Sintonia Fina - Pedro Ribeiro
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Sistema S, mais uma vaca sagrada brasileira

 Quando oficialmente mexer no cobiçado “Sistema S”, como prometeu, o ministro da Economia, Paulo Guedes, est..

Pedro Ribeiro - 04 de janeiro de 2019, 09:01

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP. 17.11.2015: Possível ministro da Economia do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), Paulo Guedes. (Foto: Claudio Belli/Valor/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP. 17.11.2015: Possível ministro da Economia do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), Paulo Guedes. (Foto: Claudio Belli/Valor/Folhapress)

 

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Quando oficialmente mexer no cobiçado “Sistema S”, como prometeu, o ministro da Economia, Paulo Guedes, estará cutucando um vespeiro que se espalhará pelo país como praga de gafanhotos. Protegido sob o manto da classe empresarial, dita produtiva, que alega ser dinheiro de contribuição dos empresários, esses recursos, oriundos de contribuição fiscal, das empresas ao governo, tem uma parte que é repassada para as entidades patronais e distribuída ao Sistema S. São, no total, R$ 16,4 bilhões.

Aí é que entra o governo:

Com faca afiada na mão, Guedes quer cortar entre 30% a 50% do repasse do governo. Dados do governo mostram que grande parte dos recursos repassados acaba financiando congressos empresariais, institutos, publicações, banquetes, viagens, lobbies, distribuição de benesses a políticos, além de pagamento de palestras para jornalistas e economistas para a difusão de teses e projetos de interesse apenas do empresariado e não para o conjunto da sociedade.

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O chamado Sistema S é o conjunto de instituições corporativas voltadas a treinamento profissional, pesquisa e assistência técnica e social. Ao todo, são nove instituições (todas iniciadas com S -daí o nome), estabelecidas pela Constituição Federal, nas áreas da indústria, comércio, agronegócio e cooperativismo.

Cada órgão de serviço tem seu nicho e objetivo. Dois tratam da indústria: o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), mais antigo deles, voltado à qualificação de mão de obra, e o Sesi (Serviço Social da Indústria), voltado ao aperfeiçoamento do ambiente de trabalho. Também há dois para o comércio: o Senac e Sesc.

Atualmente, o imposto pago pelas empresas ao “Sistema S” soma nada menos que 5,80% do total dos salários pagos no país. Quando Guedes ameaçou encaminhar um pacote fiscal ao Congresso Nacional com cortes nos repasses do Sistema S, as reações foram duras, como disse Paulo Skaf, presidente da Fiesp: “Se o governo encaminhar a proposta de corte, estaremos prontos para a guerra no Congresso Nacional. Não vamos permitir que o governo feche escolas ou deixe de dar oportunidade a milhões de alunos em escolas de qualidade na formação profissional, na prática de esporte e na cultura. Não acredito que essa intenção irá prosperar”.

Vejam os números do Sistema S:

 

- SESC R$ 4 bilhões e 890 milhões;

- SEBRAE R$ 3 bilhões e 296 milhões;

- SENAC R$ 2 bilhões e 738 milhões;

- SESI R$ 2 bilhões 87 milhões;

- SENAI R$ 1 bilhão e 464 milhões;

- SENAR R$ 829 milhões;

- SEST R$ 498 milhões;

- SESCOOP R$ 353 milhões;

- SENAT R$ 313 milhões.

 

Total R$ 16.470 bilhões

Apesar da enorme arrecadação do “Sistema S”, a produtividade da mão-de-obra brasileira continua muito ruim.  Sinal de que o dito “aperfeiçoamento profissional” não tem funcionado a contento. Segundo dados do próprio governo, em 2012 a produtividade do trabalhador brasileiro foi de 26,2% da produtividade do trabalhador americano, enquanto a dos argentinos foi de 35,5% e dos mexicanos 34,4%.

Segundo o senador Ataídes Oliveira, as contribuições deveriam ser revertidas, em sua totalidade, em benefício do trabalhador, na forma de cursos gratuitos e atividades que visassem ao aperfeiçoamento profissional, mas o que se vê não é exatamente isso.  A maior parte dos recursos é paga, enquanto a maioria dos cursos gratuitos está sendo ministrada à distância, o que obviamente os torna menos onerosos para a instituição.

Esse extraordinário valor, repassado pela Receita Federal abriu o sorriso dos presidentes das confederações e federações estaduais que acabaram, também, sendo os presidentes do Sistema S em seus estados e muitos deles estão no poder há mais de oito anos.

 

Alguém tem dúvidas de que este é um negócio bilionário ou uma vaca sagrada