Um Ministério que só serve às mamatas de artistas “amigos”

Pedro Ribeiro


Um empresário amigo, indignado com manifestações de artistas em relação à perda da mamata do PT, me dizia: “quando eu for um político com assento no Congresso Nacional, seja na Câmara Federal ou no Senado, vou lutar com todas as forças para acabar com essa lei – Lei Rouanet – que beneficia apenas uma casta de artistas, sem qualquer critério, jogando dinheiro da União no lixo”.

Foi este mesmo empresário que me questionou:  “Você já viu ou ouviu falar nas ultimas décadas de alguma  manifestação oficial de comemoração e de promoção da memória nacional, de fatos históricos ou de  grandes expressões brasileiras no mundo das artes, em toda sua amplitude, que o fizesse conhecer ou relembrar o que o País tem como seu acervo de  identidade cultural?”.

E continuou – “Se você nunca viu ou ouviu, não fique constrangido, não precisa ficar encabulado ou envergonhado por causa disso.  Elas não aconteceram, simplesmente!      E, se alguma vez isso ocorreu nesses longos anos, já deve ter caído no esquecimento, foram casos  efêmeros e esporádicos, o que o exime da pecha de ser ignorante ou desinformado sobre a cultura de seu Pais”.

Tem razões esse empresário e parece que sua intenção está para acontecer.  Você pode duvidar ou estranhar. Mas existe no Brasil um Ministério da Cultura, que o novo governo agora  pretende extinguir e incorporar à  outra pasta. E só então você se dá conta que um Ministério de Cultura que se preze, em sua primeira e  de mais prioritária prioridade deveria preservar a memória cultural do País em todas as suas manifestações acontecidas e representantes da identidade brasileira. E isso inclui as que ocorrem moto-contínuo nesse nosso mundo contemporâneo.

Ministério de Cultura tem obrigação precípua de cuidar de memória de seu País. Povo que não tem memória, não tem História, não deixou suas digitais nos mapas das civilizações. Mas ao contrário de sua missão, fato real é que o Ministério da Cultura ao longo dos anos tem se revelado de incontestável inocuidade, estrutura néscia, devoradora de recursos, de poucos efeitos práticos, monumento de empreguismo e ultimamente também de suspeitas de corrupção.

Se alguém tem dúvida, se informe sobre o que acontece com a Lei Rouanet.

A classe artística brasileira – e não se iludam, não são muitos, embora façam parecer – bate bumbos porque quer um estado provedor, patriarcal, cartorial e generoso, e isso acontece em todos os segmentos, da música ao teatro, do cinema às artes plásticas e por aí segue. Sãos as mesmas pencas de medalhões que se beneficiam junto com seus grupos da fatia maior dos recursos que a uma estrutura com autonomia  ministerial oferece.

Eles reclamam agora da extinção do ministério para se transformar em diretoria ou departamento de outra pasta, onde o que se espera, possa haver efetivamente uma politica cultural do País, com mais controle e democratização na liberação de recursos. Mas não apenas isso, que também se inverta a mentalidade e  concepção patrimonialista do estado com a qual a classe artística está habituada,  se descentralize ações para os estados e as cidades, faça com que eles se adaptem a novos tempos.

A denominação  genérica de arte também cria suas zonas de sombras e ambiguidades, onde em seu nome também se produz quantidades exageradas de lixos culturais, cujos filtros muitas vezes se ignora por causa de uma estrutura centralizada, distante e sem controle, como em Brasília. Está na hora desses artistas deixarem a visão do Estado como um opulento provedor, como mecenas, e providenciarem também recursos de outras fontes para financiar seus projetos. Já seria o suficiente para reduzir a quantidade de entulhos com os quais se insinuam no mundo artístico. Alguém tem dúvida sobre isso?

Arte envolve todas as manifestações, do artesanato a pintura, das esculturas à criação literária, das manifestações folclóricas e musicais, e hábitos desse País continental que é o Brasil. E muito, muito mais, das tradições de costumes, ao  sincronismo religioso, para adicionar mais alguns exemplos.

Toda arte, como essência que não se desnatura,  causa impacto, gera polêmica, desperta sentimentos confusos e difusos, avança em padrões estéticos e de costumes, adentra territórios desconhecidos de padrões estabelecidos. Não fosse assim, pintores impressionistas, quase todos sem patrocínio do Estado Francês, não teriam sobrevivido ao Salão de Artes de Paris no século XIX para mencionar a apenas um exemplo.

Em vários países civilizados do mundo, com maior riqueza  histórica e cultural, não existe um Ministério da Cultura específico, estrutura única para área. Ele está integrado com outros ministérios, e nem por isso se produz menos cultura. Acontece na França, na Espanha, na Austrália, e também na Itália onde estão concentrados os mais importantes sítios históricos da humanidade, para citar apenas alguns exemplos. Mas, nestes países, ninguém reclama pelo fato de não haver um Ministério de Cultura específico. Já superaram a fase dos bumbos.

Deve ser por isso que somente artistas brasileiros ganham prêmios de reconhecimento internacional, do Nobel ao Politzer entre outros.

 

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal