedro Ribeiro

 

 

Não há como deixar de sentir vergonha de ser brasileiro diante da pantomina circense e grotesca da sessão de votação para a escolha do próximo presidente do Congresso Nacional. Além do desfile de canastrões e rufiões da cidadania, suspeitos e réus em processos de rapinagem do tesouro público e dos impostos pagos pelos brasileiros, somos obrigados a conviver com a mais rasa honestidade de propósitos e de sentimento com os verdadeiros interesses do País.

O Congresso Nacional por si só já é um espetáculo deprimente e melancólico na grande maioria de sua composição e como se isso não bastasse, não se furta em expor o País à vergonha constrangida da nossa nacionalidade.


Já no início, a sessão de escolha de seu presidente, em meio a bate-bocas desses que se assemelham aos que acontecem entre bêbados de botequins e pardieiros de beira da estrada, serviu para demonstrar de que material se constituem as índoles de muitos dos senadores presentes. Dentre eles, o principal candidato, senador Renan Calheiros, reencarnação contemporânea do jaguncismo mais sórdido e abjeto já produzido no País, espécie de chefe de quadrilha dos que assaltam o País. No dia anterior, na primeira tentativa de votação, adiada por xingamentos e ameaças de confrontos físicos entre alguns desses bandidos que se protegem com investidura de um cargo nacional de representação, já dava para perceber a que ponto de degradação moral chegou o Congresso Nacional.

Os destinos do País é o que pouco importa para essa malta que se agrupa apenas para defender seus interesses particulares e privados, em uma disputada canibalesca por cargos, prebendas e benefícios que não se furtam de colocar na conta da nação brasileira. A própria sessão de ontem, por ter sido realizada em um sábado, já representa para eles um ganho adicional em seus vencimentos, por se tratar de sessão extra, e não há instituição no país que possa evitar também esse escárnio, porque eles governam em causa própria e com autonomia para fazê-lo.

Basta!

Chega a um ponto em que a desesperança do povo e o pouco caso que estes senhores fazem do sofrido povo brasileiro não pode continuar prosseguindo impunemente, é preciso que essa turba tenha o mínimo de dignidade para perceber os danos que causam ao País. Ou chegar a um ponto extremado de degradação da instituição em que a credibilidade e a razão de ser da instituição deixe de fazer sentido, comprometendo a democracia conquistada a duras penas e hoje já questionada por muitos setores da sociedade.

O Brasil não pode pagar esse preço pela inconsequência, irresponsabilidade, desonestidade de propósitos e ausência de compromisso com os verdadeiros interesses que importam, por causa de um grupo de malfeitores que se protegem e se fazem representar como membros do Congresso Nacional.

A desistência da candidatura à presidência da Casa, dessa excrecência chamada Renan Calheiros, um pária marcado por vários processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal por atos mais variados de corrupção, pode ser neste momento um fato alentador para os rumos do Congresso Nacional. Mas o sentimento corporativo da Casa, ainda marcado pela cultura de apropriação do País, de patrimonialismo e de usurpação de muitos de seus membros, não significa que o País estará livre de continuar sendo o que sempre foi. Que os novos senadores eleitos em outubro do ano passado possam arejar e oxigenar o Congresso Nacional de forma a não permitir que ele prossiga nessa vereda do descaso com o sentimento genuíno da nação.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.