Força-tarefa da Lava Jato critica alterações na Lei de Repatriação

Roger Pereira


A força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF), responsável pela Operação Lava Jato, manifestou-se publicamente, em nota, contra as propostas de alteração na Lei de Repatriação de Recursos (lei 13.254/2016), alertando para a possibilidade de serem criadas janelas de impunidade para crimes graves.

Os procuradores já tinham críticas à legislação atual, afirmando que sua redação vigente não exige qualquer prova da fonte lícita dos recursos repatriados.

Agora, diz a nota do MPF, a discussão de se permitir a repatriação por servidores públicos, de se promover uma anistia para pessoas que já foram condenadas pela evasão de recursos, a extensão dos prazos e a cobrança de tributos apenas sobre o saldo e não sobre o total de dinheiro movimentado  incentivem a corrupção e a impunidade e colocam em risco o futuro da Operação Lava Jato.

Confira a íntegra da nota:

A força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná (MPF-PR) vem a público manifestar sua preocupação com propostas de alteração na Lei de Repatriação de Recursos (lei 13.254/2016), especialmente com a possibilidade de serem criadas janelas de impunidade para crimes graves.

Essa lei, de janeiro deste ano, instituiu um programa de repatriação com o objetivo explícito de promover a arrecadação de tributos e de multa, mediante a regularização de valores mantidos no exterior de origem lícita e que não foram declarados. Para incentivar a regularização, a lei estabeleceu que crimes de falsidade, sonegação e evasão de divisas relacionados aos recursos, assim como a lavagem de dinheiro oriunda desses crimes específicos, não serão objeto de punição. Outros crimes continuariam a ser passíveis de punição, incluindo corrupção e lavagem de ativos provenientes dela. Um dos problemas da lei, em sua redação vigente,é que não exigiu qualquer prova da fonte lícita dos recursos. Isso possibilita que valores mantidos na conta de um testa-de-ferro de um agente corrupto possam ser repatriados, sem indagação quanto à origem dosrecursos. A título de aprimoramento, seria pertinente exigir alguma indicação concreta, passível de conferência, para a origem do dinheiro, bem como informar o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (COAF) sobre todos os casos de repatriação, a fim de que o órgão possa identificar eventuais indicativos da prática de crimes mais graves.

Agora, passados quase dez meses da promulgação da lei, estão sendo discutidas alterações que são bastante preocupantes. Uma delas é o fim da vedação dos benefícios da lei a servidores públicos, políticos e seus parentes, o que pode ser um instrumento para diminuir as penas aplicáveis na própria Lava Jato. A proposta vai ao revés das normas internacionais que demandam a criminalização do enriquecimento ilícito de servidores públicos. Tratando-se de servidores públicos e políticos – pessoas de quem se espera um comprometimento mais significativo com a lei do que se espera do cidadão comum -, o correto é tornar crime a existência de patrimônio cuja origem lícita não possa ser comprovada, em vez de anistiar os crimes fiscais decorrentes da existência de patrimônio não declarado.

Outra sugestão muito perturbadora, veiculada na imprensa, é a possibilidade de anistia inclusive para aqueles que já foram condenados por crimes relacionados aos recursos a serem repatriados, desde que o processo não tenha transitado em julgado. Se aprovada, tal medida impactaria profundamente situações de lavagem praticadas por centenas de doleiros há décadas, inclusive no caso Banestado, já que processos de réus de colarinho branco se arrastam na justiça por décadas. Doleiros são operadores profissionais da lavagem de dinheiro que, na maior parte dos casos, quando não decidem colaborar com a justiça, são processados por crimes financeiros e tributários, ainda que tenham lavado recursos oriundos de corrupção e tráfico de drogas, o que é, em geral, difícil de descobrir e comprovar.

Outra mudança noticiada na imprensa é o pagamento dos tributos e da multa sobre o saldo dos recursos na data de 31 de dezembro, independentemente do montante global dos valores aportados no decorrer do tempo. Caso o objeto da lei fossem crimes de furto e o ladrão tivesse subtraído R$ 1 mil por semana, ao longo de cem semanas, totalizando R$ 100 mil, mas tivesse gasto R$ 99 mil, mantendo saldo de R$ 1 mil ao fim do ano, ele seria cobrado como se tivesse furtado apenas R$ 1 mil, e não sobre o total que ele desviou. A analogia expressa a injustiça da proposta em desfavor da sociedade, que foi vítima dos crimes. Além disso, pela lei, os crimes relacionados a todos os valores serão extintos, e não apenas os crimes relacionados ao saldo. Essa proposta de alteração vai ainda contra o próprio propósito da lei, que é a arrecadação tributária,pois sacramenta a sonegação de todos os valores recebidos que não compõem o saldo existente ao final do ano.

Por fim, causa preocupação a extensão do prazo para participação no programa, pois, em vez de simplesmente ampliar a arrecadação, a realização de prorrogações pode caracterizar um incentivo à permanente ilegalidade.

Tudo isso conduz a força-tarefa a reafirmar sua confiança de que o Congresso Nacional não permitirá a inserção de mudanças na lei que incentivem a corrupção e a impunidade e alertar a sociedade sobre os riscos das propostas que têm sido divulgadas, com o objetivo de contribuir para o debate e a transparência e preservar as investigações do caso Lava Jato.

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Repórter do Paraná Portal
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