Política
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Crowdfunding para campanhas eleitorais ainda tem resultados tímidos

Por Carolina GonçalvesCom pouco mais de um mês no ar, as plataformas criadas para captar doações voluntárias de e..

Agência Brasil - 25 de junho de 2018, 07:09

Foto: Geraldo Magela / Agência Senado
Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

Por Carolina Gonçalves

Com pouco mais de um mês no ar, as plataformas criadas para captar doações voluntárias de eleitores para campanhas políticas ainda apresentam resultados tímidos.

Parte da baixa adesão é atribuída ao pouco conhecimento dos candidatos sobre este tipo de mecanismo e porque ainda não foram oficializados os nomes que estarão na disputa eleitoral. Até a atenção dos brasileiros voltada para a Copa do Mundo é apontada como justificativa para os ainda baixos valores.

“São apenas quatro ou cinco entidades se destacando. É imprevisível , mas, talvez depois da Copa, com o início efetivo das campanhas, a arrecadação deslanche. É um mercado inicial ainda, e os partidos estão ainda definindo nomes”, avaliou Daniel Callirgos, CEO e fundador da Apoia.org, uma das empresas autorizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para fazer a captação.

O financiamento participativo ganhou força com a minirreforma eleitoral aprovada pelo Congresso Nacional, que proibiu a doação de empresas para candidatos. O TSE regulamentou a novidade, abrindo a possibilidade de os pré-candidatos lançarem páginas na internet para receber recursos de pessoas físicas.

Para participar, o cidadão usa uma dessas empresas cadastradas pela Justiça Eleitoral, que oferecem meios como boleto, cartão de crédito ou até mesmo a possibilidade de doar em dinheiro em espécie, com diferentes taxas cobradas pelos serviços

A empresa de Callirgos é uma das que têm reunido o maior número de doações voluntárias de pessoas físicas desde que o TSE autorizou a divulgação do financiamento coletivo de campanha, conhecido como crowdfunding eleitoral, no dia 15 de maio. Até o início da semana, a plataforma reunia 256 pré-candidatos e captação de R$ 416.957,65.

Baixa procura

Ao todo, 45 empresas já têm autorização do TSE para arrecadar, por meio do crowdfunding, recursos para financiamento coletivo de campanha. No entanto, nem todas deram início à arrecadação.

Responsável por mais de 60% das campanhas até o momento, a plataforma Doação Legal, que integra as startups de serviços financeiros Vakinha e OKPago, arrecadou R$ 616 mil, tendo como valor médio R$ 170 por doação. Há pré-candidatos que já acumulam mais de R$ 10 mil em doações, segundo a empresa. Até 15 de junho, a plataforma tinha 868 pré-candidatos com contas ativas, mas apenas 150 estavam efetivamente arrecadando. Entre as que estão em atividade, 420 ainda não tinham arrecadado qualquer valor.

Com 16 pré-candidatos cadastrados, a Doejá ainda não iniciou o financiamento. Sócio da plataforma, o advogado Álvaro Maimoni explicou que ainda estão conversando com os políticos. “Com a oficialização das candidaturas, o financiamento vai ganhar corpo. O que vai importar não é o valor doado, mas o volume de doações”, apostou. Para ele, essa é uma ferramenta que aproxima o eleitor de seu candidato.

Até a penúltima semana de junho, a Fundii, com 122 campanhas cadastradas, havia recebido 26 doações com um total de R$ 27.869,90. A plataforma Política Coletiva, da empresa Aparece Brasil, conta com 15 pré-candidatos ativos, mas nem todos iniciaram a campanha, e a arrecadação atingiu até o momento R$ 7.344,00. Outras plataformas não responderam ao levantamento.

Procurada pela Agência Brasil, a assessoria do TSE não informou dados consolidados das entidades, como valores doados e número de pré-candidatos que já aderiram ao novo tipo de financiamento.

Otimismo

A campanha eleitoral do ex-presidente norte-americano Barack Obama, em 2008, nos Estados Unidos, foi o momento em que o crowdfunding superou o tradicional financiamento de grandes doadores e dos próprios partidos. Obama arrecadou aproximadamente US$ 750 milhões em doações e repetiu a estratégia em 2012.

No Brasil, os sócios de plataformas e responsáveis pelas startups de serviços financeiros aprovados para prestar o serviço no Brasil estão otimistas. Para o diretor de Marketing do Vakinha, Cristiano Meditsch, o impulso se dará quando pré-candidatos de partidos tradicionais aderirem ao sistema e quando mais eleitores tomarem consciência de que o financiamento aumenta sua participação no resultado final das eleições.

"Quando o eleitor entender que está em suas mãos a mudança na política, este tipo de ferramenta começará a ser mais relevante e será benéfico para a democracia", disse.

Luciano Antunes, CEO do OkPago, disse que a expectativa é arrecadar R$ 20 milhões até a primeira quinzena de agosto. Segundo ele, com o término da Copa do Mundo, o financiamento participativo vai ganhar mais espaço e atenção da população.

Mesmo com o início da arrecadação, o repasse dos valores aos pré-candidatos só poderão ocorrer quando todos os requisitos definidos na norma do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estiverem cumpridos, entre eles o registro de candidatura, a inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e a abertura de conta bancária específica para registro da movimentação financeira de campanha.

Capacitação

A advogada Juliana Lacerda, da Agência Eleitoral, afirmou que o momento é de divulgação e capacitação dos pré-candidatos para que possam utilizar as plataformas de arrecadação, desconhecidas pela maioria. “Neste primeiro momento estamos oferecendo um trabalho de marketing político para os pré-candidatos para depois avançar no financiamento”, disse

Segundo a advogada, a plataforma optou por essa estratégia para tentar dar mais segurança aos candidatos que não estão familiarizados com o modelo. “Os políticos estão habituados a pedir votos, mas não sabem pedir recursos”, afirmou.

O receio de alguns políticos de lidar com as plataformas de vaquinha virtual pode contaminar partidos inteiros. Legendas importantes já decidiram que não vão aderir ao novo modelo, afirmou a advogada, sem citar nomes. O maior temor é o de que, por ser uma ferramenta nova, o pouco conhecimento possa levar a erros que coloquem em risco as candidaturas. “Estamos focados em preparar os candidatos porque se não souberem usar os meios da internet podem ter a candidatura impugnada”, acrescentou a advogada.

Um exemplo de erro que poderia ser cometido nestes espaços virtuais é que o TSE, quando autorizou o início das doações, deixou clara a proibição aos candidatos de pedirem votos durante a divulgação da arrecadação.

Tinder eleitoral

Na corrida para atrair candidatos e a atenção de eleitores, a plataforma Financiamento Ético, primeira autorizada pelo TSE, também decidiu usar o espaço virtual para reunir mais serviços além do financiamento participativo, incluindo interatividade e engajamento do eleitor.

Sócio da empresa, Leonardo Cunha destacou que a proposta de criar uma espécie de “Tinder eleitoral”, citando uma famosa rede de relacionamento virtual. “A gente quer que alguém que gostou de um político convide um amigo para entrar ali e conhecer e abrir portas para facilitar a interação entre os dois. Estamos tentando construir pontes”, disse, ao avaliar que o doador é alguém que dá mais do que o voto.

Para Cunha, além de uma “possibilidade fantástica” de construir um novo cenário político, a modernização do sistema de financiamento também cria soluções para outros problemas diagnosticados em campanhas anteriores. Dos 50 candidatos com contrato assinado com a plataforma, apenas três cumpriram requisitos criados pela empresa para começar a arrecadar. Um deles é que o candidato tenha acesso a redes sociais como WhatsApp, Instagram e Facebook.

“Nossa proposta é qualificar o político. Além do registro de locais por onde ele passou, essas redes permitem que a divulgação de sua candidatura seja virtual. Com isto, sanamos problemas até como o da poluição física que era registrada com a distribuição de panfletos e santinhos”, ressaltou.