Lava Jato: Esquema nos pedágios do PR existe há 19 anos; Irmão e primo de Richa são alvos

Fernando Garcel

WhatsApp Image 2018-09-26 at 10.31.25

Atualizado às 15h30

Em coletiva de imprensa na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, a força-tarefa da Lava Jato esclareceu detalhes sobre a investigação que apura o esquema de corrupção na concessão de rodovias federais no Estado do Paraná que fazem parte do chamado Anel da Integração. O esquema teria movimentado R$ 35 milhões em propinas, entre os anos de 1999 e 2015, sem a atualização monetária.

A 55ª fase da Lava Jato cumpriu 73 mandados de busca e apreensão, 3 mandados de prisão preventiva e 16 mandados de prisão temporária na manhã desta quarta-feira (26)

Segundo o procurador da República Diogo Castor de Mattos, os depoimentos e outras provas produzidas pela investigação levantam que os esquemas de corrupção existem desde 1999 e abrangem todas as seis concessionárias de pedágio do Paraná.

Nova fase da Lava Jato foca em concessão de rodovias federais em três estados. Irmão e primo de Richa são alvos

“Elas tinham aditivos favoráveis, aditivos que suprimiam obras e que aumentavam tarifas sempre com a justificativa de suposto reequilíbrio financeiro”, diz o procurador que elencou uma série de obras que deixaram de ser realizadas durante os 19 anos de pagamentos de propina.

Segundo o procurador, os delatores declararam que com o avanço da Lava Jato os acordos acabaram sendo encerrados, mas as concessionárias mantiveram os pagamentos diretos para servidores públicos, como confessado pelo ex-diretor-geral do DER Nelson Leal e do ex-presidente da Econorte Hélio Ogama, até janeiro de 2018.

O procurador esclareceu que os crimes cometidos em 1999 podem estar prescritos, mas que os colaboradores indicaram que os agentes públicos que recebiam propina no DER naquela época seguem, agora, na Agência Reguladora do Paraná (Agepar), receberam vantagens indevidas recentemente e podem ser responsabilizados.

“O ex-presidente da Econorte [Hélio Ogama] cita três pessoas que ele indica como beneficiários diretos. Ele narra que quem gerenciava tudo isso era o diretor da ABCR [João] Chiminazzo. […] Da parte do DER, os beneficiários finais eram Nelson Leal Júnior, José Richa Filho, além de Aldair Petre e outras pessoas relacionadas à Secretária de Infraestrutura e Logística que estão sendo investigadas e foram alvos de medidas”, explica Diogo Castor de Mattos.

Beto Richa

Também na coletiva de imprensa, a força-tarefa esclareceu que o ex-governador Beto Richa, alvo da Operação Piloto, não foi alvo de mandados de busca e apreensão na operação de hoje. “Segundo Nelson Leal Júnior, o ex-governador seria um dos beneficiários finais do esquema, via Luiz Abi. Ele relata de um encontro presencial com o governador, em meados de 2014, no Palácio Iguaçu, para tratar desse tema”, esclarece Mattos.

Luiz Abi

Luiz Abi Antoun, primo do ex-governador, que foi preso durante a Operação Rádiopatrulha e solto por decisão do ministro Gilmar Mendes na última semana, também foi alvo da Operação Lava Jato hoje. Ele recebeu autorização da Justiça estadual para deixar o país e o mandado de prisão não foi cumprido.

Alvos da operação

Entre os alvos da operação estão o empresário Luiz Abi Antoun, primo do ex-governador e candidato ao Senado Beto Richa (PSDB). Ele foi um dos presos da Operação Rádio Patrulha, do Ministério Público do Paraná (MPPR), no dia 11 de setembro e solto três dias depois após uma determinação do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Também estão na lista o diretor da Associação Brasileira de Concessões Rodoviárias, João Chiminazzo Neto, e o ex-secretário de Infraestrutura do Paraná e irmão de Beto Richa, Pepe Richa.

Foram identificados os núcleos político, técnico, empresarial e de operadores financeiros. O esquema teria movimentado R$ 35 milhões em propinas, entre os anos de 1999 e 2015, sem a atualização monetária. Os investigados responderão pelos crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, fraude a licitações, lavagem de dinheiro e associação criminosa, dentre outros.

Outro lado

Após a operação, a defesa do ex-governador Beto Richa negou qualquer envolvimento com as investigações. Os advogados do ex-secretário José Richa afirmaram que ele nunca foi chamado para prestar esclarecimentos à Polícia Federal.

Já a atual governadora do Paraná, Cida Borghetti, afirmou que todos os investigados serão exonerados imediatamente. Confira as notas na íntegra:

Nota da defesa do ex-governador Beto Richa

O ex-governador Beto Richa nunca foi condescendente com desvios de qualquer natureza e é o maior interessado na investigação de quaisquer irregularidades. Beto Richa segue confiando na Justiça e tem a certeza que o devido processo legal provará sua inocência.

Governo do Paraná

Em razão da Operação Integração 2, promovida pela força-tarefa Lava Jato, a assessoria de comunicação do Governo do Paraná informa que: 1 – A governadora Cida Borghetti determinou a imediata exoneração de todas as pessoas que ocupam cargos em órgãos do Estado e foram alvo de prisão ou de mandados de busca e apreensão; 2 – A governadora Cida Borghetti determinou que todos os órgãos do Estado prestem total colaboração com as investigações em curso, e que a Divisão de Combate à Corrupção, criada em abril, acompanhe e auxilie no trabalho realizado pelos órgãos federais; 3 – A governadora Cida Borghetti determinou à Controladoria Geral do Estado a imediata instauração de um processo administrativo contra todos servidores públicos – efetivos e comissionados – citados na investigação; 4 – Por determinação da governadora Cida Borghetti, em junho último, todas as empresas que administram rodovias do Estado já foram oficialmente notificadas do encerramento dos atuais contratos ao fim do prazo de concessão. O Governo do Paraná está promovendo audiências públicas para a construção de um novo modelo de concessão, em conjunto com a sociedade

Nota da defesa de José Richa Filho

A defesa do ex-secretário de Estado de Infraestrutura e Logística, José Richa Filho, informa que o investigado nunca foi chamado pela Polícia Federal para esclarecer quaisquer fatos atinentes à operação realizada na data de hoje. O processo tramita sob sigilo na 23a. Vara Federal e, apesar de requerido pela defesa, até o momento, não se obteve acesso aos autos. O ex-secretário seguirá colaborando com a Justiça e confia que sua inocência restará provada na conclusão do processo.

Previous ArticleNext Article