Greca aposta em recall de sua gestão e identificação com os curitibanos

Narley Resende


Velho conhecido na cidade e com passagem até pelo Ministério do Turismo, Rafael Greca (PMN) desde 2006 não consegue se eleger para nenhum cargo público. Após amargar três derrotas consecutivas (em 2006 e 2010 para o cargo de deputado estadual; e 2012 para prefeitura) ele ressurge nesse ano como líder nas pesquisas. Confira a entrevista dele ao Metro Jornal, a quarta da série com os candidatos à prefeitura.

Por que o curitibano deve votar no senhor?

Porque eu tenho a condição de restaurar a qualidade no serviço público municipal. De revogar o atual abandono em que se encontram as estruturas públicas, de requalificar a máquina da prefeitura, livrando-a dos interesses alheios a história da cidade. Por exemplo, a saúde entregue para o PT, uma folha de pagamento maior do que o investimento que é entregue para a população. Eu tenho a condição de saber o que fazer no primeiro dia da nova gestão. Nada em Curitiba me é estranho, a prefeitura de Curitiba, que é complexa, não é para principiante, e o atual prefeito não merece ser reeleito.

E o que seria feito no primeiro dia da gestão?

A reintegração do transporte coletivo, a determinação de uma grande operação tudo limpo, para varrer, limpar, carpir, lavar, despichar, até porque nós estamos entrando na possibilidade de uma epidemia de dengue nos meses de verão. Enquanto a popula- ção abonada estiver na praia, a população mais humilde estará sujeita a este flagelo medieval, que é fruto da sujeira. O outro nome da dengue é sujeira, sujeira urbana.

A reintegração do transporte não depende de um acordo com o governador Beto Richa?

Veja, eu nunca tive subsídio. Eu não tinha acordo com nenhum governador e fiz a rede integrada metropolitana de transporte. Esta condição que você impõe vem da choraminga do Gustavo Fruet, eu vou fazer com ou sem o governador. Vou fazer o transporte integrado. Eu quero também, já nos primeiros dias de governo, organizar um acordo com o Hospital Pequeno Príncipe para estabelecer um pronto-socorro infantil pediátrico, de preferência usando alguma estrutura já existente. Quero também pactuar com os hospitais estabelecidos uma gestão de regulação da central de leitos, porque a Santa Casa, Trabalhador, Evangélico, Hospital das Clínicas, Cajuru e Erasto precisam atender os leitos de SUS. Os hospitais são vistos como credores da prefeitura, são maltratados, e as pessoas se acumulam nas UPAs. Aliás, UPA é um nome do PT, está revogado: serão centros de saúde 24 horas.

Toda semântica petista será revogada: as creches se chamarão creches, não se chamarão CMEIs, e as mulheres serão amadas, e não se falará em empoderamento das mulheres. O lixo será separado e não se falará em sustentabilidade. Porque todos falam frases e palavras como se a semântica resolvesse o mundo e salvasse a cidade. A semântica nos põe a perder, porque às vezes ela disfarça, ela é uma máscara para a mentira, para a safadeza, a falta de apoio ao povo no serviço público. Eu pessoalmente gosto muito de creche, porque creche tem uma coisa quase sagrada, significa presépio em francês, é o lugar do infante sagrado, do menino Jesus. As crianças são todas sagradas, elas merecem ser acolhidas.

Você concorda com este argumento do prefeito, de que houve queda de arrecadação e por isto está mais difícil administrar a cidade?

Não concordo. Eu vou demonstrar ao longo do processo eleitoral que a arrecadação de Curitiba vem crescendo. O saco de desculpas do Gustavo Fruet é tão furado quanto a sua aliança com o PT.

Na outra campanha havia a promessa do dinheiro para metrô. O senhor disse ‘eu com 1 bilhão só não faço chover’. Nos próximos anos a previsão é de que a cidade tenha menos repasses?

Eu acho que tem a possibilidade sempre de operação urbana casada, tem a possibilidade de parcerias público privadas, tem a possibilidade de investimento internacional. A capacidade de endividamento da cidade não está esgotada. Das coisas que o Gustavo está fazendo eu acho acertada esta parceria, este chamamento para uma PPP para um veículo leve sobre trilhos, ou veículo leve sobre pneus, é uma coisa que pode criar um horizonte. Vamos ver se os investidores chegar. E acho que a gente pode sempre ir para Brasília, ver se alguma coisa sobrou lá. E Brasília, quando tem menos dinheiro, tem muito dinheiro. Por exemplo, eu, na Caixa Econômica, fiz uma raspa de tacho uma vez e fiz 200 pontes, com o dinheirinho que sobrava das verbas.

Que grandes intervenções o senhor faria em Curitiba conseguindo este dinheiro?

A primeira delas é a requalificação do serviço urbano. Nós vamos fazer parcerias público privadas ou operações urbanas para viabilizar um Bairro Novo na Caximba. Depois do bairro dos Cruz, onde o Fruet diz que há um parque do Bugio, e o bugio está estressado, tem um bairro do PCC. É onde as ruas são feitas com lixo. Também um Bairro Novo no Umbará. Com certeza, é um dos lugares mais lindos de Curitiba, pode ser uma alternativa para irmos para a Fazenda Rio Grande sem termos que necessariamente duplicar a BR naquele trecho grande. Vamos trabalhar um Bairro Novo no Alto do São Francisco, com uma operação urbana também, porque o lugar onde eu nasci, eu cresci, virou uma cracolândia, não tem coisa mais triste do que o alto do São Francisco hoje. Vamos trabalhar a ideia de um transporte num eixo de sustentabilidade, que num primeiro momento pode ser o que está pronto, que é a Linha Verde, fazendo todas as trincheiras que faltou fazer. Vou arrancar dinheiro do Paraná Urbano, tem dinheiro lá, vou comer o queijo do Ratinho, me aguardem. Ele vai por todo o dinheiro no interior? Não vai. Ele vai por aqui.

Tem candidato falando em baixar a passagem de ônibus. Acha que tem margem?

Acho que tudo isto é muito relativo. Posso baixar no horá- rio que não é de pico. É uma proposta minha, porque daí eu estimulo ter mais público. Agora, o serviço tem que ser bom, o ônibus tem que ser novo, tem que ser limpo, tem que ser trocado a cada dez anos. O biarticulado não pode pegar fogo e ficar amea- çando não subir a ladeira do Parolin na Brigadeiro Franco. O ônibus não pode incendiar, como já incendiou. Eu mesmo vi incêndio, um na Erasto Gaertner, outro na Monteiro Tourinho.

Isso é desleixo?

Não sei o que é. Pouca prática, engajamento e interesses alheios à história da cidade. Ver os concessionários do serviço público como inimigos da prefeitura. Eles são parceiros, não são inimigos. Se são inimigos, tem que denunciar o contrato, como eu fiz com a Terpa-Lipater. Quando eles começaram a maltratar a cidade eu denunciei o contrato. Eu mandei a companhia de lixo embora pela televisão.

O que vai fazer para atender os moradores de rua?

Tudo que tenho o direito. Reabrir o restaurante debaixo do viaduto do Capanema. Refazer o ônibus da linha do sopão, lavar as ruas, o povo de Curitiba merece a rua XV limpa. O mármore branco vai voltar a ser branco, o diabásio preto vai voltar a ser limpo. E acolher os desvalidos com uma efetiva triagem social, até separando o joio do trigo. Dizem que há criminosos, há apenados, há traficantes, há assassinos no meio de pessoas muito pobres, muito humildes.

Você tem uma ideia do número de moradores de rua?

Falam em 4 mil, em 5 mil, em 2 mil, não interessa. Todos e cada um será triado de maneira eficiente pela competente equipe da FAS, que merece todo o meu respeito, mas com uma direção segura. Não sei se Margarita vai querer voltar a cuidar da FAS. Não perguntei ainda e estou com um pouco de medo de perguntar. Mas alguém inspirado no exemplo da Margarita vai cuidar da FAS.

Qual a sua opinião sobre a Área Calma e a Via Calma?

Menos indústria da multa e mais respeito à vida. E não é necessariamente a tinta derramada que salva vidas. Nós vamos fazer, se tivermos que fazer, ilhas de segurança, ou canaletas, ou ciclofaixas, tudo feito de pedra, cal, cimento, meio fio, granito, mármore – como convém a uma cidade de verdade. Não pintar de verde ou oferecer nossos ciclistas em sacrifício.

Qual a sua opinião sobre a briga de taxistas versus Uber?

Veja, tem o Cabify que ameaça o Uber. E tem o Uber e o Cabify que ameaçam o táxi. E tem outros serviços: emails ameaçam correios, SMS e whatsapps ameaçam telefônicas. Então essa uberização do mundo pede uma revisão dos contratos e dos pactos sociais. A minha primeira obrigação é com os taxistas de Curitiba, a minha primeira obrigação é com os hoteleiros de Curitiba. A minha primeira obriga- ção é com os donos de restaurantes de Curitiba, dos bares. Mas eu não posso fingir que não vi o que está acontecendo no mundo e nem posso pretender proibir.

Você iria preferia proibir o Uber a regulamentá-lo?

Se pudesse proibir, sim, mas eu não posso entrar no Vale do Silício. Então, eu tenho que regulamentar para poder taxar, para poder equiparar o serviço de táxi ao do Uber. Eu posso também passar a usar os táxis de Curitiba como frota pública da prefeitura. Em vez de ter carros oficiais ou carros alugados eu posso comprar corridas. Pode ser um modelo interessante. Eu tenho que tentar fazer uma coisa nova e eu vou fazer, mas o quê eu ainda não sei. Até porque a legislação no Brasil ainda é muito tê- nue, não tem quem explique o que é lícito e o que é ilícito.

Hoje o apoio do governador Beto Richa tira votos?

Não foi o que demonstraram as pesquisas. As pessoas já sabem do apoio e não têm medo nenhum. Veja, não é o apoio do governador, é do partido do governador. São sete partidos que me apoiam. O meu partido, todo mundo sabe, é Curitiba. E todo mundo que me conhece sabe que o Beto Richa não vai mandar em mim. Se o Requião não mandou, por que o Beto Richa haveria de mandar?

Mas o seu vice é indicado pelo Beto Richa?

O meu vice é uma escolha de todos os partidos que compõem um aliança. Foram propostos vários nomes e eu pessoalmente escolhi o Eduardo. Por que? Porque o pai dele presidiu a Associação Comercial, que é uma força econô- mica. Porque a mãe dele foi minha colega de colégio, e a memória da Isabel Pimentel merece ser honrada. Porque ele foi o exitoso diretor de promoção e marketing da Fundação Cultural de Curitiba, e gosta de música. Quem gosta de música já é de cara quase um bom sujeito, já se descobre que é gente boa. E depois, porque ele fez uma excelente gestão de agronegócio na Ceasa. Além de ele ser refinado, educado, neto do doutor Leônidas Mocellin, que é um dos mais ilustres médicos de Curitiba. E ao mesmo tempo é neto do governador Paulo Pimentel, que nos deu uma receita: “Aqui se trabalha”. Um guri criado no “aqui se trabalha” não pode ser vadio: vai ser bom vice.

Como será a sua gestão na cultura?

A cultura será complemento da escola. Os artistas ficam nos teatros vazios, nas galerias com pouca gente. Nos espetáculos que fracassam esperando público. O caminho é casar os jovens, os estudantes, com os produtores de cultura e termos enfim uma cidade onde os teatros estejam cheios. Vamos fazer cultura para todos e para muitos. Vamos usar a identidade da cidade como o grande indutor. Com certeza ninguém me impede de fazer um parque João Turin, agora que o Samuel Lago fundiu todas as estátuas do Turin.

O bosque do Bom Retiro está lá na mão da Federação Espírita. Não deu para fazer o shopping que queriam depois que demoliram o hospital. E o Turin era fundador da Federa- ção Espírita, ou seja, lá no céu já estão todos trabalhando para eu fazer o bosque paranista João Turin, e no circuito do museu Oscar Niemeyer. Será um espaço paranista – se der, vou fazer ali. Se não, faço em outro lugar. Vou trabalhar a identidade ecológica e multiétnica de Curitiba, Nós podemos fazer congressos. Curitiba tem a possibilidade de fazer grandes congressos sem precisar construir um centro de convenções.

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