Lula completa um ano na prisão; período foi marcado por manifestações, campanha eleitoral fracassada e perdas na família

Fernando Garcel


Foi no dia 7 de abril do ano passado que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou à sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba para dar início ao cumprimento da pena em que foi condenado na Operação Lava Jato.

Condenado a 12 anos e um mês de prisão, o primeiro ano do ex-presidente na cadeia foi marcado por manifestações, um acampamento em frente ao prédio da PF que alterou a rotina de moradores da região, inúmeros habeas corpus negados, uma campanha eleitoral fracassada, uma nova condenação e a morte de seu irmão e neto.

Prisão

Com a prisão decretada pelo então juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (PSL), principal opositor do petista nas eleições do ano passado, Lula permaneceu por 26 horas na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo antes de deixar São Paulo sob escolta policial para Curitiba. Lá, ele falou aos seus seguidores que se entregaria para provar que não deve nada para a Justiça. Ele também gravou vídeos que seriam exibidos após a prisão.

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A chegada do ex-presidente foi marcada por conflito entre apoiadores e manifestantes contrários ao petista. O Batalhão de Choque da Polícia Militar teve que atuar para conter os dois grupos. Uma equipe de TV precisou de escolta.

Logo após a prisão, caravanas com apoiadores de Lula de todo o país começaram a chegar em Curitiba e montar acampamento nos arredores da Superintendência da PF, no bairro Santa Cândida. Batizada de “Vigília Lula Livre”, o acampamento chegou a reunir cerca de mil pessoas. A Prefeitura expediu um interdito proibitório o que levou os apoiadores a deixarem as ruas do entorno. Eles foram levados para terrenos particulares e alugados pelos movimentos.

Visitas

Os pedidos de visita também foram um caso à parte. Comissões da Câmara e do Senado solicitaram a entrada na Polícia Federal para visitar Lula. Os senadores conseguiram, os deputados não.
Outras pessoas tentaram visitar o ex-presidente como a ex-presidente Dilma Rousseff, o Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel e o teólogo Leonardo Boff, mas todos foram impedidos.
Após tantas negativas, a senadora e presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann e o petista Jaques Vagner foram os primeiros a visitar o ex-presidente.

O partido sempre defendeu que a prisão de Lula foi política. Gleisi Hoffmann chegou a afirmar que o ato fez com que o país fosse conhecido como uma “republiqueta de banana”.

A quinta-feira foi o dia da semana instituído para as visitas a Lula, além da família, outros dois amigos podem se encontrar com o petista. Passaram pela Polícia Federal nomes como o ator americano Danny Glover, os músicos Chico Buarque e Martinho da Vila e o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica.

Foto: Divulgação

Prende e solta

A prisão do ex-presidente também causou um imbróglio jurídico envolvendo diversos pedidos de habeas corpus e uma decisão emblemática do desembargador federal Rogerio Favreto, magistrado plantonista do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), que determinou a soltura de Lula no dia 8 de julho.

Na sequência, Sérgio Moro, juiz responsável pela sentença do processo na primeira instância, em férias nos Estados Unidos, questionou a atitude do desembargador e determinou que o ex-presidente permanecesse preso até a decisão final do relator do processo no TRF4.

Em poucas horas, Favreto voltou a pedir a liberdade imediata do presidente o que não ocorreu por determinação do presidente do TRF4, desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz.

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Eleições

Apontado como favorito nas pesquisas, Lula foi mantido como candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) enquanto pôde, mas quem concorreu foi pelo partido foi o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, ao lado de Manuela D’Ávilla (PCdoB), estiveram na chapa que acabou derrotada no segundo turno da eleição presidencial de 2018.

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Já no período pós-eleições, a decisão do juiz federal Sérgio Moro de deixar a magistratura para assumir o cargo de ministro da Justiça do presidente eleito Jair Bolsonaro surpreendeu à todos e serviu de munição para a tese da defesa de Lula que sustenta a parcialidade e a forma política com que Moro agiu nos últimos anos.

Vavá

Foto: Reprodução / Twitter

Em janeiro, o ex-presidente recebeu a notícia da morte de seu irmão, Genival Inácio da Silva, de 79 anos, o Vavá, devido a complicações causadas por um câncer de pulmão.

O artigo 120 da Lei de Execução Penal (LEP) garante que condenados que cumprem pena em regime fechado podem obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer falecimento de cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão, mas Lula não foi liberado pela Justiça antes do sepultamento de Vavá, em São Bernardo do Campo.

A liberação aconteceu por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) após o enterro e Lula desistiu da viagem.

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Nova condenação

Em fevereiro, Lula foi condenado a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, no caso envolvendo reformas em um sítio em Atibaia, em São Paulo. Esta segunda sentença é da juíza substituta Gabriela Hardt, que ficou responsável por conduzir os processos da Lava Jato na primeira instância da Justiça Federal após a saída de Moro.

Somada a condenação anterior, Lula deverá cumprir pena por 25 anos, caso os recursos sejam negados pelas instâncias superiores da Justiça, mas poderá progredir para o regime semiaberto a partir de 2022, caso não ocorra novas condenações

Condenado a 25 anos, Lula poderá progredir para semiaberto em 2022,

Arthur

Pouco mais de dois meses após a morte do irmão, o petista sofreu uma nova perda na família. Seu neto, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, deu entrada no Hospital Bartira, em Santo André, na manhã de 1º de março e sua morte confirmada por volta das 12h. Inicialmente, o hospital tratou o caso como uma meningite mas exames descartaram essa hipótese semanas depois.

Foto: Reprodução

Com a morte de Arthur, a defesa protocolou um pedido para que o ex-presidente fosse até o velório do neto. Diferente da última decisão, a juíza Carolina Lebbos, responsável pela Execução Penal dos condenados pela Lava Jato, autorizou o deslocamento de Lula desde que ele não fizesse declarações públicas ou houvesse a convocação de militantes.

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Nesta semana, segundo a Folha de São Paulo, uma fonte próxima da família e quatro infectologistas apontam que Arthur foi vítima de uma infecção generalizada originada pela bactéria Staphylococcus aureus.

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