Política
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Como vivem os presos da Lava Jato em Curitiba

"Não vai ser bom"… grita o policial federal, armado até os dentes, com fuzil apontado ao pequeno grupo de empresários qu..

Redação - 22 de janeiro de 2019, 20:00

CURITIBA, PR, 14.11.2018 – LULA-JUSTIÇA: O ex-presidente Lula presta depoimento na sede da Justiça Federal em Curitiba (PR) dando sequência a Operação Lava Jato e ao caso do sítio em Atibaia (SP). Está será a primeira vez que o ex-presidente deixará a Superintendência da Polícia Federal na capital do Paraná, desde sua prisão em abril deste ano. (Foto: Giuliano Gomes/PR Press/Folhapress)
CURITIBA, PR, 14.11.2018 – LULA-JUSTIÇA: O ex-presidente Lula presta depoimento na sede da Justiça Federal em Curitiba (PR) dando sequência a Operação Lava Jato e ao caso do sítio em Atibaia (SP). Está será a primeira vez que o ex-presidente deixará a Superintendência da Polícia Federal na capital do Paraná, desde sua prisão em abril deste ano. (Foto: Giuliano Gomes/PR Press/Folhapress)

"Não vai ser bom"… grita o policial federal, armado até os dentes, com fuzil apontado ao pequeno grupo de empresários que se desloca até a Justiça Federal, em Curitiba, para depoimento. Antes de erguer o tom da voz, o federal diz: fiquem em ordem, ergam as mãos e obedeçam porque, senão… "não vai ser bom". Assustados os empresários obedecem com medo de serem punidos. Entram no carro da Polícia Federal e vem o desespero de quem nunca passou por situação semelhante. O motorista liga a sirene, passa por cima de canteiros, meio-fio e vai desviando de um e de outro veículo como se estivesse levando um dos mais perigosos criminosos do país.

Chega na Justiça Federal, as mesmas recomendações… “não vai ser bom...”. Este pequeno grupo de empresários foi convocado para prestar esclarecimentos sobre delação premiada do ex-diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem do Estado do Paraná (DER), Nelson Leal Junior, que acusou, também o ex-governador Beto Richa e seu irmão, José Richa Filho, de terem supostamente participado de esquema de pagamento de propina no âmbito da operação Integração II, desdobramento da Operação Lava Jato, que investiga superfaturamento em obras e distribuição de propina no pedágio de rodovias federais no Paraná.

O empresário que nos conta como foram os 10 dias de "horror" até a liberação, que não pode se identificar porque o processo corre em segredo de justiça, relata que passou pela pior experiência de sua vida. Na prisão, no Complexo Médico Penal (CMP), o grupo acabou ficando ao lado de políticos e empresários também presos na Operação Lava Jato.

“Não existe ou não deve existir coisa pior no mundo do que você passar por um constrangimento desses e, o que é pior, sem saber exatamente do que se trata a não ser de uma denúncia de um bandido que confessou seus crimes e quer absolvição”, lamenta o empresário. "Veja meu caso – continua – não tenho ideia do que se trata e estou preso como um criminoso, um marginal qualquer", completa.

A reportagem também recebeu informações, através de cartas, sobre o que acontece no Complexo Médico Penal. “Durante o dia, há uma espécie de pacto harmonioso entre os presos, que passam parte do tempo lendo livros, cuidando da limpeza, fazendo grupos de orações e até discutindo política nacional, pois temos uma pequena televisão com canal aberto onde podemos assistir aos noticiários do dia a dia. O pior é quando começa anoitecer, quando temos que ir para as celas e o tempo não passa. E não há um ruído mais deprimente do que o trancafiar de uma cela”, relata a carta.

No mesmo documento, os presos, principalmente da Lava Jato, com denúncias de pagamento e recebimento de propinas do esquema da Petrobras, se queixam da atenção que os procuradores do Ministério Público Federal (MPF) dão aos seus processos. “Nos colocaram lá e parecem que querem que apodrecemos no local. É lamentável, desumano”, reclama.

De acordo com balanço do MPF, desde março de 2014, quando a Operação Lava Jato começou, até dezembro de 2018 foram 1.632 buscas e apreensões, 276 conduções coercitivas, 339 prisões preventivas e 139 prisões temporárias. Os procuradores apresentaram 144 denúncias. O MPF também firmou 176 acordos de colaboração premiada e 11 acordos de leniência, além de 1 termo de conduta.

Somente no Paraná, o MP apresentou 83 denúncias, em que 349 pessoas foram acusadas de envolvimento nos crimes. Dessas denúncias, 48 se tornaram ação penal e resultaram em 226 condenações contra 146 pessoas. As penas somam 2.120 anos, 5 meses e 20 dias de prisão.