Política
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Bebianno diz a aliados que não vai se demitir até falar com Bolsonaro

Após ter sido desmentido publicamente pelo presidente, o ministro-chefe da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, disse a a..

Folhapress - 14 de fevereiro de 2019, 12:50

Foto: Roque de Sá / Agência Senado
Foto: Roque de Sá / Agência Senado

Após ter sido desmentido publicamente pelo presidente, o ministro-chefe da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, disse a aliados que não vai pedir demissão do cargo e que só decidirá seu futuro após ter uma conversa com Jair Bolsonaro. Há uma expectativa dele de que um encontro ocorra nesta quinta-feira (14), embora não haja previsão em agenda.

Bebianno teve frustrados seus planos de se reunir na quarta (13) com o presidente. Bolsonaro voltou de São Paulo à tarde, onde esteve internado por 17 dias no hospital Albert Einstein.

A aliados, Bebianno disse que permaneceria em silêncio sobre o caso, e foi aconselhado a falar pessoalmente com Bolsonaro para medir a temperatura do problema. Ele espera um momento em que o presidente não esteja na presença do filho.

O chefe da Secretaria-Geral ficou no escuro desde que o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhos do presidente, escreveu na quarta que o ministro mentiu ao dizer que havia conversado por três vezes com seu pai no dia anterior. A publicação foi feita quando Bolsonaro estava em trânsito para Brasília.

"Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: 'É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista'."

Na sequência, Carlos divulgou um áudio de Bolsonaro falando a um interlocutor chamado "Gustavo" e que não poderia falar por estar no hospital. A postagem foi replicada pelo presidente nas redes sociais. Na noite de quarta, foi ao ar uma entrevista de Bolsonaro à TV Record na qual ele fala que Bebianno mentiu sobre as conversas.

Oficialmente, o Palácio do Planalto não vai comentar o assunto e assessores do presidente dizem que a ordem é tentar transparecer normalidade do governo.

Nos bastidores, o episódio incomoda ministros e parlamentares -inclusive desafetos de Bebianno- que veem no gesto do presidente uma deslealdade a um de seus aliados mais próximos no período de campanha.

A presença constante de Carlos ao lado de Bolsonaro também gera apreensões de que outros auxiliares possam ser futuramente alvo de retaliações. Há uma ala da bancada do PSL bastante descontente com a ação de Carlos. Parlamentares ouvidos pela reportagem dizem que ao expor o ministro o filho do presidente só desgasta o governo, e que ele não é um eleitor comum para que fique usando as redes sociais para criticar quadros do Planalto.

O apoio a Bebianno não é consenso na bancada do PSL na Câmara e há quem torça por sua queda por desafetos dos tempos da corrida eleitoral. O chefe da Secretaria-Geral, porém, tem apoio de parlamentares de outros partidos e conta com a simpatia do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Logo depois de chegar em Brasília, na quarta, Bolsonaro recebeu três ministros: Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Augusto Heleno (GSI) e Fernando Azevedo (Defesa). Na manhã desta quinta, os três têm uma reunião com Bebianno no Planalto. A assessoria nega que haja relação entre os fatos e diz que o encontro já havia sido marcado para tratar de "assuntos internacionais". Participam da agenda ainda o chefe da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, e o chanceler, Ernesto Araújo.

Antes do encontro, Santos Cruz disse que "qualquer problema sobre isso tem que ser resolvido". Ele se reuniu com Bolsonaro no Palácio da Alvorada pela manhã, mas Cruz negou que ter tratado sobre o tema com o presidente.  Ainda em recuperação de uma cirurgia de reconstrução do trânsito intestinal, Bolsonaro deve seguir despachando do Alvorada até o fim da semana.

Nesta quinta, ele tem uma agenda com os ministros Paulo Guedes (Economia) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil) para discutir a proposta da reforma da Previdência.

RELEMBRE O CASO

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo do último domingo (10) revelou que o grupo do atual presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), recém-eleito segundo vice-presidente da Câmara dos Deputados, criou uma candidata laranja em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. O dinheiro foi liberado por Bebianno.

Maria de Lourdes Paixão, 68, que oficialmente concorreu a deputada federal e teve apenas 274 votos, foi a terceira maior beneficiada com verba do PSL em todo o país, mais do que o próprio presidente Bolsonaro e a deputada Joice Hasselmann (SP), essa com 1,079 milhão de votos.

O dinheiro do fundo partidário do PSL foi enviado pela direção nacional da sigla para a conta da candidata em 3 de outubro, quatro dias antes da eleição. Na época, o hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência era presidente interino da legenda e coordenador da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), com foco em discurso de ética e combate à corrupção.

Apesar de ser uma das campeãs de verba pública do PSL, Lourdes teve uma votação que representa um indicativo de candidatura de fachada, em que há simulação de atos de campanha, mas não empenho efetivo na busca de votos.

A candidatura laranja virou alvo da Polícia Federal, da Procuradoria e da Polícia Civil do estado.

Nesta quarta, a Folha de S.Paulo revelou ainda que Bebianno liberou R$ 250 mil de verba pública para a campanha de uma ex-assessora, que repassou parte do dinheiro para uma gráfica registrada em endereço de fachada -sem maquinário para impressões em massa. O ministro nega irregularidades e diz que cuidou apenas da eleição presidencial.