Política
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Ditadura mantinha documentos com informa√ß√Ķes sobre jornalistas do DF

Marcelo Brand√£o ‚Äď Rep√≥rter da Ag√™ncia BrasilNa √©poca da ditadura (1964-1985), √≥rg√£os da Secretaria de Seguran√ßa P..

Julie Gelenski - 07 de março de 2017, 10:03

Marcelo Brand√£o ‚Äď Rep√≥rter da Ag√™ncia Brasil

Na √©poca da ditadura (1964-1985), √≥rg√£os da Secretaria de Seguran√ßa P√ļblica do Distrito Federal (SSP-DF) monitoravam de perto aqueles que eram considerados amea√ßa ao regime militar: comunistas e militantes de movimentos de esquerda. A SSP-DF mantinha perfis de v√°rios jornalistas, principalmente os que tinham alguma liga√ß√£o com partidos de esquerda ou sindicatos.

Ao descrever os jornalistas, a secretaria adotava um vocabulário informal, às vezes, grosseiro, revelando o temor do governo de um levante comunista na capital federal sob liderança dos profissionais de imprensa.

‚ÄúElemento nervoso e mal-educado‚ÄĚ; ‚Äúmau car√°ter‚ÄĚ e ‚Äúarrogante e insolente‚ÄĚ, dizem os documentos sobre alguns profissionais. Sobre um deles, disse a SSP: ‚Äúpara encobrir sua qualidade de comunista, costuma exibir uma foto ao lado do papa Paulo VI‚ÄĚ. Sobre outro, destacou: ‚Äún√£o consta que seja comunista. Ao que parece, um inocente √ļtil‚ÄĚ. Um foi descrito como ‚Äúpicareta‚ÄĚ e ‚Äúvaselina‚ÄĚ; outro, como ‚Äúvaidoso e med√≠ocre‚ÄĚ, embora escrevesse mal e tivesse seus coment√°rios revisados antes de publicados.

Os documentos, antes confidenciais, agora est√£o dispon√≠veis para consulta no Arquivo P√ļblico do Distrito Federal.

O radialista Hon√≥rio Dantas foi monitorado pela Divis√£o de Opera√ß√Ķes da SSP-DF quando criticou o ent√£o secret√°rio de Seguran√ßa P√ļblica do DF, Lauro Rieth, em uma reportagem sobre a pris√£o de despachantes nas imedia√ß√Ķes do Detran. ‚ÄúCostuma fazer reportagens cr√≠ticas aos governos federal e do DF, como porta-voz de l√≠deres sindicais e militantes de organiza√ß√Ķes esquerdistas‚ÄĚ, diz o ‚Äúhist√≥rico‚ÄĚ de Dantas, produzido em setembro de 1983.

Tr√™s meses depois, durante uma entrevista, Dantas desentendeu-se com o ent√£o comandante militar do Planalto, Newton Cruz. O general irritou-se com as perguntas e com o gravador de Dantas, muito pr√≥ximo de seu rosto. O radialista desligou o gravador e se afastou, mas Cruz n√£o gostou e acabou empurrando Dantas, que foi ir√īnico e se disse honrado por ter sido empurrado pelo general. Cruz foi atr√°s do rep√≥rter, pegou-o pelo bra√ßo e o fez pedir desculpas publicamente.

Programas de TV

Em um documento de novembro de 1982, a secretaria aborda programas de r√°dio e televis√£o, bem como o notici√°rio de jornais da cidade. O jornalismo da TV Globo √© classificado de ‚Äúmais respons√°vel‚ÄĚ e com maior cuidado com os fatos; o da TV Bras√≠lia, de ‚Äúlinha moderada‚ÄĚ; o da TV Nacional, de ‚Äúmed√≠ocre‚ÄĚ; e o da TV Capital, de ‚Äúmais contundente‚ÄĚ.

Sindicato Livre

Em 1977, jovens profissionais de tend√™ncia esquerdista aliaram-se a nomes consagrados na imprensa e formaram a chapa Sindicato Livre para tentar derrotar o grupo que, desde o golpe de 64, comandava o Sindicato dos Jornalistas do DF. A Divis√£o de Informa√ß√Ķes da SSP-DF compilou dados de todos os componentes da chapa.

Um deles era H√©lio Doyle, que foi chefe da Casa Civil do governo de Rodrigo Rollemberg. ‚Äú√Č comunista‚ÄĚ, dizia a SSP sobre a orienta√ß√£o pol√≠tica de Doyle. Armando Rollemberg, irm√£o do atual governador, foi identificado como ‚Äúmuito ligados ao comunista H√©lio Doyle‚ÄĚ e Helo√≠sa Doyle, citada como ‚Äúirm√£ do comunista H√©lio Doyle‚ÄĚ.

‚ÄúSab√≠amos que existiam agentes infiltrados, j√° t√≠nhamos ideia disso. A gente ia para os lugares e tinha que tomar muito cuidado, porque nas manifesta√ß√Ķes tinha sempre algu√©m olhando. N√£o surpreende que existisse monitoramento, que tivessem informa√ß√Ķes‚ÄĚ, disse Doyle em entrevista para a¬†Ag√™ncia Brasil.

Segundo o jornalista, a estrat√©gia da chapa foi colocar os mais visados pelo regime em cargos distantes da diretoria. Ele pr√≥prio candidatou-se a delegado representante no Conselho da Federa√ß√£o Nacional dos Jornalistas Profissionais, cargo que considerava mais ‚Äúinvis√≠vel‚ÄĚ no radar da ditadura. Os documentos da SSP-DF, no entanto, classificaram a fun√ß√£o de ‚Äúimportante e estrat√©gica‚ÄĚ.

A chapa Sindicato Livre foi vitoriosa, mas enfrentou obstáculos. A Delegacia Regional do Trabalho (DRT) tentou impugnar a candidatura de seus membros, mas o colunista Carlos Castello Branco, cabeça de chapa, freou as tentativas de desmonte, lembrou Doyle. De acordo com o jornalista, Castello Branco tinha boa relação com o então ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto.

‚ÄúO Castello mexeu l√° para n√£o mexerem na chapa dele. E tem um detalhe do qual pouca gente fala. O delegado do Trabalho, que cham√°vamos de doutor Val√©rio, embora fosse representante do Minist√©rio do Trabalho na DRT, tinha um pouco de simpatia por n√≥s. Ent√£o, uma s√©rie de coisas funcionou, e acabaram n√£o impugnando ningu√©m.‚ÄĚ

Revelação de documentos

Com base na Lei de Acesso √† Informa√ß√£o, os documentos confidenciais da SSP-DF tornaram-se p√ļblicos em fevereiro e podem ser consultados no Arquivo P√ļblico do Distrito Federal. Antes da quebra do sigilo, um edital convocou todas as pessoas citadas nos documentos que quisessem ocultar seus nomes em informa√ß√Ķes de car√°ter pessoal. Antes, s√≥ o pr√≥prio interessado podia ter acesso a essas informa√ß√Ķes.

‚ÄúSeguimos o modelo do Arquivo Nacional e publicamos edital divulgando a necessidade de abertura dos acervos e comunicando aos que tivessem sido citados para que se pronunciassem sobre a manuten√ß√£o da restri√ß√£o de acesso‚ÄĚ, disse a coordenadora de Arquivo Permanente do Arquivo P√ļblico do DF, Marli Guedes.

Se houvesse d√ļvida sobre a inclus√£o de seu nome nos arquivos, a pessoa poderia pesquisar e, ent√£o, pedir o sigilo. O prazo para manifesta√ß√£o foi de 30 dias, mas ningu√©m reclamou informa√ß√Ķes pessoais. ‚ÄúA Lei de Acesso √† Informa√ß√£o trata da transpar√™ncia da administra√ß√£o p√ļblica, mas n√£o afeta a intimidade‚ÄĚ, explicou Marli.

Para Doyle, a abertura dos documentos √© importante para preencher lacunas existentes desde os tempos de ditadura. ‚ÄúOs documentos t√™m de ser todos revelados. Os historiadores t√™m de ter esse elemento para escrever a hist√≥ria desse per√≠odo, uma vis√£o que ficou obscura durante muitos anos‚ÄĚ, afirmou o jornalista.