Junho de 2013 mudou tudo, segundo Fruet

Narley Resende


Metro Jornal Curitiba

Preparando a entrega do cargo, o prefeito Gustavo Fruet (PDT) classifica as manifestações de junho de 2013 como o divisor de águas – depois delas, a popularidade da gestão não voltou a subir.

O senhor decidiu o que vai fazer após deixar o cargo?

Em janeiro eu volto para o escritório na Westphalen. Também por atividade profissional – em consultoria, vou participar de palestras ou dar aulas. Depois, tem uma viagem programada. Mas nos primeiros três meses eles vão atribuir tudo à minha gestão.

Vamos ver muita justificativa e muita transferência de culpa. Depois de seis meses a população vai começar a entender, e não foi por falta de aviso, que essa é a realidade. Uma avaliação política mais segura é daqui um ano.

O senhor acha que gastou pouco em propaganda. Isso influenciou nas eleições?

Foi a gestão que menos investiu em publicidade. Acho a comunicação importante e gostaria de ter feito mais, mas não tinha recurso. Apesar disso, na questão eleitoral há vários fatores: em nenhum momento eu tive trégua, não só por questões locais, como também nacionais.

Junho de 2013 foi um divisor para mim. Desde aquele momento eu não consegui mais recuperar os indicadores positivos de gestão. E foi um fator que fugia de Curitiba. Nós baixamos a tarifa em R$ 0,15, mas a sociedade naquele momento apoiava as manifestações. Hoje eu não sei qual seria a reação.

E foi um momento de convergência de fatores desafiadores: a maior crise econômica, a maior queda em recursos novos da União e do Estado, aumento da demanda. E tem um ingrediente maior – o aumento da insatisfação, o que é compreensível. Na Lava Jato todos os dias. É como se fosse uma série, a gente não sabe quem vai ser preso amanhã.

Qual a expectativa para a transição e para os próximos anos da prefeitura?

Quero fazer uma transição como não tive, deixando claros os problemas, claros os investimentos, os projetos. Na política nacional tem muita variável. A primeira é a possibilidade do Eduardo Cunha atingir o núcleo central do governo. Mas se a situação econômica melhorar, a população está tão cansada que isso vai dar um fôlego para o mundo da política e para governo.

Nesta eleição, apesar da agenda local ter sido importante, em alguns pontos houve unidade com o que a gente teve no Brasil: o discurso da lei e da ordem, mais discursos contra gastos sociais.

A saúde voltou ao centro do debate eleitoral. Qual a razão disso?

O aumento da demanda na saúde foi acima de qualquer aumento na história recente. Em UPAs o aumento chegou em alguns momentos a 40%. Mas também aumentamos a rede, vamos entregar 76 unidades requalificadas – eu escutei que em seis meses todas serão requalificadas, são 109. Das UPAs, quatro já foram e a quinta será entregue.

A percepção para quem usa (a rede de saúde), mesmo com esses problemas de espera, a avaliação é positiva. A percepção mais negativa é para quem não usa, e para quem depende da especialidade – mas aí há uma mistura de competências. Isso fica associado a um problema de gestão do município, quando na verdade é um problema de financiamento.

A próxima gestão vai se endividar para financiar as promessas?

A capacidade de financiamento da prefeitura é de 120% da receita. Hoje ela está em torno de 14%. Mas algum tempo atrás a prefeitura, para fazer um empréstimo, tinha que dar contrapartida de 20% – e parte disso podia ser em serviço. Hoje não é possível mais.

Se a prefeitura quiser fazer um financiamento, ela tem que garantir 100% de contrapartida. A prefeitura poderia emprestar (e aqui está se falando apenas em tese, por favor), mais de R$ 3 bilhões, só que ela não tem disponível esse valor para a contrapartida. Nós temos pedidos fundamentalmente para pavimentação e para as obras da Linha Verde.

No caso da saúde, são 97 especialidades e, dessas, em 60 a gente colocou uma atenção, ou zerou a fila, ou a espera chegou no máximo a três meses. É o caso da oftalmologia, tratamento aos idosos, cardiologia, otorrino.

Mas tem outras especialidades em que o SUS paga um valor que sequer paga a atuação profissional – o exemplo é a ortopedia. A prefeitura, além de cuidar da atenção básica já está subsidiando a média e alta complexidades. Por isso eu acho que a promessa que vai ser zerada fila de especialidades não vai ter recurso – porque há um número expressivo represado e a demanda só tende a aumentar

Dá para manter o preço atual da tarifa de ônibus?

Se o governo bancar o subsidio, eu não tenho esta conta final, mas próximo de R$ 10 milhões por mês, vai dar para manter. Lembrando que mesmo com o subsídio na região metropolitana, que o governador disse que era suficiente, a tarifa subiu para até próximo de R$ 5.

O contrato que eles fizeram determina o reajuste anual pelo menos pela inflação do período e a folha chega em torno de 50% do custo total. É muito pouco provável que os motoristas não tenham reajuste, e normalmente ele tem sido acima da inflação. Há uma série de questões que podem ser feitas em um acordo com as empresas, mas elas só vão topar se houver, evidentemente, o repasse de mais dinheiro.

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