Eleições no Paraná: barbada para o governo; surpresas para o Senado

Roger Pereira


2018 foi ano eleitoral, que marcou grandes mudanças nos quadros políticos do Brasil. E o Paraná não ficou de fora. Além de dar o primeiro mandato executivo ao comunicador Ratinho Junior (PSC), os eleitores do estado derrotaram dois ex-governadores na eleição para o Senado e renovaram quase metade das bancadas de deputados, muito por influência da onda conservadora que culminou na eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência da República.

Se, na disputa para o Palácio Iguaçu, Ratinho Junior liderou de ponta a ponta e não deu chances para seus adversários em nenhum momento da campanha, na corrida pelas duas cadeiras ao Senado, Professor Oriovisto (Podemos) e Flávio Arns (Rede), só despontaram na reta final da campanha para desbancar Roberto Requião (MDB) e Beto Richa (PSDB), os grandes favoritos no pleito.

Ratinho Junior governador

Uma candidatura construída há anos, numa estratégia política bastante segura e eficaz, levou Ratinho Junior, a ser eleito, aos 37 anos, governador do Paraná. Pode-se dizer que a candidatura do empresário da comunicação foi construída desde quando ele perdeu a eleição para a prefeitura de Curitiba em 2012, para Gustava Fruet (PDT), depois de ter sido o mais votado no primeiro turno. Desde então, todos os movimentos de Ratinho Junior visavam ocupar o Palácio Iguaçu a partir de 1º de janeiro de 2019.

Aliado ao grupo político do então governador Beto Richa (PSDB), Ratinho não se precipitou. Esperou seu tempo, e apoiou a reeleição de Richa em 2014. Recusou, no entanto, o convite para ser candidato a vice, numa decisão que o permitiu desvincular-se dos escândalos de corrupção aos quais Richa acabou se envolvendo, disputar a eleição com o discurso de “novo” e, agora, estar apto a uma possível reeleição em 2022.

Além de não integrar a chapa de Richa, Ratinho também deu o que seria um passo atrás, abrindo mão de uma tranquila reeleição para a Câmara dos Deputados e candidatando-se a deputado estadual. Assim, além de eleger-se como o deputado mais votado (mais de 300 mil votos), mostrou todo seu potencial eleitoral e foi o grande puxador de votos de seu partido, o PSC, na época, fazendo a maior bancada da Casa, com 12 parlamentares, tornado o partido fundamental nas articulações políticas do estado.

Não demorou, foi nomeado secretário do Desenvolvimento Urbano de Richa, mais um cargo estratégico, pois pode, na pasta, percorrer o estado, visitar prefeitos e inaugurar diversas obras.

Com a renúncia de Beto Richa e a ascensão de Cida Borghetti (PP) ao governo, a ex-vice-governadora tornou-se candidata natural à reeleição e acabou conquistando o apoio formal de Richa, embora muitas das principais lideranças tucanas tivessem embargado na campanha de Ratinho. Sem querer, mais uma movimentação positiva para sua eleição, pois, durante a campanha, estouraram escândalos que levaram Richa, até, à prisão e o candidato, embora tenha sido secretário do governo tucano, conseguiu evitar que os casos contaminassem sua candidatura.

Foto: Rodrigo Felix Leal

Antes disso, no entanto, outro movimento no tabuleiro eleitoral foi ainda mais decisivo para a vitória de Ratinho. No dia 3 de agosto, já no período final para a realização das convenções partidárias, Osmar Dias (PDT), que despontava como principal adversário de Ratinho na corrida eleitoral, anunciou sua desistência da disputa, alegando não ter conseguido viabilizar uma aliança competitiva por não querer se submeter a negociatas políticas.

Sem um candidato forte de oposição (João Arruda – MDB – e Dr. Rosinha – PT – não conseguiram ocupar o espaço), Ratinho Junior já entrou na disputa como favorito para levar a eleição já no primeiro turno, como apontavam as pesquisas de opinião. Sua campanha, então, trabalhou para evitar o crescimento de Cida e Arruda, principalmente.

Foto de Geraldo Bubniak / AGB

Apresentando-se como novidade na política e prometendo “romper com as velhas práticas e os privilégios”, o então candidato evitou o confronto. Só participou dos debates das grandes emissoras de TV e, mesmo neles, não escolheu seus principais rivais para fazer questionamentos. Quando a campanha se acirrou, na reta final, e sua candidatura foi alvo de ataques mais contundentes, limitou-se às respostas oficiais, não dando margens para maiores explorações dos casos.

Sem sustos, chegou ao dia da votação, em 7 de outubro, apontado como eleito no primeiro turno por todos os institutos de pesquisa. O que acabou confirmado ao final da apuração. Com 3,210 milhões de votos, 59,99% dos votos válidos, Ratinho Junior foi eleito governador do Paraná, cargo para o qual tomará posse em 1º de janeiro.

Oriovisto e Arns desbancam favoritos para o Senado

Mesmo com duas vagas em aberto, a eleição para o Senado no Paraná tinha tudo para ser tão tranquila quanto a de governador. Com os dois principais expoentes da política paranaense na disputa: os ex-governadores Roberto Requião e Beto Richa, muitos outros potenciais candidatos nem sequer ousaram entrar na disputa. O caso mais emblemático foi o da senadora Gleisi Hoffmann (PT) que, encrencada com a Lava Jato e em meio às dificuldades enfrentadas por seu partido, abriu mão de disputar a reeleição e candidatou-se a deputada federal.

Iniciada a campanha, a tendência se confirmava, Requião e Richa, sempre com o emedebista á frente, lideraram todas as pesquisas com mais de o dobro de intenções de voto dos demais candidatos. A eleição de ambos estava encaminhada.

Foto: William Bittar | CBN Curitiba

Mas, aí, houve a Operação Rádio Patrulha, que, em 11 de setembro, a três semanas da eleição, prendeu Beto Richa por irregularidades cometidas quando governador do estado. Richa passou três dias detido e sua campanha derreteu. Nas primeiras pesquisas após a operação, ele já não aparecia mais entre os dois primeiros e Flávio Arns (Rede) passava a despontar.

 

Na reta final da campanha, no entanto, embalada pela onda Bolsonaro e pela consolidação da candidatura de Ratinho Junior ao governo, quem teve uma arrancada foi Oriovisto Guimarães (Podemos) que passou a ser mais frequentemente apresentado por Ratinho Junior como seu candidato ao Senado, até como parte da estratégia de desvincular-se de Beto.

Fundador e presidente do Grupo Positivo, Oriovisto disputava a primeira eleição de sua vida, aos 73 anos, Com patrimônio declarado de R$ 297 milhões, fez a campanha mais cara entre os candidatos, financiando quase que integralmente os R$ 3,3 milhões que gastou na campanha, um contrates com a campanha de Flávio Arns, que gastou “apenas” R$ 294 mil.

Na véspera da eleição, Oriovisto já aparecia tecnicamente empatado com Requião e Arns, mas em tendência de alta. E, com esse crescimento, o eleitor paranaense viu uma possibilidade de derrotar Richa e Requião de uma única vez e uma forte corrente de voto útil em Arns e Oriovisto surgiu nas redes sociais.

Após a apuração, a surpresa se confirmou. Oriovisto, com 2,96 milhões de votos e Arns, com 2,3 milhões, desbancaram Requião (terceiro colocado com 1,5 milhão de votos) e Richa (apenas o sexto, com 377 mil votos) e foram eleitos os novos senadores pelo Paraná. Por ironia, Requião acabou prejudicado pela derrocada de Richa.

Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Renovação no Legislativo

Aproveitando o tsunami Bolsonaro e contando com o puxador de votos Fernando Francischini, o PSL elegeu a maior bancada de deputados estaduais e comandou a renovação da Assembleia Legislativa do Paraná. O partido do presidente eleito conseguiu fazer oito cadeiras no Legislativo paranaense, quatro delas graças aos 426 mil votos de Francischini, o deputado estadual mais votado do estado.

Nas eleições de outubro, os Os paranaenses reelegeram 32 deputados e escolheram 22 novos parlamentares. Nada menos que 13 parlamentares candidatos à reeleição não tiveram os mandatos renovados pelo eleitorado: Nereu Moura (MDB), Adelino Ribeiro (PRP), Ademir Bier (PSD), Alexandre Guimarães (PSD), André Bueno (PSDB), Mara Lima (PSC), Claudia Pereira (PSC), Elio Rusch (DEM), Evandro Junior (PSDB). Hussein Bakri (PSD), Claudio Palozi (PSC), Péricles Mello (PT) e Wilson Quinteiro (PSDB).

Com a composição do governo Ratinho Junior (PSD) no entanto, foram abertas duas vagas na Assembleia, que serão ocupadas por Mara Lima e Hussein Bakri, após as indicações de Guto Silva (PSD) e Márcio Nunes (PSD) para o secretariado.

Na Câmara Federal, a renovação foi ainda maior: metade dos deputados eleitos não disputavam a reeleição. A renovação, no entanto, se deu com muitos nomes famosos da política, como a senador Gleisi Hoffmann, alguns deputados estaduais e outros herdeiros políticos.

O deputado federal mais votado, no entanto, é um “outsider”. Sargento Fahur, do PSD. Policial Rodoviário Estadual da reserva, o sargento, que ficou famoso por suas posições polêmicas defendidas na internet e virou, até, personagem de programa humorístico. Do partido de Ratinho Junior e se dizendo amigo pessoal de Jair Bolsonaro, Fahur surfou na onda de conservadorismo, na ascensão dos militares na política e no discurso da intolerância contra o crime para fazer mais de 300 mil votos e eleger-se para seu primeiro cargo político.

Sargento Fahur

Dez deputados que disputaram a reeleição não tiveram sucesso: Alfredo Kaefer (PP), Assis do Couto (PDT), Edmar Arruda (PSD), Evandro Roman (PSD), Leopoldo Meyer (PSB), Luiz Carlos Hauly (PSDB), Osmar Bertoldi (DEM), Osmar Serraglio (PP), Valdir Rossoni (PSDB) e Takayama ((PSC). Suplente de sua coligação, Evandro Roman, no entanto, assumirá uma cadeira na Câmara com as nomeações de Sandro Alex (PSD) e Ney Leprevost (PSD) para o secretariado de Ratinho Junior.

 

 

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Roger Pereira
Repórter do Paraná Portal