Tempos de vergonha alheia, o fim do jornalismo e só falta eu ver, também, Jesus trepando no pé da goiabeira

Pedro Ribeiro

 

Bato no peito e faço mea culpa. Com 40 anos de profissão, vejo o jornalismo indo para o brejo, informando só o que lhe convém, defendendo ideologias cruéis e não servindo à sociedade, como deveria ser o seu papel. O que observo e lamento são redações saqueadas por jornalistas e ditos formadores de opinião dispostos a tratar meias verdades como realidade e como se meias verdades existissem na realidade. Há uma descaracterização gritante, onde a maioria agride fatos e se pautam em omissões, ideologias e má-fé, entre outros. Neste naufrágio, salva-se destacadas exceções. Como faço parte da velha mídia também a vejo de olhos e ouvidos fechados, deixando o leitor sem a precisa informação e forçando-o a buscar conhecimentos na internet ou no jornalismo de internet, o que é pior. Insisto em afirmar que, para mim, o que mudou não foi a imprensa, mas os jornalistas engajados que tomaram conta das redações, pretensiosamente politizados e que, na verdade, não passam de tendenciosos, corporativos e profundamente despreparados para o exercício da função profissional.


Não me recordo nestes anos todos da árdua labuta de jornalista, na busca de informações verdadeiras, checadas e confirmadas, de um momento de ceticismo e de desconfiança com a imprensa brasileira. Sou do tempo do jornalismo jurássico, que ainda preservo por formação, da imparcialidade e distanciamento de juízo de valores sobre fatos, porque na minha escola de profissão, isso cabe exclusivamente ao leitor.

Mas como articulista, conquistei esse espaço que assino e respondo pelas opiniões que expresso, para manifestar também que, em nenhuma quadra da minha atividade profissional me deparei com a sensação do lastimável estado de degradação que vivemos hoje em relação ao respeito às instituições de poder e aos rituais de cargos que honram qualquer República.


Nem mesmo o arbitrário exercício de poder do período dos regimes militares que conduziram o Pais pós 64, ousou desmerecer a inteligência popular e o senso comum. Havia respeito e ritual aos cargos de representação de poder da Nação brasileira, ainda que  em todos os demais e já conhecidos aspectos fosse nos suprimido direitos, como o da manifestação de opinião, como faço agora.


A imprensa hoje, de modo geral, permanece contaminada pelo denuncismo a qualquer custo, vive um jornalismo pretensamente investigativo, mas, ainda que ele seja necessário, secundou questões importantes de interesse real da população. Mediocrizou opiniões e relegou a critica e a resistência à escolha de pessoas sem qualificação para assumir postos de representação federativa. No máximo, o tema é tratado com deboche, como caricatura.


Não é admissível na razão simples que um ministro de Relações Exteriores ignore estudos científicos e diga que o efeito estufa é dogma e invenção marxista, coisa de comunista, ainda que haja exageros. Não é admissível que uma ministra, professe ela a religião ou a seita que quiser, diga que, em sua febre devota viu Jesus trepado em um pé de goiaba e que essa é a razão de sua verdade. E por ai afora…


Manifestações como essas beiram ao escárnio, nos colocam na berlinda da chacota, imbecilizam por extensão a todos nós, passivos servos de asneiras e loucuras de quem pretensamente vai nos representar. Isso tem sido recorrente depois da eleição de Collor, com declarações de certos ministros de então, de que cachorro também era ser humano, coisa imexível do seu conceito. E seguiu nesse diapasão até ao mais alto cargo da República, quando a alta mandatária pensava que estocar vento era tecnologia de ponta.

Podem ser apenas digressões que faço, mas nunca me senti com tanta vergonha alheia. E, o que é pior, por gente que nos representa. E por uma imprensa omissa na representação do razoável, do mínimo do papel e da missão a que deveria se propor.
Ou alguém pode informar sobre o que pensa o novo governo que vai assumir, sobre o que ele fará para reduzir os abusivos juros do cheque especial, cartões de crédito, empréstimos…


Ou como e o onde vai direcionar empregos com investimentos públicos e privados para reduzir a taxa de desemprego hoje em mais de 13 milhões de pessoas, tendo déficit fiscal estimado em R$ 259 bilhões em 2019? E tantos outros temas como, por exemplo,

a vergonha das filas em hospitais públicos, com gente morrendo sem atendimento e mulher dando à luz em pleno corredor da enfermaria sem qualquer assistência médica?


Mas o que prevalece, ainda que com certa razão, é a notícia de que a ministra viu Jesus trepado numa goiabeira.


Dá para ter vergonha, ou não?

 

Post anteriorPróximo post
Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro é jornalista com passagens pela Gazeta do Povo, Folha de Londrina e O Estado do Paraná. Foi pioneiro com a criação do jornal eletrônico Documento Reservado e editor da revista Documento Reservado. Escreveu três livros e atuou em várias assessorias, no governo e na iniciativa privada, e hoje é editor de política do Paraná Portal.
Comentários de Facebook