Dilma depõe por mais de 14 horas no Senado

Roger Pereira


Com agências

Dizendo que sua condenação significará um golpe parlamentar, repetindo que não há crime de responsabilidade nos decretos que determinaram as “pedaladas fiscais” motivo pelo qual está sendo julgada, e acusando o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o presidente interino Michel Temer e a bancada de oposição de terem patrocinado o impeachment e bancado a política do “quanto pior melhor” para forçar seu afastamento, a presidente afastada Dilma Rousseff depôs por mais de 14 horas, nesta segunda-feira, apresentando sua defesa no processo e respondendo um a um dos senadores inscritos para indagá-la. O depoimento de Dilma foi o penúltimo passo no processo, que será retomado, às 10h desta terça-feira, com as alegações finais de acusação e defesa, antes de os senadores se pronunciarem e registrarem seus votos para definir o destino da presidente.

A presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), voltou a dizer que “há uma mancha, um pecado original” no processo de impeachment, com sua origem no que chamou de “explícito desvio de poder” cometido pelo deputado afastado e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Segundo Dilma, a relação de seu governo com Cunha piorou à medida que foram surgindo suspeitas de crimes envolvendo o nome do parlamentar, como a de que ele teria contas não declaradas na Suíça. Dilma disse também que o deputado afastado “encontrou na oposição inconformada com a derrota [na eleição de 2014] uma grande aliada” e que o processo de impeachment não veio das ruas, mas pelas mãos de Cunha.

Os comentários de Dilma vieram em resposta à pergunta do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) sobre quais condições Cunha teria imposto para barrar o avanço do impeachment e que passos o PMDB deu para tomar o poder.

O deputado afastado e ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse em nota que a presidente afastada “segue mentindo contumazmente, visando a dar seguimento ao papel de personagem de documentário que resolveu exercer, após a certeza do seu impedimento”.

o responder os autores do pedido de impeachment, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, Dilma afirmou que não se pode falar em dolo nos decretos de suplementação orçamentária porque eles não implicaram novos gastos ao governo. “Quando se edita um decreto de suplementação se determina uma área que receberá um novo recurso, desde que se indique de onde esse recurso sairá. É simples. Para se destinar mais recursos para algum lugar, precisamos tirar de outro, Não há mágica”, disse.

Em sua última fala no julgamento de seu processo de impeachment no Senado, a presidente afastada, Dilma Rousseff, defendeu que o país supere as disputas políticas na área econômica, sem posições “fundamentalistas” em relação às contas públicas e com a capacidade de acordos entre situação e oposição em momentos de crise. Para Dilma, o Brasil já tem “maturidade suficiente” para que não se tente “inventar crimes de responsabilidade onde eles não existem, ou tentar transformar a execução do gasto público num espaço de disputa ideológica que não tem consequências para o bem do país”. Dilma disse também que é necessário ter maturidade também para não inventar problemas que não existem e enfrentar os que existem.

Senadores contrários à aprovação do impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff e os favoráveis à cassação divergem se o depoimento de Dilma irá influenciar os votos dos parlamentares.

Aliados de Dilma elogiam as respostas da presidenta afastada e acreditam que será possível de atrair votos para impedir o impeachment, enquanto os adversários argumentam que Dilma fugiu das perguntas dos senadores e que o placar da votação, que deverá ocorrer até a madrugada de quarta-feira (31), não deve mudar.

Aliados

“Acho muito importante o desempenho da presidenta aqui [Senado]. Acho que ela respondeu todas as indagações dos senadores e a participação dela vai interferir no resultado da votação”, disse o líder do PT, senador Humberto Costa (PE).

Costa se diz otimista com a possibilidade de mudança de votos até a hora da decisão final. Segundo ele, várias pessoas próximas à presidenta Dilma estão conversando com senadores para conseguir os votos contra o impeachment. “Nossa expectativa é que amanhã (30) ou na quarta-feira (31), nós possamos ter mais seis votos para trazer a presidenta de volta. Estamos mantendo conversas com um número superior àquele que precisamos para garantir a volta da presidenta”, disse o líder.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que a fala da presidenta Dilma no plenário do Senado e as respostas dela “estão virando o jogo”. Para o petista, Dilma está respondendo a todas as perguntas e tendo o desempenho “fantástico e espetacular”. Lindbergh disse que Dilma está ganhando o jogo por goleada. “Estamos exultantes, a nossa militância está nas ruas, porque hoje é um dia que estamos virando o jogo. Há um clima de comoção na sociedade com a participação da presidenta no Senado”, disse.

 

Adversários 

Defensores da aprovação do impeachment argumentam que Dilma não está respondendo as perguntas dos senadores e está desperdiçando o tempo ao fazer propaganda do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vez de se defender dos crimes aos quais é acusada. “A presidente fugiu de [responder] todas as perguntas. A participação dela foi desperdiçada. Ela não se defendeu dos crimes”, disse o líder do PSDB, senador Cássio Cunha Lima (PB).

O tucano discorda de que a presença e a fala de Dilma no Senado poderiam mudar votos dos senadores. “Não há no meu entender a menor possibilidade de uma mudança de votos [com a fala de Dilma]. O discurso dela é a repetição de argumentos políticos que estão sendo feitos há meses. Ela perdeu por completo as condições de governar o Brasil. Ela fugiu de dar respostas às perguntas”, afirmou o tucano.

O presidente do DEM, senador José Agripino (RN), disse que mesmo a presidenta tendo o tempo que quiser para responder os questionamentos e abordar os temas como quiser, já que não há réplica, ela não conseguirá mudar votos dos senadores na votação final. “Isso não é capaz de mudar votos porque os argumentos que ela está usando são repetitivos, os de sempre. Não teve nenhum fato novo e não creio que haja nenhuma perspectiva de mudança”.

Previous ArticleNext Article
Roger Pereira
Repórter do Paraná Portal