Política
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Doria marca conversas com Eduardo Leite e candidatos da terceira via

Após vencer acirradas prévias e ser indicado candidato a presidente em 2022 pelo PSDB, o governador João Doria (SP) fez ..

Igor Gielow - Folhapress - 28 de novembro de 2021, 14:58

Reprodução Twitter
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Após vencer acirradas prévias e ser indicado candidato a presidente em 2022 pelo PSDB, o governador João Doria (SP) fez dois movimentos visando apoio para a disputa do Planalto.

Primeiro, convidou o rival Eduardo Leite para integrar o comando de sua campanha, "em uma posição de protagonismo", diz o paulista. Segundo, marcou conversas com nomes da chamada terceira via para discutir alianças e estratégias.

"Queremos uma posição integradora, agregadora", afirmou Doria à Folha. Ele teve 53,99% dos 28.765 votos nas prévias, ante 44,66% do governador gaúcho e 1,35%, do ex-prefeito manauara Arthur Virgílio. O processo foi tumultuado por falha no aplicativo de votação e acusações mútuas de jogadas sujas.

Em relação a Leite, com que teve uma disputa dura, o paulista disse que combinou de conversa na volta de sua viagem a Nova York, onde vai liderar uma missão empresarial de 1º a 5 de dezembro. "Será como for mais confortável para ele", afirmou.

A reunião visa reduzir danos, dado que as altercações nos bastidores foram dignas de uma campanha presidencial. Leite foi apadrinhado por dois adversários figadais de Doria, o deputado Aécio Neves (MG) e o senador Tasso Jereissati (CE), e a prioridade de aliados do paulista é vê-lo no barco.

Isso, claro, não garante a unificação do partido em si. Questionado sobre como seria lidar com Aécio, que deve permanecer no PSDB, Doria disse sem entrar na bola dividida que "desejamos o apoio de todos os mineiros, não só de um".

Na visão dos aliados de Doria, Aécio apoiou Leite visando ver o partido sem candidato em 2022, para concentrar o PSDB no Congresso –hoje a bancada tucana na Câmara vota majoritariamente com o governo Bolsonaro. O mineiro nega isso, e diz que Leite seria o melhor nome para agregar forças.

Acerca dos colegas de terceira via, Doria não quis nomear, mas já conversou com alguns dos candidatos e com presidentes de partidos potencialmente aliados na noite de sábado (27), após ter sua indicação confirmada.

Historicamente, esse tipo de união beira o impossível no Brasil, e mesmo os ensaios de diálogo entre atores deste campo até aqui não foram muito frutíferos.

A partir da segunda semana de dezembro, pretende "conversar com todos", citando aí a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) e o ex-juiz Sergio Moro (Podemos).

Em relação ao último, Doria o viu agitar a bolsa de apostas da terceira via desde que sua candidatura virou uma realidade. O tucano é diplomático. "Ele é meu amigo, e entendo que ele deva fazer parte de uma frente em 2022. Ele não deve ser alijado de protagonismo, assim como os outros", afirmou.

No momento, o tucano não fala sobre o X da questão: quem deveria ser cabeça de chapa numa eventual união. Para aliados do paulista, Moro age como candidato, mas evita declarar-se abertamente como tal. Eles e políticos de outras siglas consideram que ainda é cedo para avaliar o que irá acontecer.

Com o movimento em duas frentes, Doria busca amenizar a principal crítica que lhe é feita: a de que seria obstinado demais pela ideia de ser presidente, apesar de ter grande rejeição tanto em São Paulo quanto em pesquisas qualitativas em outras praças eleitorais.

Na conversa com a reportagem, o governador lançou um aceno até ao seu maior desafeto em casa, o ex-governador Geraldo Alckmin, que ele já havia citado em seu discurso de vitória no sábado.

Padrinho de sua entrada na política, quando acabou por apoiá-lo na disputa da prefeitura paulistana em 2016, o e tucano acusa Doria de traição por ter cogitado disputar a Presidência em 2018.

Agora, Doria fechou a porta para uma candidatura de Alckmin ao governo estadual pelo PSDB ao filiar o seu vice, Rodrigo Garcia, ao partido. O tucano cumpriu o acordo com Garcia, que era do DEM, de lançá-lo à sua sucessão em 2022. Assim, Alckmin anunciou que está deixando o PSDB, provavelmente para o PSD.

"Eu dedico muito respeito a ele, tem todo o espaço para continuar no PSDB se quiser. Ele poderia ser candidato ao Senado, se houver entendimento com o senador José Serra. A posição é dele (Serra), mas se ele preferir ser o candidato a deputado federal mais votado do PSDB-SP, seria uma possibilidade", disse Doria.

Ausente da equação está José Aníbal, o suplente de Serra que ocupa o cargo até dezembro devido aos problemas de saúde do titular. O hoje senador dirigiu a comissão que cuidou das prévias e, ao fim, apoiou Leite, virando alvo do entorno do governador. Serra, por sua vez, apoiou Doria.

Esta foi a terceira vitória de Doria em prévias contra o establishment do partido. Em 2016, ele se viabilizou contra o desejo da cúpula da sigla para disputar a Prefeitura de São Paulo. O mesmo ocorreu em 2018, quando ele de forma criticada deixou a cadeira municipal para buscar o Palácio dos Bandeirantes.

"Isso mostra que o PSDB não tem dono. Toda prévia é difícil. Em 2016, havia bons candidatos. Agora, temos de construir a candidatura, somando apoios. Não será uma candidatura do PSDB, ou do João Doria", disse.

Questionado sobre o motivo da resistência a seu nome, tanto dentro de seu partido como entre políticos da mesma faixa de frequência, Doria sai pela tangente. "É natural na política."

Além desses dois passos iniciais, o tucano já vem estruturando um programa em linhas gerais. Ele mistura vitrines de sua gestão, como a Coronavac ou a saúde financeira e um pacote de R$ 50 bilhões em investimentos, com a artilharia dupla contra o presidente Jair Bolsonaro (rumo ao PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Um resumo dessa retórica pôde ser visto no discurso do sábado. Tendo se aliado a Bolsonaro no segundo turno de 2018, o tucano virou o maior rival do presidente nos estados.

Já seu antipetismo é mais antigo, remontando ao tempo em que encabeçava o grupo empresarial Lide.

Na economia, Doria desenha genericamente uma gestão liberal, para retomar capacidade de investimento social e em infraestrutura, com foco em privatizações e concessões. Seu principal conselheiro é o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que ocupa a secretaria estadual da área e deve ser candidato a senador pelo PSD-GO.