Política
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Empresa ligada a trumpista fecha contratos com governo Bolsonaro

A chegada de Jair Bolsonaro à Presidência em 2019 marcou uma guinada nos negócios de uma empresa ligada a Daniel Beck, a..

Folhapress - 05 de abril de 2021, 08:48

Foto: Isac Nóbrega/PR
Foto: Isac Nóbrega/PR

A chegada de Jair Bolsonaro à Presidência em 2019 marcou uma guinada nos negócios de uma empresa ligada a Daniel Beck, apoiador militante do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump que esteve em Washington durante a invasão ao Congresso americano, em janeiro passado.

Registros obtidos pela Folha mostram que, em janeiro de 2019, começo do governo Bolsonaro, Daniel e familiares mudaram o objeto social de sua empresa nos EUA, de prestação de serviços de publicidade para negócios voltados à área de segurança no Brasil.

Surgiu, assim, a Combat Armor Defense, que hoje atua com blindagem e venda de veículos, e já firmou alguns milhões de reais em contratos com o governo federal. Entre os clientes estão a Polícia Rodoviária Federal e o Ministério da Defesa.

A aposta no Brasil foi alta. O principal responsável pela empresa no país disse à Folha que no início de 2020 procurou em Brasília um dos filhos de Bolsonaro para fazer lobby. Segundo o relato, ele foi à Câmara e "pediu apoio" ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho do chefe do Executivo mais ligado aos trumpistas.

Eduardo não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem ao seu gabinete. Beck, o presidente da Combat Armor, ganhou destaque após viralizar nas redes sociais um vídeo em que afirmou ter se reunido com Rudolph Giuliani, advogado de Trump, e com o empresário Michael Lindell, conselheiro do ex-presidente, na véspera do ataque ao Capitólio.

Em outra gravação, no dia da invasão, Lindell mencionou ter tido um encontro com "o filho do presidente do Brasil" na noite anterior. Eduardo estava em Washington naquele momento.

De acordo com documentos do governo do estado americano de Idaho, a empresa de Daniel foi criada em 2011 com o nome de Ad Faction, Inc. Oito anos mais tarde, após um período de inatividade, foi resgatada com o nome de Combat Armor Defense.

Em março de 2019, após cumprir algumas formalidades, a empresa se instalou no Brasil. Em seguida, começou a construir uma fábrica em Vinhedo, em São Paulo. Beck chamou Maurício Junot de Maria, empresário brasileiro que já atuava no setor, para ser administrador.

Os negócios da empresa começaram a deslanchar a partir de 2020. Abriu uma filial no Rio de Janeiro e colocou superintendentes no Paraná, Espírito Santo e outro encarregado para o Nordeste.

Após vencer pregões para o registro de ata de preços junto à Polícia Rodoviária Federal no Rio, a Combat Armor assinou com a corporação três contratos para blindagem de veículos, no valor total de R$ 8,3 milhões, todos atualmente em execução e já empenhados, segundo nota enviada pela assessoria da PRF.

Ganhou também disputa no Ministério da Defesa para o fornecimento de veículo de representação blindado por R$ 273 mil e foi vencedora de licitação da Polícia Militar do Rio de Janeiro para aquisição de veículos blindados para transporte de pessoal. Um contrato já foi assinado com a corporação no valor de R$ 9 milhões.

O dono de uma empresa brasileira conhecida do setor, que competiu com a empresa de Beck em um desses pregões, disse à Folha ter ficado surpreso com o sucesso repentino da concorrente, uma empresa tão nova e com fábrica recém-aberta.

Em conversa com a reportagem, Junot de Maria, que se apresenta como CEO da Combat Armor, afirmou que procurou Eduardo Bolsonaro na Câmara no ano passado para apresentar a empresa.

"Foi há mais ou menos um ano. Fui na cara de pau", afirmou. "Bati na porta , onde todo o procedimento é feito por meio eletrônico e com apresentação de propostas em pregão eletrônico aberto a qualquer empresa que queira participar".

A assessoria de imprensa da PM do Rio de Janeiro afirmou que na licitação vencida pela Combat Armor "cumpriu-se todos os preceitos técnicos" contidos na legislação e "demais normas pertinentes ao assunto".

Disse ainda que a empresa venceu a seleção, "após a inabilitação de uma empresa concorrente por descumprimento das qualificações técnicas e econômico-financeiras exigidas no edital".