Bolsonaro ataca Moro e diz que ex-ministro negociou vaga no STF

Vinicius Cordeiro

"Sergio Moro, o senhor disse que tinha uma biografia a zelar. Eu tenho um Brasil a zelar", retrucou Bolsonaro.
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Jair Bolsonaro (sem partido) acusou Sergio Moro de negociar uma vaga no STF (Supremo Tribunal) pelo cargo de Maurício Valeixo, diretor-geral da PF (Polícia Federal) exonerado na última madrugada. O ex-juiz federal pediu demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública na manhã desta sexta-feira (24), acusando Bolsonaro de interferir nas investigações da PF.

O STF terá pelo menos uma nova vaga aberta ainda neste ano. Marco Aurélio Mello, 73 anos, deve se aposentar em breve, mas corre por fora. Celso de Mello completa 75 anos no dia 1 de novembro, idade máxima para se aposentar.

Segundo o presidente, Moro teria pedido para que mudasse o comando da PF após o indicar ao STF. 

“Você pode trocar o Valeixo em novembro, depois que me indicar para o Supremo. Eu não troco. É desmoralizante, para um presidente, ouvir isso. Mais ainda, externar. Sergio Moro, o senhor disse que tinha uma biografia a zelar. Eu tenho um Brasil a zelar”, retrucou Bolsonaro.

Além disso, Bolsonaro disse que Moro não o quer na cadeira presidencial e que quis uma vaga em seu governo após vencer o primeiro turno das eleições presidenciáveis em 2018.

“Uma coisa é admirar uma pessoa, outra é trabalhar com ela. Hoje falei aos parlamentares: ‘vocês conhecerão aquela pessoa que tem um compromisso consigo próprio, com seu ego e não com o Brasil’. Tenho, ao meu lado, o povo brasileiro. Hoje essa pessoa vai buscar uma maneira de buscar uma cunha entre eu e o povo brasileiro. Isso aconteceu há poucas horas”, rebateu Bolsonaro.

“Desculpe, o senhor [Moro] não vai me chamar de mentiroso. Não existe acusação mais grave para um homem como eu, militar, cristão e presidente, do que ser acusado de mentiroso. O Brasil é maior que qualquer um de nós”, completou.

BOLSONARO ADMITE COBRANÇAS À PF E QUESTIONA CASO MARIELLE

O presidente Jair Bolsonaro admitiu que cobrou relatórios da Polícia Federal e que priorizaram as investigações da morte de Marielle, menosprezando sua tentativa de homicídio.

“Fala em interferência minhas na PF. Se posso trocar um ministro, por que não posso trocar um diretor? Eu não tenho que pedir autorização para ninguém. Será que é interferir na PF quase que exigir e implorar que se apure quem mandou matar Jair Bolsonaro. A PF mais se preocupou com Marielle com o chefe do Supremo. Entre meu caso e da Marielle, o meu está muito menos difícil de solucionar. Isso é interferir na Polícia Federal?”, questionou Bolsonaro.

Ainda sobre Moro, Bolsonaro disse que pediu ao ministro se manifestar à respeito dos últimos encontros entre ambos. Em uma reunião interministerial, Bolsonaro disse que cobrou Moro para impedir que pessoas fossem presas por circular em praias – as ações policiais foram uma das formas dos governadores limitarem a movimentação social no combate ao coronavírus.

“Teve um clima pesado, sim, para que ele tomasse uma decisão sobre mulheres algemadas na praia. Ele tinha que mostrar sua cara, ele tem amparo na lei do abuso de autoridade. Essa lei tem que ser cumprida. A resposta dele foi um silêncio”, disse Bolsonaro.

Por fim, Bolsonaro questionou que Moro indicou todos os cargos-chave da PF e que tinha dado confiança ao ex-ministro.

“Abri mão disso porque confiava no Moro. E ele levou sua equipe aqui para Brasília. Todos os cargos chaves são de Curitiba. Lógico que me surpreendeu. Será que todos os melhores estavam em Curitiba? Mas, vamos confiar, dar crédito. E assim começamos a trabalhar”, relembrou.

Contudo, após o rompimento das relações, Bolsonaro destacou a hierarquia do governo: “Autonomia não é soberania”.

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